Tempestades de raios e de intolerâncias

Francisco Bicudo | 07 de março de 2016

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O sonho de levantar mais um caneco e de acrescentar a sexta estrela à camisa foi espezinhado e humilhado naquela desesperadora tarde de 8 de julho de 2014, no Mineirão. Não sei se compensa ou se conforta, mas, para além dos fracassos cada vez mais frequentes do nosso futebol, torcida brasileira, ainda temos o que comemorar. Sabiam que o Brasil é o campeão mundial de incidência de raios?

Pois é. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), despencam em nosso território, por ano, 57,8 milhões daqueles rastros luminosos que rasgam os céus e me fazem dar pulos da cadeira. Batemos de longe a República Democrática do Congo, segundo colocado (43,2 milhões), e os Estados Unidos, medalha de bronze (35 milhões). Vinte mil desses raios caem na cidade de São Paulo, muito embora minha sensação seja de que todos eles, os 57 milhões, sem dó nem compaixão, atormentem apenas a cidade onde vivo. Explicam os especialistas que essa estrondosa avalanche de descargas elétricas acontece porque o país ocupa enorme faixa de clima tropical, com temperaturas elevadas durante boa parte do ano. E graças ao aquecimento global, a tendência é que as tempestades com relâmpagos tornem-se cada vez mais frequentes e violentas. Para meu desespero. Sério mesmo que imaginamos que poderíamos despejar impunemente e todos os dias setenta milhões de toneladas de CO2 na atmosfera, sem consequências e respostas da natureza?

Sempre que o céu escurece e os estrondos começam a cantar em sinfonia afinada com as explosões de luz, lembro do verso da canção “Metade”, da Adriana Calcanhoto. Eu perco o chão, eu não acho as palavras. Ao contrário do mestre Raul Seixas, eu não perdi o meu medo da chuva. Diante dessas tempestades, sinto-me completamente impotente, fico atordoado. Tremo da cabeça aos pés. Corro para fechar todas as cortinas e janelas. Desligo todos os aparelhos eletrônicos. Proíbo qualquer um de usar chuveiro elétrico e tomar banho. Fico mudo e encolhido num canto, contando os barulhos e afastando o olhar dos clarões, dizendo baixinho ‘está passando, vai passar’. Nessas horas, não tem racionalidade que resista. É só pânico, incontrolável. Não adianta dizer ‘calma, é só uma chuva’. Os neurônios não processam o que o coração não sente.

Acho que reajo um tanto como nossos ancestrais, hominídeos que, apavorados, buscavam abrigos nas copas das árvores e nas cavernas quando as tempestades davam o ar da graça. Agachados, atônitos e assustados, tentavam entender que malucos fenômenos eram aqueles. Magia? Sobrenatural? Natureza? O fato é que, apesar de todos os avanços e das parafernálias que nos cercam, da vida moderna com conforto e casas e pára-raios que nos protegem, ainda estão escritas nas nossas células reminiscências daqueles nossos instintos mais primitivos.

Ontem, hoje e sempre – minha reverência e admiração pela mãe natureza. É ela quem está no controle. Chove, chuva. Chove sem parar. Deixa chover, deixa a chuva molhar. Aproveita para encher o Cantareira. Mas pode ser, por favor, sem estrondos e clarões? Chuvinha leve e amiga, fina, tradicional garoinha paulistana. Só para conseguir terminar minha leitura sem sobressaltos. Que livro leio? ‘Como conversar com um fascista’, da filósofa Marcia Tiburi. Porque também ando muito assustado com as tempestades nossas de intolerâncias, raios de preconceitos e trovões que vociferam ódios a ameaçar conquistas democráticas.



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