A quinta-feira, 25 de janeiro, foi dia de festa entre os matemáticos e pesquisadores da área de exatas. Eles comemoravam a chegada do Brasil à elite da matemática mundial.
Junto com outras 10 nações, como Alemanha, China e Estados Unidos, o país agora faz parte do seleto grupo 5 da União Matemática Internacional (IMU), órgão máximo da pesquisa e da produção matemática no planeta.

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Equação de primeiro grau. Essa dá para resolver

A notícia chega em boa hora. O matemático Marcelo Viana, diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) está festejando desde ontem. “É como se, finalmente, tenhamos chegado à primeira divisão para disputar a Copa do Mundo só com seleções de primeira linha e craques muito bem preparados”, brinca.

Para chegar a esse degrau, o Brasil precisou provar em um relatório feito pela Sociedade Brasileira de Matemática que sua produção científica na área de matemática vem crescendo e aumentando também em qualidade, significado e aplicações.

Viana passa a cola para provar o valor do nosso crescimento: “passamos de 253 artigos publicados em periódicos especializados para 2.349, nos últimos 30 anos. A contribuição de pesquisas na área passou de 0,7% do total para 2,35% dos artigos”.

Os cursos de pós-graduação em matemática cresceram significativamente. De cinco passou para 30 em três décadas. O número de pesquisadores atraídos para esses programas também saltou de 677 em 2007, para quase 1.400 em 2018.

Folha de São Paulo

Fonte: Capes

Se tantos números e cálculos já estão fazendo a cabeça dos leitores fundir, um pouco de alívio com um dado de populações e grupos (beirando a História e a Geografia). Chamou a atenção dos representantes da IMU a participação de matemáticos brasileiros entre os conferencistas e convidados para o Congresso Internacional de Matemáticos, o maior evento da área, que só ocorre a cada quatro. A próxima edição já está marcada para este ano, no Rio de Janeiro.

Para fechar os argumentos que sensibilizaram os matemáticos da União Internacional, o Brasil tem Artur Avila, um jovem matemático que ganhou em 2014 a medalha Fields, uma espécie de Oscar da matemática.

Com tudo isso, no entanto, a nova posição do Brasil na elite da matemática mundial ainda chama mais atenção porque as notícias dessa editoria não vêm sendo nada alvissareiras e costumam retratar um Brasil como atrasado no ensino da matemática e no desempenho de alunos. Basta lembrar do o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), aquela avaliação mundial da capacidade de resolver questões matemáticas. A última edição, divulgada em 2017, coloca o Brasil na 65a posição num universo de 70 países.

Os resultados do Pisa são classificados em seis níveis. O nível dois é aquele necessário para a vida cotidiana, para a cidadania. O nível quatro é o mínimo pedido para ingressar em carreiras nas áreas tecnológicas, engenharia e exatas. “Os resultados falam por si: menos de 4% dos jovens brasileiros alcançam o nível quatro ou mais na prova. Para comparar, na Austrália são 38%, no Canadá, 43%, na Coreia do Sul, 52%”, lamenta.

O que explica essa diferença entre a excelência e o quase analfabetismo matemático no mesmíssimo país? O diretor do Impa recorre à Língua Portuguesa e a uma figura de linguagem bem apropriada: “somos um paradoxo, um absurdo”, brinca. Explica na sequência que são mesmo duas realidades. Uma é a da academia. “As agências de fomento à pesquisa vêm sendo muito exigentes com a matemática, avaliam, cobram e são rigorosos. Se o projeto é bom, ele passa e é financiado. Se não é, nem vai para frente”, explica.

Além disso, são de 2 a 3 mil pesquisadores focados na matemática de excelência, trabalhando em instituições prestigiadas. “Nas escolas brasileira são 50 milhões de alunos e 2 milhões de professores. É muito mais difícil fazer um trabalho profundo e de qualidade com esses números”, calcula Viana. Junto com isso, o matemático levanta aquele velho problema ainda sem solução: formação deficitário do professor somado a falta de um projeto sério de educação de qualidade na escola e no país.

Entretanto, é dessa realidade árida que brotam talentos. Ou seja, temos talento para produzir talentos. “Se nessa situação aparecem garotos como Artur Avila, imagine quando a matemática for levada a sério mesmo”, provoca Marcelo Viana.

Um dos caminhos que o país tem encontrado para fazer chegar mais rapidamente ao conjunto solução desse problema são as Olimpíadas de Matemática. Em especial, a Olimpíada Brasileira de Matemática (Obmep), que desafia estudantes de escolas pública e realmente parece uma grande farra. Na edição de 2017, 18 milhões de alunos participaram e 501 ganharam a medalha de ouro. “Não duvide. A competição, assim como o Festival que fizemos no Rio de Janeiro no ano passado, tem um potencial de diversão e competição saudável que atrai muita gente para a matemática”, ensina.

Apesar de a Seleção Nacional da Matemática só contar com 2 mil pesquisadores, esse número de 500 medalhista dourados na Olimpíada de Matemática ajudam a provar a tese de Marcelo Viana: “matemática não é só para eleitos”, garante.

“Eu não gosto de revelar em público porque é uma fraqueza minha, mas Neymar joga bola melhor do que eu. Um pouco, mas joga. Isso significa dizer que eu não vou entrar em campo? Claro que vou e vou com um grupo de amigos, que podem ser ótimos ou bons, mas que podem jogar bola”, exemplifica entre risos.

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A medalha Fields. Igual a que Artur Avila ganhou

O mesmo, sugere o diretor do Impa, vale para matemática. “Fazer parte do grupo 5 da União Matemática Internacional é uma conquista de um grupo pequeno, mas a matemática básica é um direito do cidadão, garante uma vida melhor, maior poder de negociação, menos enganação”. Esse nível é perfeitamente ensinável nas escolas, assegura.

Ao mesmo tempo, é uma questão cultural difícil de dissolver. Nas famílias, o discurso de que matemática é difícil e não é para qualquer um é o mais frequente, de forma que o estudante acredita e desiste de ir buscar resultados melhores.

“Matemática é tão importante quanto a língua e muito mais importante que o futebol. O Brasil provou que pode estar na elite mundial com uma boa dose de esforço”, aponta. Chegar ao grupo 5 do IMU trouxe, segundo Marcelo Viana, mais que uma comemoração e um freio na escalada. “Ganhamos mesmo um desafio. Agora temos de fazer essa excelência chegar à base da educação”. A lista de exercícios ganha mais uma equação.