*Originalmente publicado no Edgardigital 72 – Edição especial Fórum Social Mundial II

É possível viver sob uma lógica não capitalista? Os integrantes da Mesa Anticapitalismo na Era Neoliberal, realizada na quarta-feira, 14 de março, no salão nobre da reitoria, dentro da programação da Universidade Federal da Bahia no Fórum Social Mundial, defendem que sim. Mas esse é um processo ainda em andamento, em especial na América Latina.

Os desafios para a construção de uma alternativa ao sistema vigente foram discutidos pelos cientistas sociais Maria Victoria Espiñeira Gonzalez, professora da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, Emir Sader, coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, e Luciana Ghiotto, da Universidade Nacional de San Martin, Argentina, mais os economistas René Ramírez Gallegos, até 2017 secretário de Educação Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação do Equador, e Rómulo Torres Seoane, membro da direção do Fórum Solidaridade Peru.

Para o cientista social Emir Sader, três premissas básicas guiam a esquerda latinonamericana em seu enfrentamento ao neoliberalismo: a prioridade dada às políticas públicas, o processo de integração com outros países latinos e o resgate do papel ativo do Estado. Este tripé confronta a centralidade do mercado e influencia o desenvolvimento de uma dinâmica de reconhecimento dos direitos do cidadão. “O anticapitalismo ataca a lógica mercantil que transforma tudo em mercadoria e promove a esfera pública, os interesses do cidadão”, observou.

Já Victoria Gonzalez chamou atenção para a crise de representação hoje enfrentada, quando a nova direita questiona a democracia. Ela fez referência ao filósofo francês Jacques Rancière, autor de “O Ódio à Democracia”, que argumenta que a democracia é “o poder daqueles que não têm títulos ao poder. “Hoje a democracia seria ausência de títulos e por isso causa ódio no Brasil”, considerou a pesquisadora.

Em seguida, o economista Rómulo Seoane lembrou de alguns problemas atuais relacionados ao desenvolvimento capitalista, como os grandes projetos extrativistas e a evasão fiscal. “O capital procura crescer de maneira permanente e sem travas”, alertou. A busca de novos territórios e a criação de mecanismos para evadir os impostos são alguns dos elementos perniciosos envolvidos nesse processo. Seoane destacou que os movimentos de defesa do território e a luta contra evasão fiscal são base da luta anticapitalista. “É necessários que os diferentes movimentos estejam articulados e o Fórum Social Mundial é um grande espaço para promover essa articulação”.

Articulação também foi a palavra de ordem da cientista social Luciana Ghiotto, pesquisadora da sede argentina da Faculdade Latinoamericana de Ciencias Sociais – FLACSO, para quem “lutar contra o livre comércio é falar de anticapitalismo”. A campanha continental que uniu movimentos de diversos países contra a Área de Livre Comércio das Américas – ALCA, nos anos 1990, foi lembrada como exemplo a ser retomado. A rearticulação, na visão da cientista, deve ser pensada a partir de quatro pontos. Primeiro, uma releitura de diagnóstico da realidade mundial e local, já que hoje “o mundo está em forte processo de transição e o capitalismo muda rapidamente”. Depois, se reinventar alternativas e rediscutir caminhos a seguir. Para concretizar a rearticulação, Ghiotto defende que se transcenda as agendas fechadas dos movimentos e se busque uma agenda social continental.

O economista René Ramírez Gallegos exemplificou as mudanças ocorridas no Equador durante a década de governo do ex-presidente Rafael Correa como instrumentos para a construção de uma economia social e solidária, em contraponto ao capitalismo. Ele destacou o novo pacto social de convivência proposto pela nova constituição equatoriana e sua visão biocentrista. “Nossa constituição fala de direitos da Natureza. Impor limites biofísicos através do cuidado com a Natureza é impor limites ao capitalismo”, assegurou.

Gallegos ressaltou que apesar das mudanças obtidas em seu país, a percepção sobre elas ainda pode ser negativa. “Observamos o que chamamos de Paradoxo do Bem Estar Objetivo e do Mal Estar Subjetivo. Melhoramos as condições de vida, mas a nova classe média começa a ter expectativas de classe rica, fruto de um capitalismo cognitivo que precisa mudar. Necessitamos também de uma pedagogia política de conscientização social”, considerou.