O compositor Renato Russo, líder da Legião Urbana, morreu em 1996. No entanto, qualquer tributo, espetáculo ou comemoração que se relacione à banda de rock continua atraindo multidões. Foi assim com o show comemorativo aos 30 anos da Legião que rolou em 2015, com a exposição no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, e acabou há poucos dias e por aí vai.

Ricardo Junqueira

O poeta no palco, no Rio de Janeiro

Uma das razões apontadas pelos críticos é que a obra de Renato Russo continua curiosamente atual. A professora de língua portuguesa Elisangela Maria Ozório estuda justamente uma das características da produção do compositor que não deixa ele morrer, ou melhor, ser esquecido.

Professora da rede estadual paulista, ela defendeu na sexta-feira, 15 de fevereiro, a tese de doutorado A canção de Renato Russo: uma poética da utopia e da distopia, no departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São José do Rio Preto.

A ideia de Elisangela era analisar as canções do líder da Legião Urbana e encontrar ali discussões sobre utopia e distopia, entender se essas duas frentes dialogavam e como essa proposta impacta a esfera social e cultural brasileira.

Para estudar a produção de Renato Russo, a pesquisadora precisou primeiro isolar letra e música. “Não sou musicista e as melodias e harmonias não foram objeto nem do mestrado – em que já trabalhei a porção poética nas letras de Renato Russo -, nem do doutorado, quando me debrucei na questão da utopia e da distopia”, explica.

Fazendo dessa forma, a professora não encontrou muita resistência da academia para tocar seu projeto. “Renato Russo não é um poeta clássico, mas os professores da banca de doutorado até elogiaram essa ideia de fugir da poesia escrita e trabalhar a canção como obra literária”, defende. Elisangela até lembra que depois do cantor e compositor folk Bob Dylan ganhar o Nobel de Literatura em 2016 pelo conjunto da obra, essas possibilidades ganharam um forte argumento favorável.

Na pesquisa para o doutorado, a professora de língua portuguesa foi buscar o pensamento e a expressão de Renato em relação à utopia – o desejo por um tempo ideal, um espaço ideal, uma vida ideal. Também investigou as citações sobre distopia, que apresenta a realidade como imperfeita, inacabada e desajustada, distante e contrária ao sonho utópico.

O que encontrou? Proposições utópicas em forma de sonhos e desejos. Como em 1965 – Duas tribos, “O Brasil é o país do futuro/ Quero tudo pra cima” e em Metal contra nuvens, “Minha terra é a terra que é minha/ E sempre será/ Minha terra tem a lua, tem estrelas/ E sempre terá”.

Ricardo Junqueira

A banda em Brasília, fotografando para o encarte de Dois

Ao mesmo tempo, dialogando com o devaneio, aparecem as imagens da realidade distópica, batendo na cara do poeta e exigindo uma reação. Bons exemplos estão nos versos da mesma Metal contra nuvens, “Esta é a terra de ninguém/ Sei que devo resistir/ Eu quero a espada em minhas mãos”, ou no hino Que país é esse, “Nas favelas, no Senado/Sujeira pra todo lado/ Ninguém respeita a Constituição/ Mas todos acreditam no futuro da nação”, ou na icônica Perfeição, “Vamos celebrar a estupidez do povo/ Nossa polícia e televisão/ Vamos celebrar nosso governo/ E nosso estado que não é nação”.

As duas vertentes, utopia e distopia, dialogam o tempo todo dentro de algumas músicas em especial, mas também na obra como um todo. E, diferente do que seria esperado, as ideias não se opõem. “Utopia e distopia não são opostas na obra de Renato Russo. Se contradizem sim, mas são necessárias uma a outra”, explica Elisangela.

“A Utopia aparece como sonho. Espaço, tempo e vida ideal. Como o poeta conhece esse sonho, pode comparar e reagir apresentando a realidade distópica em forma de imagens. O real distópico é, também, o ponto de partida para a criação do sonho utópico, para a construção da esperança”, sintetiza.

Agora, cá entre nós, Renato Russo não é coisa de jovem rebelde? A pesquisadora garante que não. “Embora a rebeldia esteja mesmo nas letras – principalmente nos discursos distópicos – a obra dele é crítica, madura e adulta”, responde já propondo outra razão para o legado do compositor não se apagar.

“A poesia de Renato Russo está muito colada com os acontecimentos históricos, políticos e sociais do Brasil”, sugere. Muitas das cicatrizes cantadas por ele nos anos 1980 e 1990 ainda são muito presentes: a desigualdade, a população desamparada, governos desgovernados e a corrupção. Ou seja, enquanto a realidade imitar a arte, haverá espaço para a obra desse compositor-poeta.

Elisangela Maria Ozório ainda defende que as questões mais existenciais e subjetivas, que conversam mais com os sonhos utópicos das canções, passam pelas questões que atravessam o ser humano. A morte, a tristeza, a revolta, a esperança, “são reflexões que nos inquietam desde os tempos imemoriais e para as quais ainda não temos solução e nem teremos tão cedo, por isso os temas de Renato Russo não envelhecem”, conclui.

((Nesse momento, você vai até a prateleira de LPs ou de CDs dos seus pais, procura o disco DOIS, lançado em julho de 1986 e deixa tocar até o fim. Ok, no Spotfy e no Deezer tem também))