O Projeto

 

Uma invenção para tratar ciência e tecnologia com humor

 

logo_ciencianarua1O projeto Ciência na rua vem sendo pensado desde 2009, já lá se vão mais de seis anos. Sua origem é em parte uma inveja positiva, digamos assim, dos tabloides que há cerca de uma década aportaram nos cruzamentos de avenidas e ruas de tráfego intenso na cidade de São Paulo: o Metro em sua versão brasileira, depois o Destak.

“Que bom seria termos um jornal que tratasse de ciência e tecnologia distribuído pelas ruas das grandes cidades brasileiras!”, eu então imaginava. “Mas teria que ser um veículo marcado por humor, cheio de charges, cartoons e quadrinhos fantásticos!”, contrapunha a meu primeiro desejo. Uma espécie de Pasquim da ciência,sonhava, contemporâneo do século 21.

O nome que batiza o projeto surgiu assim, naturalmente, do primeiro pensamento que lhe dirigi. E, ato contínuo, viajei na antevisão de coloridos atores — em vez dos malabaristas a que estávamos nos acostumando a ver nos sinais de trânsito – que usariam seus corpos para uma brevíssima representação teatral da principal reportagem do jornal. Seria teatro de rua ajudando a dar substância viva ao que aquele jornal contava sobre ciência na rua.

A logomarca – e suas variações para diferentes aplicações –, que além de bonita traduz com perfeição o espírito do projeto, não tardaria a ser criada por Mayumi Okuyama. Senhora de uma rara sensibilidade, talento criativo e capacidade de incansável labor em busca da perfeição, ela é minha designer predileta, e com quem tenho a sorte de vir trabalhando, contínua ou eventualmente, há muitos anos.

Foi ainda imaginando como peça de resistência um jornal semanal impresso, em formato tabloide, que comecei as primeiras discussões sobre a viabilidade de um tal projeto. Meu primeiro e entusiasmado interlocutor foi o engenheiro e físico Fernando Perez, ex-diretor científico da Fapesp. Conversamos bastante a respeito das chances de ter anunciantes como financiadores, no esquema mais tradicional do jornalismo, mas as coisas não prosperaram por aí. O segundo foi Cláudio Ceccon, o Claudius, além de genial artista do cartoon e do humor, um educador comprometido com grandes projetos sociais.

Nos anos que se seguiram a esse partejamento da ideia, o panorama do jornalismo e da mídia estava se alterando dramaticamente no mundo e no Brasil, com jornais antes poderosos entrando em declínio ou mesmo cerrando as portas, casos do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil, para ficar apenas nesses dois, ao mesmo tempo em que a internet se expandia.

Veículos de comunicação antigos,insistiam meus interlocutores, tinham que migrar para o mundo virtual e veículos em fase de desenvolvimento deveriam abandonar, por anacrônica, qualquer ideia de ter um suporte em papel. Comecei a levar isso a sério só parcialmente. O Ciência na rua começaria pelo mundo virtual, menos oneroso, mas mantinha o plano de adiante produzir um semanário impresso, divertido, com centenas de milhares de exemplares distribuídos gratuitamente para a moçada de 14 a 25 anos de todo o país em escolas, faculdades e, por que não?, nas ruas.

Foi assim, com o projeto reorientado para começar pelo site e pelas redes sociais, que a partir de 2013 o Ciência na rua começou a ser discutido com o então presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva, um entusiasta da iniciativa, o então presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Glauco Arbix, outro entusiasta, o presidente do Instituto Vale, Luiz Eugenio Mello, o presidente da Academia de Ciências da Bahia, Roberto Figueira Santos, e várias outras pessoas que em princípio viam um grande valor no projeto. Entretanto, uma questão estava sempre a rondar sua implementação: como financiá-lo?

Mais recentemente, o ministro Aldo Rebelo, ainda no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que recebera informação sobre o Ciência na rua do pró-reitor de pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Olival Freire Junior, também dedicou alguma atenção ao projeto, e o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do ministério, Jailson Bittencourt de Andrade, voltou a examiná-lo para ver se identificava que verbas poderiam ser empregadas para apoiá-lo.

Na verdade, no âmbito da administração federal sempre pareceu possível classificar o Ciência na rua como um projeto especial de popularização da ciência, o que tornaria possível enquadrá-lo nas normas de financiamento do CNPq ou do próprio ministério. Entretanto, os recursos públicos federais para iniciativas dessa natureza pareciam escassear mais e mais no país desde 2013.

Finalmente, em 2015, depois de inúmeras e estimulantes conversas com meu amigo Bob Fernandes e seu parceiro Toninho Prada, jornalistas que há mais de 10 anos vêm desenhando e implantando veículos inovadores para o ambiente virtual, o caminho para tirar o Ciência na rua do plano das ideias começou a se abrir. Primeiro, aconteceu o apoio direto do coordenador do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp), o poeta e linguista Carlos Vogt, para que nesse laboratório se desenvolvesse a pesquisa de linguagem que daria suporte teórico e experimental aos veículos de comunicação que fossem sendo gerados pelo projeto. Era um suporte institucional de peso.

Em seguida, Glauco Arbix, já no Observatório da Inovação e Competitividade, um dos núcleos de apoio à pesquisa da Universidade de São Paulo, baseado no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), nos propiciou junto com seu colega Mario Salerno a primeira apresentação pública do projeto, com transmissão via internet ao vivo.

Outro apoio precioso veio do sempre entusiasmado pró-reitor de pesquisa da USP, José Eduardo Krieger, que articulou com Ary Plonski, coordenador científico do Núcleo de Política e Gestão Tecnológica da universidade para que ele acionasse o apoio dos jovens do Núcleo de Empreendedorismo (NEU) no suporte tecnológico à montagem da plataforma digital que daria existência ao Ciência na rua.

O mais genial na discussão com essa moçada sob o comando de Artur Tavares foi que eles propuseram uma notável simplificação do caminho tecnológico para buscar logo os jovens que pretendíamos atingir com o Ciência na rua: nada de aplicativos por ora, vídeos dispendiosos nem games, enquanto não há dinheiro. Vale seguir pela boa construção do site, com as alternativas extremamente baratas que há no mercado para tanto, e uso intensivo das redes sociais, porque elas darão um feedback muito importante para o futuro desenvolvimento de novas ferramentas. Recomendação aceita, tocamos em frente.

Veio então a ideia de fazer um crowdfunding para alavancar recursos suficientes para dar partida ao projeto. A arrecadação foi modesta, mas os apoios chegaram de toda parte e a visibilidade do Ciência na rua começou a acontecer.

Por fim, no final de 2015, apresentado o projeto ao professor Carlos Joly e demais membros da coordenação do programa Biota Fapesp, veio o primeiro e decisivo patrocínio para que o Ciência na rua chegue hoje ao público, neste janeiro de 2016, e possa doravante se expandir e ocupar muitos espaços virtuais e concretos.

Portanto, esse é um projeto tocado pela empresa Aretê, mas assegurado pela sensibilidade e pelo compromisso social de muita, muita gente, via múltiplas formas de apoio, inclusive trabalho direto voluntário, na forma de artigos, reportagens,cartoons, áudios etc . Ele começa por uma plataforma digital propondo-se a alcançar pelas redes sociais centenas de milhares, talvez milhões de jovens brasileiros. Mas está pensado para inventar outras plataformas e se articular com outros veículos benéficos à expansão da cultura científica em nosso país.

Mariluce Moura