Sobre mulheres, órbitas e fanatismo

Fernanda Tourinho | 18 de agosto de 2016
Ana Fraga Maiauau

Ilustrações de Ana Fraga Maia

Em quase 12 milênios de existência do Homo sapiens sapiens, algumas figuras se destacaram ao longo do percurso. Seja pela beleza, inteligência, astúcia ou bravura, essas personalidades mudaram o mundo de alguma forma. E a História – com letra maiúscula, pois aqui ela é transformada em nome próprio – nos ajuda a rememorar e a enxergar o passado (e o futuro!) com outros olhos.

A estória (que também é História) escolhida para esse texto é a da filósofa, astrônoma e matemática Hipátia. Ela nasceu na cidade de Alexandria, por volta de 355 d.C., o centro cultural da época, uma região que hoje corresponde ao Egito. Logo ficou conhecida como “A filósofa” e tornou-se discípula de Plutarco, ensinando a doutrina neoplatônica. Essa corrente filosófica, inspirada pelos ensinamentos de Platão, acreditava que não era necessário morrer para alcançar uma vida plena e feliz, como pregavam os cristãos. Essas virtudes podiam ser obtidas através da meditação filosófica.

Hipátia sofreu grande influência de seu pai, Theon, um astronômo e mestre de matemática do Museu da cidade, que acreditava no princípio da “men sana in corpore sano” (mente sã, corpo são) e a incentivava a exercitar os dois. Theon foi muito importante para a vida de Hipátia. Ele não obrigou a matemática a se casar, como era o costume da época e deu todo o apoio necessário para a construção de uma célebre vida acadêmica. Mas esse foi o único homem que Hipátia amou. Não se casou e não teve filhos e dizia-se “casada com a Verdade”. Mudou-se para Atenas, o único local em que poderia desenvolver sua inteligência e crescer academicamente.

Ao voltar para a sua cidade natal, foi condecorada com uma cadeira na Biblioteca de Alexandria e, aos 30 anos, tornou-se diretora. Era considerada uma excelente professora, mas também ficou famosa por resolver complicados problemas matemáticos e por inventar e aperfeiçoar o hidrômetro e o astrolábio.

Hipátia continuou o programa de seu pai, preservando a herança matemática e astronômica da Grécia. Ela levou o crédito pelos comentários no livro “Cônicas” de Apolônio e desenvolveu estudos sobre a Álgebra de Diofanto (“Sobre o Cânon Astronômico de Diofanto”). Também escreveu um livro chamado “Almagesto”, que em árabe significa “o maior”.

Existem muitas controvérsias sobre o que Hipátia de fato formulou. Com o incêndio da grande Biblioteca de Alexandria, muitos documentos foram perdidos, inclusive os da filósofa e não restou nenhum trabalho autoral para análise. A grande hipótese é que Hipátia descobriu a existência das órbitas elípticas. O modelo vigente da época era o de Ptolomeu: a Terra estaria no centro do Universo, os corpos descreveriam o movimento circular tido como perfeito e as leis que regem nosso planeta seriam diferentes das leis que regem o cosmos. Supostamente, Hipátia propôs o modelo geocêntrico: o sol estaria no centro do sistema solar e os planetas descreveriam uma órbita elíptica, explicando por que o sol muda seu tamanho durante as estações e o movimento diferente dos planetas.

A teoria heliocêntrica foi confirmada por Copérnico no século XVI e as órbitas elípticas foram propostas por Kepler em suas três leis mais famosas no século XVII. Os dois pensadores já possuíam muito mais instrumentos e tecnologias para comprovar e matematizar essa tese e também foram perseguidos pela Igreja Católica.

Hipátia viveu na época em que o cristianismo passou a ser aceito no Império Romano e rapidamente a religião tomou conta da região. A filósofa era pagã e acreditava no hibridismo entre os deuses gregos e egípcios. Hipátia estava protegida enquanto Orestes, um ex-aluno seu, era o prefeito de Alexandria mas, quando Cirilo tornou-se o Bispo, uma verdadeira caça ao paganismo se instaurou na cidade.

Além de ser pagã, Hipátia era uma cientista que desafiava os dogmas criacionistas da Igreja e, acima de tudo, era uma mulher respeitada e influente. Quando voltava para casa como de costume, uma horda de monges cristão, à mando do Bispo Cirilo, arrastaram-na para a Igreja. Lá teve seu corpo esquartejado por conchas marinhas, sendo depois jogado na fogueira.

Meu primeiro contato com Hipátia de Alexandria foi no ensino médio, em um aula de filosofia, na qual assisti ao filme “Alexandria”, do diretor Alejandro Amenábar. E o final me deixou completamente revoltada. Por que não sabia da existência de uma figura tão fantástica? Por que não conhecemos uma estória tão incrível como a de Hipátia?

A resposta é simples: quem detém o poder escolhe as histórias que deverão ser contadas e divulgadas. E a história de uma mulher à frente do seu tempo, que não seguia os padrões de gênero impostos pela sociedade grega e produziu um conhecimento matemático e científico muito significativo não era interessante para essa classe dominante.

Essa estória histórica serve para refletir sobre o papel das minorias na ciência e a necessidade de divulgação. Por que não “Primeira Lei de Hipátia”? Kepler, de fato, comprovou a teoria, mas ele leva o crédito por todas as leis. É apenas simbólico renomear, mas a estória de Hipátia poderia ser contada e recontada nas escolas, representando as mulheres na ciência e incentivando a participação feminina em um ambiente que nos foi negado por tanto tempo.



2 respostas para “Sobre mulheres, órbitas e fanatismo”

  1. Valter Alves Pereira disse:

    Fantástico….!
    Eh tempo de reconhecimento e valorização…!
    Realmente, não se tem registro da Lei de Hipatia…

  2. Valter Alves Pereira disse:

    Fantástico….!
    Eh tempo de reconhecimento e valorização…!
    Realmente, não se tem registro da Lei de Hipatia…
    Nas nossas escolas…

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