** Texto originalmente publicado no Edgardigital, veículo de divulgação da UFBA, edição 77

Mulheres têm menos tempo para cuidar de si e, por isso, são mais propensas do que os homens a desenvolver sobrepeso e obesidade. E a situação se agrava quando se trata de mulheres negras e pardas, com menos escolaridade e que não contam com os serviços de uma empregada doméstica.

Essas são algumas das conclusões do estudo “Gender, time use and overweight and obesity in adults: Results of the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil)” (“Gênero, uso do tempo e sobrepeso e obesidade em adultos: resultados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto”, em tradução livre), de autoria da professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia Karina Pinto. O artigo foi publicado na edição de março de 2018 da revista científica PLOS ONE, de conceito qualis A1.

“Quando comparamos dados relacionados a homens e mulheres, percebemos que há uma redução e fragmentação maior no tempo da mulher. Se olharmos o tempo como recurso finito, trata-se de uma grande desvantagem”, afirma Karina.

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Estudo traz relação entre sobrecarga de atividades domésticas e excesso de peso

A escassez de tempo e seu impacto sobre a saúde, em especial sobre excesso de peso corporal, e as diferenças dessa relação entre mulheres e homens são abordados no artigo, que estabelece uma relação entre tempo e saúde para pensar como rotinas de trabalho e de família afetam a saúde de homens e mulheres e traz evidências de que, entre as mulheres, não ter tempo para cuidado pessoal e lazer num contexto de longa jornada semanal de trabalho está sim associado ao ganho de peso. O artigo é resultado da tese de doutorado de Karina (“Gênero e conflito entre trabalho e família: relação com a saúde física e mental de adultos no Brasil”) e tem como coautoras as pesquisadoras Estela Aquino e Rosane Barreto, da UFBA, Maria da Conceição Almeida do Instituto Gonçalo Moniz, da Fiocruz-BA, e Rosane Griep e Lucia Rotenberg, da Fiocruz-RJ.

Karina Pinto afirma que “estamos numa época de aceleração dos tempos sociais” e que, por isso, “é preciso analisar a relação entre tempo e saúde de maneira cuidadosa e minuciosa, de modo a enxergar o conflito que envolve demandas de trabalho e de família e sua determinação na qualidade de vida das pessoas”. A questão de gênero é central para essa investigação, pois o estudo mostra que demandas da vida profissional e familiar se dão de forma assimétrica para mulheres e homens.

Sobrecarga de trabalho pesa mais para mulheres

A forte desigualdade na divisão de tarefas domésticas que, inclusive em países desenvolvidos, sobrecarrega mais mulheres do que homens, é um importante elemento para entender o maior impacto na relação tempo e saúde no público feminino, segundo o artigo. Essa condição é ainda mais intensa quando há a presença de filhos ou de alguém dependente de cuidados.

Os dados de mais de 12 mil servidores públicos ativos, participantes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), que congrega cinco universidades federais – UFBA, UFMG, USP, UFRGS, UFES – e um centro de pesquisa – Fiocruz-RJ – foram utilizados nesta pesquisa. O artigo utilizou dados relacionados às coletas do ELSA-Brasil feitas entre os anos de 2008 e 2010.

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Proporção de indivíduos que relatam tempo insuficiente para cuidados pessoais e lazer

A pesquisa revela que as mulheres são quem mais percebe a insuficiência de tempo para cuidado pessoal e lazer, 34,5%. Entre os homens, esse número é de 23,8%. Além das diferenças de gênero, outros fatores são destacados na análise da relação entre tempo e saúde. O estudo observou que, tanto em mulheres quanto em homens, a percepção de tempo insuficiente para cuidado pessoal e lazer foi maior entre pessoas com maior nível de escolaridade e

entre as que se autodeclararam brancas.

A análise mostrou também que mulheres e homens possuíam uma alta incidência de sobrepeso e obesidade, porém, enquanto o sobrepeso foi maior entre os homens, 45%, a obesidade se mostrou mais expressiva entre as mulheres, 23,9%. Já no grupo de mulheres sem filhos, foi encontrada a menor incidência do excesso de peso.

A professora explica que a obesidade e o sobrepeso são duas condições de excesso de peso que impactam na saúde do sujeito e são medidas pelo índice de massa corporal. Porém, a primeira condição é marcada por um excesso de gordura que pode chegar até a um estágio mais severo, a obesidade mórbida. Já o segundo, está relacionado ao sujeito estar acima do peso desejável para manter a saúde.

Negras e pardas, com menos escolaridade e sem empregada

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Tabela mostra prevalência de sobrepeso e obesidade de acordo com o sexo e outras variáveis

O estudo constatou ainda que mulheres com menor escolaridade tinham uma maior tendência de serem obesas, 30,1%. Já entre homens, quanto maior formação acadêmica, maior a incidência de sobrepeso, 45,4%. Mulheres autodeclaradas como negras e pardas apresentaram maior predominância de sobrepeso, 36,7%, e obesidade, 27,4% – tendência que não foi confirmada no público masculino.

Por outro lado, mulheres que contam com os serviços de uma empregada doméstica foram o grupo menos propenso à obesidade, 18,1%. O artigo destaca ainda que as práticas sociais brasileiras se inserem nesses dados em razão de ainda ser comum no Brasil, de modo semelhante a outros países subdesenvolvidos, a existência de empregada para realizar tarefas domésticas. Entre o grupo de mulheres sem filhos foi encontrada a menor incidência ao excesso de peso.

A pesquisa também se apresenta como um importante instrumento para pensar políticas públicas para atenuar diferenças sociais que cercam os gêneros e a falta de tempo à promoção da própria saúde pelos sujeitos sociais. Exemplificando, Karina Pinto relata que a existência de creches para os trabalhadores não beneficia apenas crianças, mas também os pais que passam a ter menos um fator de preocupação, “o que impacta diretamente na qualidade de vida dos trabalhadores e, em especial, das mulheres”.

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Karina Araujo Pinto é autora do artigo publicado na revista internacional

O artigo é o segundo baseado na tese de doutorado de Karina Pinto, defendida em 2013. O primeiro foi publicado na Revista de Saúde Pública, em setembro de 2015, e abordou a análise de propriedades psicométricas de itens para mensurar o conflito trabalho-família. O terceiro, que ainda vai ser publicado, abordará a relação entre conflito trabalho-família e saúde mental.

ELSA-BRASIL

No momento, o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil) realiza a chamada Onda 3 ou terceira etapa de realização de exames e entrevistas nos Centros de Investigação do estudo. Na UFBA, cerca de 60% dos participantes já compareceram à Onda 3 e o agendamento continua aberto, com perspectiva de conclusão em outubro de 2018. Nessa etapa do estudo, os participantes realizam entrevistas, com questões sobre hábitos alimentares, prática de atividade física, relação com o trabalho e fazem exames, como eletrocardiograma, retinografia, bioimpedância e coleta de sangue e urina, além de novos procedimentos clínicos, que incluem a medida da força muscular de membros inferiores e avaliação de desempenho físico. Os voluntários têm recebido os seus resultados de exames com uma média de oito dias.

O Estudo, que faz parte de uma rede de pesquisa, é financiado pelo Ministério da Saúde (Decit) e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (Finep e CNPq). Em Salvador, o Centro de Investigação do ELSA-Brasil fica localizado na avenida Araújo Pinho, 513, no Canela. Informações pelo telefone (71) 3283-7480 / 3283-7497, pelo e-mail com.elsa@ufba.br ou no site www.elsa.org.br.