Texto originalmente publicado no Edgardigital, veículo de divulgação da UFBA, edição 101

A disputa política em curso no Brasil é a face visível de um momento histórico que se define pela devastação do trabalho humano e pelo avanço do capital financeiro a nível internacional. A avaliação é do sociólogo da Universidade de Campinas (Unicamp) Ricardo Antunes. “Desde a crise de 2008/09, que atingiu o coração do capitalismo, o mundo do capital não quer mais governos de conciliação. Ele quer governos de devastação. E, para fazer a devastação, é preciso governos qualificados para devastar.” Na palestra que encerrou o Congresso UFBA 2018, no dia 19 de outubro, o sociólogo alertou para os perigos da combinação explosiva entre “neoliberalismo exacerbado” e “ditadura sangrenta”.

“O primeiro experimento neoliberal não foi da Margareth Thatcher na Inglaterra (1979-90), nem do Ronald Reagan (nos Estados Unidos, 1981-89), nem do Helmut Kohl (na Alemanha, 1982-1998), mas sim a odienta ditadura de [Augusto] Pinochet no Chile (1973-1990), com o neoliberalismo da escola de Chicago [projeto atualmente defendido por um dos candidatos à presidência], mostrando que neoliberalismo exacerbado e ditadura sangrenta combinam muito bem”, afirmou Antunes, que lançou recentemente o livro “O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital” (Boitempo), onde traça um panorama das relações entre capital e trabalho na atualidade.

“Vivemos uma era das trevas”, resume Antunes, que caracteriza o atual momento político e econômico internacional como um “tripé”, formado pela hegemonia neoliberal comandada pelo capital financeiro (associação entre os capitais bancário e industrial que, segundo Antunes, é “o mais destrutivo dos capitais”, porque subordina as pessoas tanto na produção, quanto na venda e no financiamento das mercadorias); por novas legislações que flexibilizam as relações trabalhistas (em que o capital “impõe condições” e “destroça direitos”); e por uma “formatação política que se aproxima do fascismo”.

Haveria ainda um “quarto elemento”, segundo o sociólogo: “a reestruturação produtiva permanente do capital”, resultado do avanço tecnológico permanente e ilimitado, que promove a automação radical dos processos produtivos – a chamada “indústria 4.0”, em que os trabalhadores, quando não se tornam desprezíveis, passam a figurar como “servos privilegiados”, forçados a optar entre o trabalho em condições cada vez mais precarizadas e o desemprego. Daí o título do livro, que remete a um poema de Albert Camus (1913-60) que retrata as precárias condições de um trabalhador argelino na França, na primeira metade do século 19. “Na verdade, o capital é um quadrúpede”, resume o sociólogo.

“Comportamento contrarrevolucionário”

Antunes observa que, após ter passado por uma grave crise que “abalou o mundo burguês” entre os anos de 1968 e 1969 – marcada pelo levante de Paris, mas também por crises na Alemanha, pela invasão soviética da Tchecoslováquia, por lutas operárias na Itália, pelo massacre de estudantes no México e, no Brasil, por greves em Contagem e Osasco – , o capital passa a adotar um comportamento “contrarrevolucionário de amplitude global”, que força os estados nacionais a reduzir custos e fragilizar as condições do trabalho, sem que haja sequer “risco de revolução”.

Esse comportamento se exacerba a partir da crise econômica de 2008/09, que atingiu o centro do capitalismo – os Estados Unidos. A fase atual desse processo, segundo o pesquisador, consiste em promover legislações que fragilizam relações trabalhistas e Estados mundo a fora, de maneira a baratear o custo global do trabalho, aumentar a produtividade em escala exponencial, e garantir a manutenção de grandes remessas de lucros às empresas sediadas nos países ricos. “Essa contrarreforma trabalhista que o [Michel] Temer, no Brasil, o [Maurício] Macri, na Argentina, e o [Emmanuel] Macron, na França, têm apresentado é muito parecida. Os três países estão lutando contra a mesma tragédia. Todas as empresas [públicas] correm risco de serem privatizadas, sem exceção, incluindo a Petrobrás.”

Segundo Antunes, engana-se quem pensa que a repressão política e ideológica de corte fascista não possa conviver com o neoliberalismo econômico, cujo modelo de “sucesso”, ele enfatiza, foi o Chile de Pinochet. “O neoliberalismo não recusa o fascismo, eles se dão bem. O neoliberalismo deu num casamento longo entre Pinochet e sua ditadura nefasta no Chile. [Friedrich] Hayek e [Milton] Friedman [luminares da Escola de Chicago, defensora do ultraliberalismo econômico como alternativa ao estado de bem-estar social keynesiano] de um lado, e Pinochet, do outro, foram responsáveis pela desertificação neoliberal chilena em alto nível de profundidade.” Em cenários como esse, o sociólogo alerta para o perigo que correm as universidades públicas: “Hoje, em cada esquina, em Santiago do Chile, tem uma faculdade privada, que é uma fábrica de salsichas, para fazer dinheiro para os empresários de educação. Como aqui: o maior complexo de educação privada do mundo é do Brasil, e está louco para meter a mão nas universidades públicas brasileiras.”

Em síntese, “o mundo do capital se torna destrutivo”, observa Antunes, ao explicar que, se, por um lado, a radical automação da produção promovida pela chamada “indústria 4.0” leva à eliminação de milhões de postos de trabalho, por outro, o capital “não pode eliminar [completamente] a classe trabalhadora”, porque, afinal, “máquinas e robôs, o mundo digital e informacional, não criam valor” – cuja apropriação incessante é o que dá sentido ao capitalismo. “O capital não pode eliminar a classe que vive do trabalho – o operariado da indústria, os trabalhadores do campo, o novo operariado de serviços. Mas ele pode, e isso ele faz, depauperá-lo, fazendo-o trabalhar pelo máximo de tempo e sem direitos. O que [o capital] faz [com o trabalhador] é curvá-lo entortá-lo, informalizá-lo, torná-lo intermitente, torná-lo flexível.”

Assim, para Antunes, a indústria 4.0 é “nefasta”, não pela utilização e popularização de novas tecnologias, mas por não promover a emancipação dos trabalhadores. “Por que a indústria 4.0 é nefasta? Porque é um tremendo avanço tecnológico voltado para uma produção destrutiva do mais-valor [trabalho não pago, que gera o lucro] para o enriquecimento de 5% da população mundial que detém 50, 60% da riqueza do mundo. Aí é que está o nó da questão: é um avanço tecnológico para o capital, e destrutivo para a humanidade. Ou alguém imagina que os capitais corporativos vão pegar os seus lucros e dividir com os desempregados?”

E, como se não bastasse fragilizar o trabalhador, “a devastação agora supõe a devastação da natureza, a exacerbação do machismo, da homofobia, da xenofobia, o avanço desmesurado do feminicídio”, observa o sociólogo. “Quando você tem o incentivo das esferas superiores, quando a polícia faz vistas grossas para o que não deveria fazer, quando a legislação não é dura como deveria ser para esse tipo de prática, você tem o avanço desse quadro.”