Imagem de abertura: corte sobre foto original de Leo Ramos Chaves – Pesquisa Fapesp

Mariluce Moura

O encontro do jornalista Ricardo Zorzetto, editor de ciência da Pesquisa Fapesp, com o historiador da ciência Olival Freire Junior, pró-reitor de pesquisa, criação e inovação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), para uma entrevista em fins de dezembro passado, em Salvador, resultou numa estimulante peça de jornalismo científico e, ao mesmo tempo, numa aula fascinante e sintética sobre as controvérsias e os ziguezagues no desenvolvimento da física no século XX, com direito a algumas cenas no Brasil.
A entrevista pingue-pongue em profundidade, um clássico das edições da revista, após o breve perfil do pesquisador, o faz falar sobre o ensino das ciências e a evolução da pesquisa em história da ciência no país. Traz à cena depois os grandes nomes e as controvérsias que animaram a mecânica quântica entretecidos aos próprios percursos de Olival Freire, que o levaram da UFBA à Universidade de São Paulo (USP), à orientação com Amélia Hamburger (1932-2011) e ao estudo das ideias de David Bohm (1917-1992) no doutorado.

Arquivo pessoal

Ao lado do físico francês Michel Paty, em 2005

Esse brilhante físico norte-americano, perseguido pelo macarthismo nos anos 1950, defensor da visão de que a teoria quântica seria causal, como propuseram o francês Louis De Broglie (1892-1987) e o próprio Einstein (1879-1955), e não probabilística, como queria Niels Bohr (1885-1962), viveu no Brasil de 1951 a 1955. Seus dois famosos artigos que trabalham sobre esse caráter causal foram publicados na Physical Review em 1952. Mas houve quem dissesse que Bohm não produziu muito no Brasil “porque não se podia fazer ciência no vácuo”.
Olival Freire, que em 2002 começara a publicar uma série de artigos em inglês a respeito da controvérsia sobre os fundamentos da teoria quântica, já em 2005, motivado pela monografia desdenhosa de Shawn Mullet (esse, o nome do autor que só via um vácuo no Brasil), estimulado por uma Amélia Hamburger furiosa com tamanho preconceito, escreveu junto com ela uma resposta em artigo publicado pela Historical Studies in the Physical Sciences. Mullet, sejamos justos, logo mudou de opinião.
Tais artigos, reunidos e retrabalhados deram origem a The quantum dissidents, o até o momento mais importante livro do pesquisador, publicado só em inglês (ver, a propósito, comentário e capítulo traduzido para o português na revista Bahiaciência). É possível que a biografia de Bohm, em elaboração, venha a disputar esse título. E Olival Freire já dá mostras na entrevista de que há episódios deliciosos, ainda que difíceis, nos esforços do comunista Bohm para fugir às perseguições em seu país. Incluindo aí os lances com o passaporte brasileiro de que longamente se valeu o cientista americano.
Ricardo Zorzetto indagou, ouviu, e não deixou de fora os trechos da entrevista em que Olival Freire, hoje ainda filiado ao PC do B (Partido Comunista do Brasil), falou de sua longa militância política e da tensão incontornável entre suas exigências e as demandas do labor científico, as solicitações da história da ciência. Que, diga-se, parece seguir ganhando em seus afetos, para benefício desse campo no Brasil e da UFBA, que pode se orgulhar de ter um dos mais criativos grupos de história da ciência do país, sob a liderança de Olival Freire Filho.

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