O CAFÉ MAIS SOLIDÁRIO DO MUNDO

Francisco Bicudo | 12 de dezembro de 2016

O eletricista terminara o serviço. No capricho. Resistência do chuveiro trocada, ducha novamente quente, quatro pontos de luz instalados numa sala que dera adeus à incômoda penumbra. Aproveitando que estava por lá mesmo, o rapaz deu jeito no sinal da TV a cabo e da internet, agora estáveis e funcionando como manda o figurino, voando baixo, sem quedas repentinas. Não estava no contrato, foi benevolência extra. A dona da casa agradeceu.

– Por favor, me diga quanto fica esse serviço a mais. Não tínhamos combinado.

– É só um cafezinho.

– Claro, é para já.

Antes que a água começasse a ferver e apitar na chaleira, o marido, que trabalhava no escritório e ouvira de relance a conversa, achou que era momento de intervir.

– Amor, acho que não é bem desse cafezinho que ele está falando.

Não era mesmo. Mas a oferta camarada da moça fazia todo sentido. Ela entendeu errado, mas compreendeu corretamente. O café (consegue sentir o cheirinho?) carrega consigo desde tempos imemoriais essa dimensão de acolhida e gratidão. ‘Muito obrigado. Posso te pagar um café?’. É também quem ajuda a celebrar reencontros e embala conversas fraternas. ‘Quanto tempo! Vamos tomar um café?’. É o amigo solene e vivo daquelas horas silenciosas e introspectivas de leitura e trabalho, a invadir madrugadas. ‘Que tal um cafezinho?’. É papo descontraído e olho no olho, sem zaps ou virtualidades, nem hora para acabar. ‘Que delícia de café!’. É lanche com bolo na casa da avó. ‘Não esqueci aquele cafezinho quentinho que você tanto gosta’. Não é dos imensos prazeres da vida deliciar-se com uma xícara de café, daqueles fresquinhos, fortes e encorpados? Com bastante açúcar, por favor.

Os mais ranhetas ou cuidadosos dizem que é bom evitá-lo à noite, provoca insônia. Sei não. Posso tomar uma xícara, das grandes, cinco minutos antes de cair na cama. Nenhum efeito contrário. O sono vem sem pedir licença. Já foram muitas as broncas que tomei por conta do estômago avariado. Meu gastro, no entanto, foi sempre portador de boas novas: ‘sua gastrite é de fundo nervoso. Nenhuma relação com café’. Tudo bem, eu sei, não é nada bom ferir o estômago com as facas afiadas de nossas agruras e tensões diárias. Nessas horas sempre me lembram ainda das pesquisas – ‘preste atenção, você que tanto acompanha a ciência’ -, como aquela divulgada em 2013 pela Universidade da Carolina do Sul que sugere que aqueles que tomam mais de quatro xícaras de café por dia têm mais chances de morrer prematuramente.

Aceito os alertas, sei que são bem intencionados, mas, gato escaldado, saco da memória estudos que revelam benefícios da saborosa bebida negra. Não me levem a mal, agradeço a preocupação e os cuidados, mas, em 2015, doutorado feito na Universidade de Brasília mostrou que há no café proteínas com potencial analgésico (parecido com o da morfina). Sabia que duas ou mais xícaras diárias de café podem ajudar a combater o diabetes tipo 2? Foi o que revelou trabalho feito também em 2015 por uma equipe internacional liderada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E, muito legal, matemáticos da Universidade de Limerick, na Irlanda, acabam de publicar um trabalho que dá as pistas para a construção de um modelo matemático (características das cafeteiras, quantidade de água fervendo despejada sobre o pó, tamanho das partículas obtidas a partir da moagem dos grãos) capaz de calcular como fazer um café perfeito, daqueles encorpados e não amargos.

Não tenho elementos para afirmar que o café colombiano é cientificamente perfeito – mas posso escrever sem medo de errar que ele é mundialmente cantado em verso e prosa e aclamado como o mais saboroso do planeta. Clima e temperaturas das montanhas e solo vulcânico dos Andes ajudam nessa produção de excelência. Não bastam, no entanto, para explicar a qualidade inigualável. O café é elemento de identidade no país de Gabriel García Márquez, motivo de orgulho nacional. Os colombianos adoram ser chamados de ‘cafeteros’. Nem ouse falar mal do café deles. Esse título tem a ver também com as pajelanças e tradições e danças e adorações das tribos indígenas andinas, com a sensibilidade e a sabedoria transmitidas como patrimônio singular de geração em geração, com a mágica realidade fantástica que acompanha o povo colombiano.

Confesso que passei a semana tomando muito, muito café (brasileiro mesmo). Talvez tenha exagerado. Válvula de escape. Foi preciso. Vivemos, todos, explosões de emoções e de choros. E as impressionantemente dignas histórias e comoventes cenas que nos chegaram sem parar do país de Gabo nos últimos dias só me fizeram confirmar, mesmo sem nunca ter experimentado, que o melhor café do mundo, essa bebida fraterna e companheira, que serve para agradecer e ajuda a celebrar, só poderia mesmo sair das mãos incrivelmente solidárias dos que habitam terras colombianas.

A homenagem que os torcedores do Atlético Nacional e a população de Medellín prestaram aos jogadores da Chapecoense mortos no acidente de avião foi épica. Será lembrada e narrada por gerações, daqui a cem anos. O mundo parou para sentir, aplaudir. Refletir. E agradecer. Canção pela unidade latino-americana. Prêmio Nobel de futebol e desportividade para o gigante Atlético. Prêmio Nobel de café para a gigante Colômbia. Muito grato, hermanos colombianos, por nos lembrarem, em tempos tão escuros e atormentados, o que nos faz humanos. Mais um cafezinho, por favor. De Medellín. Numa xícara verde e branca. Um minuto de silêncio. #ForçaChape



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