Resistência nos Comitês Assessores do CNPQ: relato de um participante

Luiz Carlos Soares | 18 de outubro de 2016

(O resumo do currículo do professor Luiz Carlos Soares na Plataforma Lattes informa que ele obteve licenciatura em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1975, bacharelado (1976) e mestrado (1980) também em história pela mesma instituição, e doutorado, de novo em história,  pelo University College London (Universidade de Londres) em 1988. Atualmente é professor titular aposentado  de história moderna e contemporânea do Departamento de História da UFF, professor colaborador do Programa de História da Ciência da Técnica e Epistemologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sócio da Associação Nacional de História e da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, membro vitalício do conselho de representantes da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, sócio da Sociedade Brasileira de História da Ciência e membro eleito do conselho deliberativo da Sociedade Brasileira de História da Ciência. E é membro titular do Comitê Assessor de História do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq. O resumo nos lembra que a ênfase de sua experiência está em história moderna e contemporânea, história da ciência e da tecnologia e teoria e filosofia da história, atuando principalmente nos seguintes campos de estudos da história social do Rio de Janeiro no século XIX e história da ciência e da tecnologia na Inglaterra no século XVIII.

Ontem, segunda feira, 17 de outubro, ele enviou a colegas um relato muito vivo do que ocorrera ao ter início a reunião dos comitês assessores no CNPq. Hoje, pedi a ele que permitisse que o relato fosse publicado no Ciência na rua. E aí está essa contribuição do historiador par um capítulo da história das agências de fomento à pesquisa no Brasil em tempos confusos que adiante poderemos nomear, quem sabe, “Dias de resistência”. Aproveitem a narrativa – Mariluce Moura)

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Dia difícil hoje, no CNPq. Era o primeiro dia de reunião dos Comitês Assessores (CAs) para avaliação dos pedidos de bolsa de produtividade depois da instauração da nova “ordem temerária”. Chegamos com a notícia transmitida pelos funcionários de que não somente não seria possível a concessão de novas bolsas para pesquisadores 2, como também teríamos que proceder a um corte de 20 a 30 % em relação ao número de bolsas já existente. Isso significaria que teríamos que cortar de 20 a 30 % dos pedidos dos pesquisadores que já estavam no sistema de bolsas, o que implicava que não faríamos a “renovação de suas bolsas”, para usar uma terminologia antiga.

Imediatamente, no CA de História, dissemos ao técnico-administrativo que acompanha a área que não faríamos os cortes e encaminharíamos a aprovação dos pedidos que deveriam ser aprovados, na nossa análise. O CA não assumiria este ônus. Em seguida, procuramos os colegas de outros CAs para discutir a situação e todos também manifestaram sua insatisfação contra os cortes e uma pequena comissão, da qual eu fazia parte, foi procurar a Coordenadora de Ciências Humanas e Sociais, que também é responsável pelo setor de bolsas de produtividade, e expôs a contrariedade dos CAs em relação à medida. Esta funcionária também manifestou o seu desconforto em relação à situação.

Então, solicitamos a realização de uma reunião para amanhã para discutirmos coletivamente o problema. Ao voltarmos para as nossas salas, decidimos que entraríamos em contato com as nossas associações representativas, com a SBPC, com a ANDIFES, reitores, pró-reitores, etc., para um movimento de pressão pra sustação da medida. Obviamente, a notícia correu o Brasil e as pressões foram feitas sobre o CNPq e o “Ministério Conglomerado” que reúne Ciência, Tecnologia e Comunicação.

Depois disso, fomos convocados para uma reunião com o Presidente Interino do CNPq, às 17 horas, onde ele procurou explicar que esta situação não é definitiva e se vincula ao horizonte de redução da verba do CNPq no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias, que está no Congresso, e reduz a dotação do CNPq de R$ 1.500.000.000,00 para R$ 1.300.000.000,00 no próximo ano. Segundo ele, na realidade, nenhum corte de bolsas estaria definido, mas seria necessário o estabelecimento de cenários para a possível definição de cortes de 20 a 30 %, se isso fosse imperioso, no futuro.

Seguiu-se o debate com os membros dos CAs e, mais uma vez, muitos reafirmaram em suas falas que não estavam dispostos a realizar estes cortes. E, mais ainda,  se não havia cortes definidos, não haveria necessidade de se estabelecer cenários ou simulações de cortes. Ao final, o presidente interino do CNPq, aceitou a nossa posição e disse que deveríamos continuar a realizar as avaliações sem o estabelecimento de nenhum cenário restritivo. Julgamos que, por enquanto, foi uma pequena vitória, que se deveu  a atuação dos membros dos CAs e também a pressão externa realizada sobre o CNPq e o “Ministério Conglomerado”.

