Há algumas semanas, a imprensa do Paraná vem noticiando um feito, no mínimo, importante para a ciência e para a memória do planeta. Um grupo de cientistas coordenados pelos paleontólogos Fernando A. Sedor do Museu de Ciências Naturais (SCB-UFPR) e Eliseu Vieira Dias da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) encontrou fósseis de invertebrados, peixes, anfíbios, répteis e mamíferos extintos nos arredores de Curitiba, no Paraná. A formação geológica que abriga essa riqueza se chama Guabirotuba e fica bem na divisa entre Curitiba e Araucária.

F. A. Sedor/UFP

Pesquisador coletando o fóssil de um ungulado

 

De imediato, a pesquisa traz duas grandes novidades. A primeira é que embora a área já fosse conhecida pelos pesquisadores e fosse até palco para as aulas de geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), só recentemente foi tombada e declarada de interesse paleontológico e geológico. “Normalmente, as áreas são tombadas quando são de interesse para a biologia, a e a conservação ambiental. No nosso caso, são os registros geológicos que contaram e isso é novo”, explica o geólogo Luiz Fernandes, membro da equipe, professor de Geologia da UFPR e coordenador do grupo de pesquisa em Geoconservação e Patrimônio Geológico.

A segunda novidade é apresentar como era Curitiba há 40 milhões de anos. Ou melhor, alguns dos habitantes da região entre 39 e 42 milhões de anos atrás. Tudo isso está bem relatado no artigo assinado pelo grupo que saiu na edição deste ano do Journal of Mammalian Evolution.

F. A. Sedor/UFPR

Dente crocodiliano terrestre Sebecidae

“Tudo começou com um dente”, revela Fernandes. “Embora a área já fosse nossa velha conhecida, só em 2010 apareceu a primeira evidência de que havia algo ali”, completa. Era o tal dente. “O dono era um crocodiliano, um réptil ancestral dos crocodilos que vemos hoje”, explica o geólogo. Geólogos estão sempre cavando, procurando. Por isso, os trabalhos seguiram e logo os pesquisadores descobriram uma coleção de fósseis.

Nesse ponto, pediram um financiamento ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e uma ajuda a especialistas em marsupiais e xenartros Edison Vicente de Oliveira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em ungulados, David Dias da Silva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFGRS) e Ana Maria Ribeiro, da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZBRS). Foi aí que nosso entrevistado, Luiz Fernandes, entrou na história também.

Renata Cunha

1. Sparassodonta (marsupial); 2. Tartaruga (Pleurodira); 3. Proeocoleophorus carlinii (xenartra); 4. Oldfieldtomasidae (ungulado); 5. Utaetus (xenartra); 6. Interaterídeo (ungulado); 7. Forusracide (aves do terror); 8. Astrapotério (ungulado); 9. Sebecide (crocodilomorfo); 10. Polidolopideo (marsupial) 11. Paucituberculado (marsupial) 12. Anfíbio (anuro)

“Encontramos répteis e aves e também mamíferos, os primeiros, certamente”, comemora. Tudo isso é importante, porque a América Latina ficou separada da América do Norte por cerca de 70 milhões de anos e, acreditam os pesquisadores, os mamíferos apareceram primeiro por aqui e depois migraram para o norte. “Ainda temos pouco material sobre esses mamíferos pioneiros, então a pesquisa dessa fauna pode trazer informações importantes”, defende Fernandes, antes de salientar que as escavações só aconteceram na superfície até agora. A região estudada era uma bacia sedimentar e há 40 milhões de anos tinha umidade suficiente para contemplar um bom número de espécies. “A gente quer continuar cavando e a expectativa é de que venham outros fósseis de lá”.

Já há indicação de espécies novas, como aqueles mamíferos raros, e certamente aparecerão outras ainda. Os fósseis de mamíferos encontrados parecem com outros achados na patagônia argentina, que viveram na mesma época. É o caso de um tatu primitivo chamado Utaetus e de alguns marsupiais sparassodontes. Outros animais escavados em Guabirotuba eram desconhecidos, como uma nova espécie extinta de tatu primitivo, o Proeocoleophorus carlinii, descrita no artigo. E a coleção vai além: tem aves, peixes, marsupiais, e até tartarugas aquáticas.

Perguntamos ao professor da UFPR se a equipe pretende apresentar a descoberta ao público. E Fernandes explicou que a providência número um é preservar os fósseis já encontrados e a área. “Descobertas arqueológicas e paleontológicas têm enorme apelo comercial, muita gente quer conhecer e revender as peças encontradas, então precisamos cuidar bem”, sugere. Mas isso não significa esconder os achados. Ao contrário. A memória do planeta depende desses fósseis e de outras descobertas como essas e isso pertence aos cidadãos, segundo Fernandes. Por isso, o segundo passo é fazer um pequeno museu, lá mesmo na área das escavações e o local já está até reservado, para receber alunos das escolas do Paraná e pesquisadores do Brasil todo.

As imagens que ilustram essa reportagem são da aluna de geologia da UFPR Renata Cunha, que também é ilustradora.