SEGREDOS

Francisco Bicudo | 22 de fevereiro de 2016

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Há os literários, deliciosamente inventados pelas imaginações dos ficcionistas, como aquele que Capitu tentava esconder de Bentinho em “Dom Casmurro” – ou que um ciumento e paranoico Bentinho achava que a esposa mantinha guardado a sete vezes sete chaves.

Os econômicos e os políticos nem sempre são pautados por belezas ou honestidades. O mercado financeiro não raro funciona impulsionado pelo vazamento de informações privilegiadas e sigilosas; disputas partidárias são muitas vezes travadas por meio de dossiês confidenciais que desembarcam em redações jornalísticas, rapidamente alcançando o espaço público, sem as devidas checagens ou apurações.

Ocupações e manobras militares não existem sem códigos secretos e pesadíssimos jogos de simulações e de contrainformações. Várias foram as pistas falsas e os blefes propositalmente espalhados pelos Aliados antes do desembarque na Normandia, em 6 de junho de 1944, o chamado “Dia D”.

Existem também os inaceitáveis. Em nome da justiça, da memória e da verdade, arquivos da ditadura civil-militar brasileira deveriam ter sido abertos à sociedade há muito tempo. Segredos indecentes.

Pai, por favor, é coisa nossa, só nossa, não conta para ninguém. Nem para a mamãe. Pode confiar, filho. Ninguém vai saber. São os segredos embriagados de afetos e carinhos, profundas confianças. São comuns ainda aqueles que nos colocam em inesquecíveis roubadas, aquela bobagem na balada, por exemplo, nota baixa numa prova escondida dos pais. Não conta, não conta. Se você contar a minha, conto a sua! Quem nunca?

Quando eu era moleque, morria de vontade de descobrir ao menos alguns dos segredos secretíssimos que as meninas escondiam naqueles diários misteriosos, escritos em linguagens cifradas e malocados no fundo da gaveta mais protegida, com cadeado, só acessíveis às melhores amigas.

Cuidado com aquela sua pauta fantástica, caro repórter. Algum aventureiro inescrupuloso pode te ouvir e, num acesso de empolgação, decidir lançar mão da matéria, como se fosse dele. Guarde segredo. Revele a ideia no momento oportuno.

Tenebrosas transações envolvendo boleiros graúdos, rabiscadas por atmosferas de mistérios e cortinas de desconfianças, são cada vez mais frequentes. Segredos que, quando vêm à tona, desnudam negócios detestáveis e cheiros desagradáveis. Dentro de campo, os mágicos Messi e Neymar nos encantaram recentemente com um segredo provavelmente combinado nas madrugadas de concentração – o pênalti batido em dois toques, na goleada contra o Celta. Esperto e ligeiro, Suárez deve ter ouvido os cochichos trocados entre o argentino e o brasileiro. Atravessou a frente de Neymar (que deveria concluir a jogada, de acordo com o roteiro original) como um raio e mandou a bola para as redes.

Imaginem agora o que é guardar um dos mais importantes segredos da história da ciência durante quatro meses. Ser obrigado a fingir que não é com você, fazer cara de paisagem, tocar normalmente a rotina de trabalho, dizer (e tentar ser convincente) ‘ainda não sei, estamos analisando os dados’ quando perguntado diretamente sobre o assunto…

Coceira na língua. Atenção e cuidado redobrados para não abrir a guarda e, num instante de papo mais informal, amigos reunidos numa mesa de bar, deixar escapar a novidade e colocar tudo a perder. Ceia de Natal, festa de Ano Novo… e você lá, quietinho, resistindo heroicamente.

Não vale nem falar durante o sono, rolando na cama com o calor insuportável, sonhos e pesadelos. Vai que balbucia ‘ondas… ondas…’. E alguém escuta. Cobra a fatura no dia seguinte. ‘Eu disse isso? Que viagem. Não pira. Dormi como uma pedra. Acho que foi você quem sonhou’.

Nos últimos longuíssimos 120 dias (arredondando), foi essa a sofrida rotina do físico brasileiro Odylio Aguiar, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) que fez parte do grupo internacional que confirmou, no início de fevereiro, as ondas gravitacionais que já tinham sido previstas há cem anos pelo gênio Albert Einstein.

A vontade confessa era berrar ‘descobrimos! Elas existem!’ a plenos pulmões e para todo mundo ouvir em setembro do ano passado, quando os registros de ondas geradas pela fusão de dois enormes buracos negros foram finalmente anotados pelos detectores do Observatório da Interferometria a Laser de Ondas Gravitacionais (LIGO), instalados nos estados da Louisiana e de Washington.

A fantástica descoberta, no entanto, precisou virar segredo, tão duramente guardado durante esses meses, para evitar novas decepções. Alarmes falsos e suspeitas depois não confirmadas sobre as ondas gravitacionais tinham sido anunciadas outras duas vezes pela comunidade científica internacional.

A angústia passou. Já era. Pode comemorar. O trabalho foi publicado. Agora finalmente transformada em informação que pertence à sociedade planetária, a novidade não mais secreta promete revolucionar a Física e o conhecimento que temos sobre o Universo. É a ciência que saborosamente se move no aconchego dos embalos de segredos.

E, cá entre nós, por favor, não contem para ninguém, não espalhem… segredo nosso… quem garante que o Odylio não guarda com ele novos segredos sobre estrelas, buracos negros, supernovas, matéria escura, antimatéria e ondas gravitacionais? ‘Calma, calma. Muita calma nessa hora. Só estamos analisando os dados’.


Francisco Bicudo é jornalista, professor universitário e cronista



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