“Só corpo, sem mente” – A solidão da mulher negra

Por Bruna Marconi do Coletivo Minissaia | 15 de março de 2016

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Me custou muito para observar o que acontecia ao meu redor, mas chega uma hora que a gente acorda. Não querer enxergar o que é fato no Brasil, foi difícil até perceber que estava acontecendo comigo. Ser mulher e ser negra é lutar por três vertentes: machismo, racismo e solidão.

As pessoas acham que o racismo já foi superado, acham até que as questões de classes, as desvantagens em relação acadêmica e profissional ligadas à etnia, são meras normas culturais, ou que são questões de “meritocracia”. Não sabem, essas pessoas que nós, mulheres negras, temos que lutar todos os dias por mais uma causa.

A trajetória das mulheres negras brasileiras é repleta de solidão e esse fato está intimamente relacionado ao processo de escravidão e às suas consequências. Os dados do Censo, realizado pelo IBGE em 2010, mostram que a situação de solidão ainda acontece às mulheres negras. O levantamento apontava que, à época, mais da metade delas – 52,52% – não vivia em união, independentemente do estado civil. Mais de um século após a abolição da escravidão, porque, ao longo dos anos, o cenário não mudou?

Por que fomos incubadoras para geração de escravos e para satisfação sexual dos brancos, durante a escravidão e hoje não é diferente. Somos vistas por grande parte da sociedade, incluindo a mídia, como “só corpo, sem mente”. Ser mulher negra é sofrer diariamente em negação da minha própria cultura e da minha aparência. E nos meios midiáticos quase não sou vista e quando apareço sou uma beleza censurada, “da cor do pecado”, inexistente, feia, não perfeita. O impacto desses discursos me influenciam mais do que percebo e muito inconscientemente influenciam todos ao meu redor. Os estereótipos associados a nós, mulheres negras, no imaginário social está impregnado e está nos afetando nos nossos relacionamentos afetivos.

Ai vocês devem estar afirmando “mas existe relacionamento interraciais”. Sim! Existe relacionamento interraciais, em porcentagens baixíssimas e neste a predominância do par é homem negro e mulher branca. Sabe-se que pouquíssimas mulheres negras conseguem se estabelecer romanticamente enquanto casadas, que o número de famílias onde a mulher é mãe solteira é em sua maçante maioria, de mulheres negras. E isso fixou no imaginário coletivo, que até campanhas publicitárias utilizam diversas vezes da mulher negra sozinha ou com um filho para atingir o público negro.

Ver, nós, mulheres negras, sendo colocadas na categoria “pra comer” e não “pra casar” é devastador. E eu falo isso, por há muito tempo estar sentindo essa tal da solidão da mulher negra. A solidão afetiva que nos atinge pode causar sofrimento psicológico, por serem baseadas em valores racistas, e pode até causar sofrimento físico. As palavras, gestos e ações que captamos no dia a dia são processadas pelo cérebro, e acaba influenciando em como nós nos enxergamos e nos sentimos.

Se o “amor não tem cor” assim como “somos todos iguais” porque a frase precisa ser completada com “não tem cor”? Se é amor, não precisaria justificar que ele não tem cor, mas se a frase poética está justificada é porque existe um problema SIM com a cor da pessoa e seus relacionamentos, um problema que ninguém quer saber, que ninguém quer ver ou discutir. Apenas inventaram uma frase poética e de “efeito” para se conformar com ela e não resolver o problema, exatamente como o “somos todos iguais”, muito bonito, mas na pratica ninguém faz nada para que isso aconteça.

É difícil de entender que somos trocadas por mulheres padronizadas, colocadas no estereótipo de beleza eurocêntrico, as mulheres que se enquadram na beleza que é vendida, na beleza colocada como perfeita, as mulheres brancas, cisgênero. E diante disto, nós, mulheres negras, sendo constantemente colocadas no lugar de amantes para estas mulheres, a “para comer”, da cor do pecado, a gostosa pra pegar uma noite só.

É difícil entender isso, e é difícil avaliar os relacionamentos que nos envolvemos, pois sempre há a dúvida… “Ele está me usando?”, “Ele vai me deixar?”, “Será que ele realmente gosta de mim?”, “Será que alguém irá um dia gostar mesmo de mim?”, “Você é linda, exótica…” mas ninguém quer me assumir enquanto mulher, enquanto namorada, então o que há de errado? O problema é comigo? O problema é a sociedade? Como faço para resolver isso?

 

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Bruna Marconi é integrante do Coletivo Minissaia e criadora do blog que leva o seu nome BrunaMarconi.com. Nasceu de salto alto, sambando na barriga da mamãe, Bruna é designer, cool hunter e blogueira. Apaixonada por moda, adora compartilhar seus gostos e experiências com pessoas, inspirando e empoderando outras mulheres negras.

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