Para acender a lâmpada

Fernanda Pompeu | 28 de janeiro de 2016

Desconfio que muita gente da minha geração, tenho 60 anos, aprendeu a classificar o conhecimento por meio de três gavetinhas: humanas, exatas, biológicas. Além de lacradas, nos ensinaram a não misturá-las. Cada qual cuidava do seu cada qual. Engenheiros escreviam mal; biólogos se concentravam em células. E o pessoal das humanas – a minha turma – se orgulhava de saber zero de matemática. Para a maioria de nós, por muito tempo, a ciência foi um território distante, sem mapas e cheio de catracas.

Então quando ganharam força e glamour os conceitos de interdisciplinaridade, multitarefas, vasos comunicantes, os hoje sessentões tiveram uma variante da síndrome do pânico. Alguns exclamavam: Meu Deus, não entendo nada disso! Quer dizer, o mundo se tornou muito interligado pelas tecnologias e nós das humanas nos sentimos deslocados. No máximo serviríamos como ratinhos de laboratório.

Mas passado o choque inicial, percebemos que nossa ignorância podia ser minimizada, aliás como todas as ignorâncias. Para tanto bastava abrir a gaveta e jogar a chave fora. Isto é, expulsar mitos e inverdades. Por exemplo, o mito de que não seríamos capazes de nos relacionar com as ciências de outras áreas.

Para mim, a iluminação veio ao refletir sobre o papel da massificação do uso da pílula anticoncepcional, nos anos 1960, na libertação das mulheres. É claro que séculos (milênios, melhor dito) de submissão feminina tiveram tudo a ver com o patriarcado, a propriedade, as igrejas etc. Mas o empurrão fenomenal para o meu sexo veio com o controle seguro e fácil da gravidez. Tomar um comprimido para não fazer bebês mudou a história das mulheres.


fernanda-pompeu-231x300

 

Fernanda Pompeu é webcronista louca por ciência.



8 respostas para “Para acender a lâmpada”

  1. Roberto Rangel disse:

    Cada vez mais sabida !
    Parabéns!

  2. Marise Monteiro disse:

    Querida Fernanda, às vezes tenho uma enorme sensação de que somos irmãs… ou fomos em outras vidas!já que seus escritos, inclusive os incentivos que me dá para que também os faça, estão sempre me ligando e cavucando a alma. A minha relação com a Ciência sempre foi direta, já que fiz Licenciatura em Ciências Biológicas e sou até hoje professora de Ciências e Biologia, na ativa. Mas, sempre tive a ideia de que todas as áreas de conhecimento me agregam e me fazem ter outros olhares.
    Você escreve meus sentimentos, obrigada!

  3. Tereza Yoshuko Marui disse:

    Parabens Fernanda.
    Gosto muito dos seus escritos; cronicas, artigos, etc mas sempre muito claros e com postura de SER MULHER bonita, bacana,

    inteligente e terna (de ternura e amor pelo ser humano).

    bjs e abraços

    Tereza

  4. escrever é brincar de palavra, a vera.

  5. Júnia disse:

    Eba! Minimizar a ignorância sempre!

  6. cida santos disse:

    Pode crer!

  7. fernanda pompeu disse:

    Não há nada mais gratificante do que ser lida. Obrigada pelos comentários tão estimulantes. Valeu!

  8. Regiferr disse:

    Trop bien!!!!
    Pertinente, preciso e… Quelle plume!!!🖋🙋🏽

Deixe uma resposta