Pesquisadores descobrem novo bioma marinho na Amazônia

AGÊNCIA GESTÃO CT&I | 14 de junho de 2016
Foto: Fernando Stankuns/Creative CommonsUm recife com mais de 900 km de extensão é encontrado no rio Amazonas

Um recife com mais de 900 km de extensão é encontrado no rio Amazonas

Parecia improvável. Mas contra todas as possibilidades e ao contrário de tudo o que diziam os livros, a 100 quilômetros (km) da desembocadura do rio Amazonas e sob uma espessa pluma de sedimentos levados pelas águas, floresce um extenso e riquíssimo recife. Como a densa camada de sedimentos sobre as águas impede a penetração de luz solar, e consequentemente a fotossíntese – base da cadeia alimentar de recifes de corais de águas tropicais –, acreditava-se ser impossível a existência desse novo bioma marinho.

A descoberta feita pela equipe de pesquisadores coordenada por Rodrigo Moura, Fernando Moraes e Fabiano Thompson confirma pistas levantadas, em 1997, durante a apresentação de um resumo dos cientistas Bruce Collette e Klaus Rützler, que falava da presença de esponjas e peixes recifais na região da foz do rio Amazonas.

Em 1999, o brasileiro Rodrigo Moura e colaboradores também demonstraram a presença de corais na foz sul do rio. Estudos do projeto Piatam Mar apontavam ainda para alta concentração de carbonato de cálcio biogênico naquelas imediações, levantando a possibilidade de recifes na região. Mas foi somente em 2011 que uma equipe de pesquisadores elaborou projeto para explorar a área.

Agora, em 2016, confirmou-se a existência de invertebrados, como esponjas de mais de 100 quilos, e rodolitos, algas calcárias que endurecem e unidas a outras espécies acabam formando um recife. E, como constataram os pesquisadores, esse recife é extenso. “O que sabemos é que se estendem por, no mínimo, 900 km de costa, entre o Maranhão e a Guiana Francesa”, afirma Fabiano Thompson.

A descoberta está relatada no artigo An extensive reef system at the Amazon river mouth, publicado na Science Advances, da American Association for the Advancement of Science. “Em 2012, conseguimos ir até lá com um navio americano. Em 2014, voltamos à região no navio hidroceanográfico Cruzeiro do Sul, da Marinha do Brasil, o que nos possibilitou ampliar a área de estudos”, disse Thompson, que destaca o inusitado das descobertas. “Além das gigantescas esponjas, mais de 50 novas espécies foram enviadas ao biólogo Eduardo Hajdu, do Museu Nacional para serem descritas.”

O pesquisador tem grandes motivos de entusiasmo com a descoberta. Ele explica que o novo  bioma compreende três grandes camadas distintas. A primeira delas é formada pela pluma de nutrientes e sedimentos trazidos pelo rio Amazonas, rica em matéria orgânica dissolvida e particulada. É uma camada muito turva, que impede a penetração da luz solar e a fotossíntese, e sua espessura pode chegar a 25 metros de profundidade.

“Isso gera uma mudança dramática nesse novo bioma. Sem fotossíntese, não há liberação de oxigênio na água. Logo, o nível de oxigênio naquelas águas decai rapidamente nos primeiros metros de profundidade. Exatamente por isso, sempre vigorou a ideia da impossibilidade da existência de recifes na desembocadura de rios tropicais barrentos, com grande aporte de sedimentos, como é ocaso do Amazonas”, detalha o pesquisador.

Na camada seguinte, a subpluma, os micro-organismos que nela vivem retiram a energia de que precisam da quimiossíntese. Ou seja, dos minerais dissolvidos na água e não da luz como acontece na fotossíntese. Minerais como enxofre, ou nitrogenados, como amônia. “Usando-os como fonte de energia, bactérias de origem marinha dão andamento a um processo bioquímico, celular e autotrófico. Em outras palavras, com essa energia, eles produzem suas próprias células e matéria orgânica [exudados]”, relata Thompson.

Essas bactérias e seus exudados são a base de alimentação de micro-organismos, esponjas, moluscos e outros invertebrados marinhos. Na terceira camada, de fundo ou bentônica, espalham-se esponjas e outros invertebrados, além de peixes e lagostas, que se alimentam das bactérias da subpluma. “Chama atenção a presença de recifes de dezenas de metros de altura e mais de 100 metros de comprimento, espalhando-se entre 60 e 120 metros de profundidade, a cerca de 100 km da foz do rio”, anima-se o pesquisador.

A grande vazão do rio Amazonas, cerca de 300 mil metros cúbicos/segundo de água barrenta, é levada pelas correntes marítimas para o norte, fazendo com que o recife não seja homogêneo. “Precisamos mapear mais de 8 mil km², já que não conhecemos a estrutura e a funcionalidade dos habitats da região”, afirma o pesquisador ao destacar a importância de ampliar os estudos naquela área. “As evidências desse ambiente atípico não podem ser perdidas ou ignoradas diante da possibilidade de exploração de petróleo na região.

Esperamos que o País e o estado do Rio de Janeiro possam ampliar os investimentos em ciência e tecnologia, em especial na área de Ciências do Mar, pois estes resultados mostram claramente que conhecemos muito pouco da nossa Amazônia Azul.”

Além de quebrar paradigmas, a pesquisa dos cientistas traz a necessidade de medidas protetoras, que possibilitem o uso dessa biodiversidade marinha. “As esponjas produzem compostos bioativos que podem ter aplicação na biotecnologia, na produção de medicamentos.”, afirma o pesquisador.

Para o biólogo, já que a região, próxima da Guiana Francesa, pode ser uma nova fonte para a descoberta de novos medicamentos, também é preciso regulamentar formas de preservá-la e manter a nossa soberania. “A questão que se coloca agora é que, por não estarem nos limites de uma área de proteção ambiental e, pelo contrário, se situarem em um local de intensa atividade pesqueira e industrial, toda aquela região se torna vulnerável”, diz Thompson.

Os estudos contaram com a participação de pesquisadores de universidades do Rio de Janeiro, Pará, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Espírito Santo, São Paulo e dos Estados Unidos.

(Agência Gestão CT&I, com informações da Faperj)



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