PARA NÃO DEIXAR FERVER O PLANETA

Francisco Bicudo | 08 de agosto de 2016
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Aquecimento global na abertura dos Jogos Olímpicos – Rio 2016, bela concepção com consultoria do cientista Paulo Artaxo

 

As férias em Gramado, nas serras gaúchas, foram agradavelmente friorentas. Malhas, gorros, cachecóis, luvas e jaquetas marcaram o compasso animado das nossas andanças por uma cidade cheia de encantos e onde os carros, estranhamente, param e dão passagem no exato momento em que o pedestre coloca a pontinha do dedo mindinho na faixa de segurança. Paulistanos tresloucados que dirigimos como se estivéssemos sempre em dias de fúria deveríamos fazer auto-escola por lá. Fica a dica. O vento era de fazer tilintar os dentes. Os ossos rangiam. Estalavam. Na cidade conhecida pelo kikito cinematográfico, as cadeiras dos bares e restaurantes são embrulhadas por cobertores de lã, para proteger as cacundas dos bebedores de cerveja e apreciadores de um bom vinho. No hotel, além da charmosa lareira na recepção, aquecedores no quarto garantiram noites quentinhas de sono, daquelas apreciadas pelo Olaf, o boneco de neve da animação ‘Frozen’. Em nossas reais aventuras congelantes, para enfrentar temperaturas que chegaram bem perto de zero grau, nada melhor do que os deliciosos e insuperáveis chocolates quentes cremosos gramadenses. Verdadeira perdição para os fissurados na bebida que era sagrada e apreciadíssima pelos imperadores maias e astecas. E não é que vimos até neve? Artificial, é verdade, mas branquinha e farelenta, no parque Snowland; ali, encaramos termômetros ariscos que mostravam sete graus negativos. Só mesmo com roupas especiais, capacetes e botas. Tolo, achei que tudo bem, é rapidinho, e tirei as luvas para bater fotos. Em cinco segundos, os dedos ficaram roxos e duros. Começaram a estalar. As luvas de volta, por favor. Rápido. Preciso também de um abraço quentinho. E quem disse que Luiza e Daniel queriam voltar? Desembarcamos em São Paulo com os dois ainda amuados e vinte graus de temperatura. No sobe-desce montanha-russa do termômetro, ouvi no rádio do táxi, a caminho de casa, que o mês de junho de 2016 foi o junho mais quente da história (depois confirmei: 0,9 grau centígrado acima da média do século XX) e o décimo quarto mês seguido em que recordes de calor foram batidos no mundo, de acordo com medições feitas pelo National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos. Aquecimento global, que foi destaque inclusive no Maracanã, na cerimônia de abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro. Já nem lembro da montanha de neve que descemos numa boia no parque em Gramado. Sonho distante de uma noite de inverno. Montados na ponta do salto da nossa arrogância, imaginamos controlar a natureza. Se complicar, saberemos como corrigir a bobagem. Carvão. Petróleo. Gás natural. Setenta milhões de toneladas de gases de efeito estufa despejadas diariamente na atmosfera. O fino cobertor natural que sempre protegeu a Terra – uma das condições de existência de vida complexa por aqui – engrossa. Transforma-se num pesado edredon. Os gases se acumulam. O termostato do planeta fica desregulado. A Terra esquenta. Por conta das ações humanas. Segundo a NASA, agência espacial estadunidense, 2015 foi de longe o ano mais quente da nossa história (1,3 grau acima da média do século XX), desde que as medições de temperatura começaram a ser feitas, em 1880. Os modelos estabelecidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sugerem que, no cenário mais otimista, a Terra que chegará a 2100 será um planeta com temperaturas médias de dois graus acima das registradas no início do século XX; pela simulação mais pessimista, em 2100 seremos obrigados a aprender a enfrentar terrível aumento médio de seis graus. Imaginem o Rio de Janeiro, ou Santos, ou Salvador, ou qualquer cidade litorânea próxima da linha do Equador em dias de verão e os termômetros indicando sufocantes cinquenta graus. Não haverá picolé de limão, água de coco ou ar condicionado que ajude a refrescar. Os diabinhos vão todos abandonar as profundezas do inferno para dançar alegremente na superfície. Quem visitar Gramado não vai mais precisar de malhas de lã. Bermudas e camisetas marcarão a paisagem da cidade que um dia poderia ter abrigado o castelo de gelo da princesa Elsa. Se não recuarmos em nossa soberba, o planeta vai ferver. A Conferência do Clima realizada em Paris no final do ano passado terminou com a assinatura de um acordo histórico. Pela primeira vez, todos os grandes emissores, incluindo Estados Unidos e China, comprometeram-se a estabelecer metas concretas de redução de carbono, para garantir que a Terra consiga chegar a 2100 embalada pelo cenário mais otimista sugerido pelo IPCC. Há quem diga que o papel aceita tudo e que o tratado será apenas mais uma peça de ficção, protocolo de boas intenções. O inferno está cheio delas. Cá com meus botões: para a superfície não virar puxadinho do inferno, acho que o combinado em Paris será cumprido. Pode ser mais torcida que análise. Mas é fato que chegamos a uma situação-limite. Podem me chamar de otimista. Já consigo sentir de novo o vento gelado de Gramado batendo no rosto e deixando o nariz e as bochechas bem vermelhos. Preciso do meu cachecol e das minhas luvas.

Álbum de família

Pura diversão no frio de Gramado, Rio Grande do Sul



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