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Relatório alerta para extinção de polinizadores

Ciência na rua | 11 de março de 2016
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Tomar um café, comer um chocolate, algumas maçãs ou outros alimentos não seria possível sem a ajuda dos animais polinizadores, uma vez que três quartos das principais culturas agrícolas, utilizadas pela alimentação humana, dependem da polinização animal. As mudanças no uso da terra, o uso indiscriminado de pesticidas e as alterações climáticas são algumas das ameaças à sobrevivência desses animais. O alerta foi feito por especialistas de diversos países que integram a Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), durante a 4ª Sessão Plenária da IPBES, que aconteceu em Kuala Lumpur, na Malásia, no final de fevereiro.

Na ocasião foi apresentado o relatório “Polinização, polinizadores e produção de alimentos”, documento com cerca de 500 páginas, coordenado ao longo dos últimos dois anos pela brasileira Vera Lucia Imperatriz Fonseca, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e membro do Programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA) e pelo britânico Simon G. Potts, professor da Universidade de Readings, no Reino Unido.

O relatório contou com 77 pesquisadores de diversos países e é o primeiro de uma série de diagnósticos sobre o status da biodiversidade no planeta, previstos para serem divulgados pelo IPBES até 2019. O documento reúne os principais resultados apresentados em publicações cientificas (foram consultados cerca de 3 mil artigos) sobre a importância global dos animais polinizadores na produção de alimentos, além de dados governamentais e informações sobre práticas baseadas em conhecimento indígena e local. O objetivo da avaliação do IPBES nessa plenária foi detectar o desaparecimento das abelhas e quais os impactos na alimentação humana.

Segundo Vera, já foi detectada, nos últimos anos, uma grande perda de polinizadores, principalmente com a morte repentina de muitas abelhas em diversos países do hemisfério norte. “A perda econômica na produção de alimento com a falta das abelhas é grande, uma vez que 75% dos alimentos são dependentes de alguma forma dos polinizadores”, conta. O relatório ainda aponta que 5% e 8% da produção agrícola global esteja diretamente ligada à polinização animal, ou seja, um mercado que varia entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões. “No Brasil, este valor é estimado em US$12 bilhões por ano”, afirma Vera.

Polinizadores e produção de alimentos

Ainda no Brasil, se não fossem os insetos polinizadores, não teríamos açaí, castanha, cupuaçu, cacau, maçãs, peras, pêssegos, maracujá, entre outros alimentos, explica a pesquisadora brasileira. “Estes produtos são fontes importantes de nutrientes, como a vitamina A, o Ferro e o folato. Sem a ajuda dos polinizadores podemos ter desnutrição em muitas regiões do mundo”, destaca.

Como acontece a polinização? Cerca de 90% das espécies de plantas com flores na natureza dependem da polinização por animais é o chamado “serviço ecossistêmico” — um benefício que o homem tira das atuações dos animais na natureza. As abelhas, por exemplo, buscam o seu alimento na flor (o néctar é a fonte de açúcares e o pólen de proteínas), durante esse voo de flor em flor para buscar alimento elas fertilizam as flores. “O resultado é um fruto perfeito e mais durável nas prateleiras dos mercados”, explica.

Quem faz? Na natureza existem muitos animais polinizadores, a maioria é silvestre, incluindo mais de 20 mil espécies de abelhas, além de muitas espécies de borboletas, moscas, mariposas, vespas, besouros, pássaros, morcegos e outros. Os mosquitos cecidomyiid e ceratopogonid, por exemplo, são essenciais para a polinização do cacau, matéria-prima do nosso chocolate.

Principais resultados

O desaparecimento das abelhas permeou todo o trabalho dos pesquisadores. O estudo mostrou que uma série de fatores colocam em risco diversas espécies. Avaliações regionais e nacionais indicaram altos níveis de ameaça, particularmente para abelhas e borboletas, em alguns locais chegando a mais de 40% das espécies de invertebrados ameaçados de extinção. Segundo o documento, esse cenário é resultado principalmente das mudanças no uso do solo (desmatamento, por exemplo), práticas de agricultura intensiva e uso de pesticidas, pragas e alterações climáticas.
16,5% de polinizadores vertebrados correm risco global de extinção, segundo o International Union for Conservation of Nature (IUCN). Em países da Europa, por exemplo, 9% das espécies de abelhas e borboletas estão ameaçadas. No Brasil, segundo Vera, há cinco espécies de abelhas em risco de extinção, mas é possível que em avaliações regionais o número seja maior. “As abelhas em geral são muito menos abundantes hoje do que foram no passado”, alerta.
A mudança climática levou a mudanças na distribuição de muitas abelhas polinizadoras, borboletas e plantas, gerando a perda de hábitats naturais e trazendo doenças e falta de alimento. O número de colmeias aumentou nos últimos 50 anos em nível global, mas diminui em diversos lugares como o Norte da Europa Ocidental e a América do Norte.

Outro fator apontado pelo relatório para o desaparecimento dos polinizadores é o desconhecimento e a não aplicação prática da sabedoria ancestral indígena, ou seja, criações de sistemas agrícolas tradicionais; preservação de ecótonos e paisagens naturais; relações de parentesco que protegem polinizadores especificos e preservação de culturas locais intimamente ligadas à existência de insetos polinizadores.

Futuro

Durante a plenária o documento foi aprovado pelos países e agora é esperada a implementação das ações efetivas para redução dos riscos e para o manejo sustentável dos animais polinizadores, explica Blandina Viana, bióloga e engenheira agrônoma, professora da Universidade Federal da Bahia e coautora do relatório.

“Muitas ações podem ser realizadas para reduzir os riscos e manter a estabilidade das populações de polinizadores, dentre elas eu destacaria as que visam conciliar a agricultura com a conservação da biodiversidade e reverter a simplificação das paisagens agrícolas, como por exemplo, as práticas de base agro ecológica”, explica.

No entanto, a pesquisadora faz uma ressalva para a necessidade de se apoiar os agricultores, financeiramente e com assistência técnica. “Isso é necessário para assegurar a adoção das boas práticas, amigávei aos polinizadores”, conclui.

O relatório completo será colocado, entre próximas semanas, à disposição no site do IPBES, traduzido em 6 línguas, juntamente com o sumário executivo.

Sobre o IPBES

A Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES) foi criada em 2012, com o objetivo de fornecer conhecimento relevante sobre a política de biodiversidade e serviços ecossistêmicos para os tomadores de decisão. Atualmente conta com representantes de 124 países membros da Organização das Nações Unidas (ONU), responsáveis pela definição dos assuntos prioritários para implementação.



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