Todavia, temos plena certeza de que estaremos atuando todo o tempo sob ameaça de cortes e redução de orçamento e que a nossa tarefa, enquanto membros dos CAs, é estabelecer uma trincheira de resistência interna, no CNPq, para que o atual governo não venha a sacrificar mais ainda o apoio desta agência à produção científica e tecnológica de nosso país. Esperamos que toda a comunidade científica e universitária também continue a se manifestar contra a destruição dos mecanismos de apoio ao desenvolvimento científico e tecnológico, que está embutida na ação do governo Temer, e na defesa de uma perspectiva de produção de conhecimento autônoma para o Brasil.



10 respostas para “Resistência nos Comitês Assessores do CNPQ: relato de um participante”

  1. Iracema Rodrigues Pereira disse:

    Peço a gentileza de me manter informada.Pois sou mãe de estudante.E me ofereço para algo que precisar.Abraco solidário.

  2. Um absurdo! O descaso do Governo Interino com a Educação é um descalabro e, certamente, os danos virão muito antes do esperado.
    A falta de sensibilidade dos que não estudaram o estudaram pouco está evidente.
    Temos a lamentar a atitude bandida dos nossos ” mandatários”.

  3. Dulce Melo disse:

    Espero que os políticos percebam que o crescimento de um país se faz com o conhecimento científico e tecnológico . Não haverá desenvolvimento sem tecnologia para as empresas, para os empreendedores de um modo geral. País rico é país que tem uma boa educação e bons cientistas!!! Tudo isso só se faz com recursos e incentivos !!

  4. Danival de Souza disse:

    Esta situação extrema se deve ao desequilíbrio financeiro provocado pelo governo anterior. O reequilíbrio fiscal não virá sem dor, infelizmente. Fui e sou atingido por essas medidas, mas entendo que se o país entrar em falência, aí sim teremos uma situação desesperadora. E só para informação, este NÃO é mais um governo interino.

  5. Em nome dos sábios e pesquisadores que têm produzido conhecimento nas nossas universidades, afirmo que a resistência é necessária. Como professora doutora colaboradora da Pós graduação na UnB, apoio o movimento de resistência do CNPq.

  6. Maria Dickie disse:

    Por que não há cortes nas chamadas “verbas de representação”de congressistas ou nos insultantes “auxilios moradia” de magistrados com altos salários?

  7. Vanderlan disse:

    Uma nação soberana, econômica e socialmente equilibrada depende dos investimentos em áreas estratégicas,como educação, ciência & tecnologia, saúde e segurança. Os políticos brasileiros não têm interesse nestes setores, pois um povo não educado, culto e instruído é o ideal, por serem massas de manobras.
    O Brasil tem uma riqueza natural imensurável e vira pais de serviços, comprando da China e da Índia insumos a base de plantas (a balança comercial não fecha!!!). Ciência e Tecnologia e sinônimo de riqueza! É triste ver que tanto trabalho e investimento publico pode ser destruído!

  8. Sigmund Freud escreveu “só o conhecimento traz o poder”. “Only knowledge brings power”. Nossos dirigentes querem que sejamos indigentes para controlar e manipular o povo. Por esta razão seremos sempre uma Nação pobre e sem perspectiva de um futuro promissor. Um país só sai do ostracismo se educação, ciência e tecnologia forem prioridades de todo e qualquer governo. Povo desenvolvido é povo limpo, educado, culto e sensível a tudo que afeta o bem comum. Esse é o papel da ciência no mundo: melhorar a qualidade de vida das pessoas e promover desenvolvimento econômico, cultural e político de modo a semear as sementes da prosperidade nos canteiros de uma Nação. Ainda tenho esperança de que Michel Temer haverá de temer que o Brasil seja o celeiro da ignorância e da arrogância sob as trevas do destino que nos assombra… Albert Einstein.

  9. Alcilene Monteiro disse:

    Caros
    Alguem precisa manifestar nossa contrariedade em relação a essas medidas. Não vi nenhum movimento dos reitores (ANDIFES)contra essas reduções. Desde 2014 iniciou-se a derrubada de todas as conquistas de investimento em ciencia e tecnologia. Levamos anos para que isso acontecesse e agora é o item um de pauta para ajuste da economia. Não consigo acreditar que em pleno século XX1 temos esses desmanchee e a sociedade calada!

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