O anúncio, feito pelo cientista chinês He Jiankui, do nascimento de gêmeos que tiveram seus embriões editados para que fossem resistentes ao HIV causou enorme repercussão na comunidade científica internacional. Pouco se sabe o que de fato aconteceu: não há um artigo científico relacionado ou mesmo qualquer comprovação de que o anúncio seja verdadeiro. No entanto, a possibilidade de que seja verdade levanta questões éticas importantes. O Ciência na Rua conversou por telefone com a professora e pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, Chefe do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, para entender melhor o impacto desse anúncio na comunidade científica.

 

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A bióloga Lygia da Veiga Pereira

O que a senhora achou do anúncio feito pelo cientista chinês?

Achei uma temeridade. O que ele fez vai contra todas as formas de trabalho, de precaução do desenvolvimento científico, que existem para proteger o ser humano. Então ele fez experimentos, criou seres humanos, fez experimentos em humanos sem que tenhamos ainda uma noção da segurança desses experimentos. Por isso eu acho que foi uma coisa muito ruim, o que ele fez. Agora, resta saber se foi uma coisa de um maluco ou se ele realmente teve aprovação dos órgãos da China para fazer esse experimento. Pela reação da comunidade científica chinesa, parece que é coisa de um maluco.

Que implicações o anúncio pode ter para pesquisas genéticas e correlatas, internacionalmente?

Eu acho que o impacto é muito ruim porque reacende aquele medo da população de que o cientista não tem limite… Sabe essa coisa de medo do Frankenstein? A primeira vez que vi isso mais forte foi quando surgiu a ovelha Dolly e a clonagem, as pessoas tinham medo que os cientistas começassem a fazer clones humanos. E agora, esse sujeito ter dito que fez isso, à revelia de todos os acordos internacionais de que não devemos mexer na linhagem germinativa humana, acho que reacende esse medo da ciência, da ciência mal utilizada, da ciência descontrolada, então é muito importante que a comunidade científica internacional repudie formalmente isso para caracterizar que esse sujeito é um pária, que ele não nos representa.

Que acordos e códigos de ética regem experimentos com embriões humanos?

Em termos de legislação, cada país vai ter a sua lei. Quando surgiu essa ferramenta de edição de genoma, que é muito eficiente, reacendeu-se  essa questão se a gente pode alterar a linhagem germinativa humana, que era uma questão já endereçada quando a gente fala de terapia gênica. Na terapia gênica, queremos inserir um gen, fazer uma modificação genética em células de um indivíduo para tratar uma doença, mas sempre se concordou que isso tinha que ficar restrito a células somáticas, que não transmitem seu genoma para as próximas gerações, isso como medida de… de reconhecer humildade, de reconhecer que a gente não consegue controlar, prever tudo que pode acontecer, e se uma modificação genética dessa eventualmente causar algum dano, que esse dano fique restrito àquele indivíduo, que não seja transmitido para as próximas gerações. Então há um consenso dentro da comunidade científica de que modificações genéticas em gametas humanos não devem ser feitas. Aqui no Brasil, por exemplo, a lei de biossegurança proíbe, tem uma lei específica que proíbe esse negócio. Então  é esse tipo de acordo que, se esse sujeito fez mesmo esse experimento – e não sabemos se ele fez, não tem nenhuma comprovação – mas se ele fez, ele basicamente ignorou todos esses consensos e simplesmente passou por cima e atropelou. Resta ver se ele tinha aprovação de comitês de ética, se ele tinha permissão dos diferentes órgãos de vigilância na China para fazer esses experimentos. Parece que não, se ele tiver, a coisa é muito mais grave, porque aí não é um indivíduo, é um país, mas parece que não foi isso.

O que a comunidade científica internacional pode fazer para evitar violações éticas?

O que é complicado nessa área, mesmo na clonagem: um laboratório de reprodução humana, do ponto de vista técnico, está habilitado a fazer esses experimentos. Então o que a gente precisa são mecanismos de vigilância e de punição para aqueles que fizerem esses experimentos que não são ainda aceitos pelas diferentes sociedades. Então é importante que existam esses mecanismos. Da mesma forma que uma faca: o fabricante faz a faca para cortar um bife, mas um idiota pode pegar isso e enfiar na barriga de uma pessoa. Como fazemos para prevenir que a faca seja usada dessa forma? Tornamos isso um crime, aí a pessoa, antes de enfiar a faca na barriga de outra, vai pensar “putz, será que vale a pena?”, é assim que a gente coíbe o mau uso das tecnologias.

O tema ultrapassa a competência da comunidade científica e deveria ser regulado por outras instâncias?

Sem dúvida, a gente precisa da ajuda de advogados, do pessoal das ciências humanas… Daqui a pouco não vai ter uma justificativa técnica para não fazer. O método vai ficar tão eficiente, tão específico, que talvez não tenha mais, daqui a algum tempo, nenhuma justificativa do ponto de vista científico para não fazer. Aí tem que incluir outros pontos de vista, social, legal, psicológico, vários outros. Por isso é importante a divulgação científica, porque você habilita pessoas de outras áreas a participar do debate.

De um ponto de vista mais técnico, pelo que a senhora viu, houve um rigor metodológico no trabalho?

Não sabemos. O trabalho não foi publicado. Que eu saiba, acho que ele apresentou alguns dados, não sei se foi num seminário ou pelo menos para alguns cientistas, mas isso não é um trabalho publicado, por isso que a gente até nem sabe se o cara fez mesmo. Então não tem como avaliar o que ele fez.