Pernadas, braçadas e orçamentos apertados

Francisco Bicudo | 14 de março de 2016


O calendário do futebol brasileiro é indecente e cruel. Rodadas às quartas e aos domingos, onze meses por ano, dois campeonatos disputados simultaneamente, viagens longas e exaustivas, partidas começando tarde da noite por exigência dos contratos televisivos. Falta bom senso futebol clube. O atleta profissional sofre e chega estourado ao final da temporada. A maratona obriga muitas vezes treinadores a planejar rodízios, poupar titulares e escalar times mistos e com reservas, preservando os que correm risco de contusão. Para prevenir as lesões e escolher a quem vão entregar as camisas, os técnicos e preparadores físicos pedem ainda ajuda para a ciência. Depois de cada partida, os jogadores são submetidos a baterias de testes, sendo o mais conhecido deles o que analisa a presença da creatina quinase (CK) no sangue. Essa enzima é produzida pelo esforço muscular e, em excesso na corrente sanguínea, serve para ligar o sinal de alerta – há risco iminente de contusão. Boleiro amador e teimoso que sou, aventurei-me a disputar nas últimas férias de final de ano peladas de uma hora e meia cada, dois dias seguidos. Bingo – na metade da segunda, num movimento mais brusco, o músculo da coxa direita rompeu. Consegui ouvir o barulho do tecido rasgando. Meu exame de CK provavelmente chegaria nas alturas. Gelo e anti-inflamatório. Até hoje as dores da distensão me lembram que esforço físico tem limites.

É a ciência que também ajuda a explicar com muita boniteza como o genial Usain Bolt consegue correr cem metros em nove segundos e cinquenta e oito centésimos. Quando você terminar de ler esse parágrafo, ele já terá completado mais uma prova, fácil. O velocista jamaicano é um fenômeno. É bem alto e tem pernas compridas, o que em tese dificulta a aceleração. Compensa essa desvantagem com rara capacidade de explosão – reage quase que de imediato ao tiro de largada. Além disso, completa os cem metros com 41 passadas, três ou quatro a menos que seus principais adversários. Amadores precisam de 50 a 55 passadas para dar conta do mesmíssimo percurso. Eu devo precisar do dobro disso. Fiquei cansado e sem fôlego só de fazer as contas e imaginar a situação.

Esperanças de medalhas para o Brasil na Olimpíada do Rio de Janeiro, os nadadores brasileiros passarão por preparação especial, antes de caírem na água em busca dos recordes e dos ouros, pratas e bronzes. Por exigência das transmissões de televisão (de novo), as provas finais da modalidade acontecerão tarde da noite, entre 22h e meia-noite, quando o metabolismo do corpo já é bem mais lento e preguiçoso. Auxiliado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, o Comitê Olímpico Brasileiro, como narrou matéria da Folha de São Paulo de fevereiro passado, submeterá Cesar Cielo, Thiago Pereira, Etiene Medeiros e companhia a banhos de luz antes das finais, para acelerar as temperaturas corpóreas e provocar choque térmico, despertando-os para a competição e dizendo ‘queridos, nada de soneca. É hora das braçadas!’. Encerradas as finais, com a adrenalina a mil, outro desafio será desligar rapidamente as chavinhas do organismo, com a exigência de levantar bem cedo no dia seguinte para encarar novas eliminatórias. Verdadeira maratona aquática. Não vai adiantar contar só carneirinhos. Nadadores e nadadoras passarão então por reabilitação e relaxamento por meio de crioterapia – indução de baixas temperaturas por sprays ou banhos de gelo, que estimulam o sono. Boa noite. Que a força esteja com vocês.

Aqui em casa, para não perder a chance de acompanhar ao vivo e nos ginásios e estádios ao menos um dos eventos olímpicos, também pedimos encarecidamente auxílio das ciências. O orçamento anda apertado. Foi preciso fazer muitas contas. Cálculo estequiométrico combinado com média geométrica, movimento uniformemente variado, análise combinatória, limites tendendo ao infinito, teoremas, integrais e funções. No final, eureka! Deu certo. Estaremos no Itaquerão para ver a semifinal do futebol masculino, 17 de agosto. Como queríamos demonstrar (tudo bem, eu sei, essa é das antigas).



Deixe uma resposta