Um conjunto de pesquisas em diferentes lugares tem apontado para um resultado que seria inesperado há alguns anos: a microbiota do sistema digestório de mamíferos está relacionada ao que acontece em seus cérebros. É o que diz reportagem do New York Times publicada em 28 de janeiro.

Ao jornal americano, John Cryan, professor da Universidade Cork, na Irlanda, contou como, em 2014, durante um encontro científico sobre Alzheimer, foi mal recebida sua intervenção em que defendeu que talvez a microbiota – área que estuda – se relacionasse à doença. Um dos cientistas que torceu o nariz para a possibilidade levantada por Cryan foi o neurobiologista Sangram Sisodia, da Universidade de Chicago, que resolveu testar a hipótese. Sisodia deu antibiótico a camundongos predispostos a ter a doença e constatou depois que seus cérebros estavam com uma quantidade menor da proteína relacionada à demência. Ele atualmente suspeita que algumas ou uma das espécies presentes nas vísceras influencia no desenvolvimento da doença, talvez liberando substâncias que alteram o modo como as células imunes trabalham no cérebro. Ainda não achou a espécie, nem a substância, “mas tem alguma coisa aí”, disse ao NYT.

Na Universidade da Califórnia em San Diego, o microbiólogo Rob Knight e sua equipe chegaram a um resultado surpreendente com um método curioso. Transplantaram fezes de um camundongo com uma mutação genética que o fazia comer muito e engordar para outro criado sem microbiota. Depois desse transplante fecal, o segundo camundongo também passou a comer muito e engordar. Em outro experimento, a equipe de John Cryan descobriu que camundongos sem microbiota se tornam antissociais e que os neurônios em suas amígdalas (não confundir as amígdalas do cérebro com as da garganta) fabricam conjuntos proteicos inusuais, alterando as conexões que fazem com outras células. Em seres humanos, constatou-se que crianças com autismo têm um padrão microbiano diferente nas fezes.

Isso não quer necessariamente dizer que a microbiota causa as condições. No entanto, a equipe de Sangram Sisodia observou que, ao transplantar fezes de camundongos comuns para aqueles que haviam sido tratados com antibiótico, eles voltaram a fabricar os mesmos aglomerados de proteína. Outros pesquisadores transplantaram fezes de humanos com depressão profunda para camundongos. Em situações normais, pendurados pelo rabo, os animais se contorcem desesperadamente tentando fugir, os que receberam o transplante passaram a desistir mais rápido, ficando pendurados imóveis.

Esses experimentos têm uma limitação importante: os pesquisadores transferem centenas de espécies de bactéria de uma vez, o que impede de saber qual delas está afetando o cérebro. Essa limitação começa a ser enfrentada. A equipe de Mauro Costa-Mattioli na Faculdade de Medicina Baylor, em  Houston, no Texas, examinou vários tipos de camundongos com diferentes sintomas de autismo. Uma mutação em um gene chamado SHANK3 pode levar o animal a ficar se limpando repetidamente em contato com outros. Em outra variedade, o pesquisador constatou que uma dieta hipercalórica a uma mãe tornava os filhotes mais propensos a esse comportamento. Exame posterior indicou que esses animais não tinham em sua microbiota a bactéria Lactobacillus reuteri, que, adicionada à sua dieta, os tornou sociáveis.

Costa-Mattioli encontrou evidência de que essa bactéria libera compostos que enviam sinais às terminações nervosas do intestino, o nervo vago envia esses sinais para o cérebro, onde afetam a produção de oxitocina, hormônio responsável pelos laços sociais. Outros micróbios se comunicam com o cérebro pela corrente sanguínea.

A reportagem aponta também que a formação da microbiota começa ainda na gestação e prossegue durante a fase de amamentação. Rebecca Knickmeyer, neurocientista na Universidade Estadual de Michigan, estudando as conexões das amígdalas com outras partes do cérebro em ressonâncias magnéticas de bebês, observou que aqueles com menor variedade de espécies na microbiota do intestino têm conexões mais fortes. Ainda não se pode dizer que essa menor variedade torne os bebês mais medrosos, mas ela pretende investigar mais a fundo.

Na Universidade da California em Los Angeles, a microbióloga Elaine Hsiao desconfiou que a microbiota estaria por trás da diminuição de convulsões em epiléticos a partir de uma dieta cetogênica (ou seja, pouco carboidrato, muita gordura e proteína), prática medicinal que remonta ao início do século passado, cujos efeitos também foram observados em camundongos. Hsiao criou animais epilépticos sem microbiota e não observou proteção contra convulsões quando expostos à dieta cetogênica. Ao ter transplantadas fezes de camundongos com microbiota e em dieta cetogênica, os animais epilépticos passaram a ter menos convulsões. A pesquisadora identificou que dois tipos de bactéria se desenvolvem mais nos intestinos dos ratos nesse tipo e dieta, talvez eles favoreçam a formação de neurotransmissores que interrompem a atividade elétrica no cérebro.

Na universidade Caltech, o microbiólogo Sarkis Mazmanian e seus colegas identificaram uma variedade de bactéria que ativa sintomas da doença de Parkinson em camundongos. Ele abriu uma empresa para testar um composto que pode bloquear sinais que o micróbio envia ao nervo vago. Manmanian e outros cientistas, porém, se preocupam que pseudocientistas comecem a vender alegadas curas com probióticos para doenças sérias como Parkinson. Na pesquisa de Costa-Mattioli, algumas cepas alteraram o comportamento dos camudongos, outras, não. Eles ainda procuram a mais efetiva e a potência da dose para testar em humanos. “Você quer ir para o teste clínico com a melhor arma, e ainda não estamos seguros de que a temos”, disse o cientista ao New York Times.

Como explicou ao jornal a bióloga computacional da Universidade de Bordeaux, na França, Katarzyna B. Hooks, “temos os cantos do quebra-cabeça, agora estamos tentando descobrir a imagem”.