Nise da Silveira: uma vida cheia de ousadias realizadas

Fernanda Pompeu | 08 de maio de 2016

A psiquiatra Nise Magalhães da Silveira (1905-­1999) nasceu em Maceió, na Alagoas de Graciliano Ramos,  ­seu colega de prisão. Sua vida foi uma sequência de ousadias realizadas. Entre elas, a criação do Museu deImagens do Inconsciente.

Ela sempre teve peito. Aos dezesseis anos ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia. Única mulher entre centenas de rapazes. Formou-­se e partiu para o Rio de Janeiro, então capital federal. Empregou-­se no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no bairro de Engenho de Dentro.

Parecia um bom começo, não fosse a truculência da ditadura de Getúlio Vargas que encarcerou opositores ligados ao levante comunista do ano de 1935. Nise não tinha militância política, mas possuía livros de esquerda em seu quarto. Na mesma cela de Olga Benário Prestes, ficou presa por um ano e quatro meses.

Posta em liberdade, amargou sete anos de desemprego. Finalmente, no ano de 1945, voltou ao Hospital Pedro II e detestou o que viu. Estavam em moda as terapias do eletrochoque e da lobotomia. Os choques significavam tortura pura. A lobotomia, uma cirurgia de mutilação do cérebro. As vítimas eram pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas.

Nise da Silveira se negou a aplicar essas práticas. Bateu de frente com o diretor do hospital. Este, pensando em puni-­la, designou ­a para a seção de Terapêutica Ocupacional. Espaço considerado de pouca importância. O que o diretor não suspeitava é que estava dando a oportunidade para a doutora Nise começar uma revolução.

Imagens do Inconsciente

Na seção de terapêutica, Nise abriu ateliês de pintura e modelagem. Estimulou os clientes (ela nunca chamou os internos de doentes ou pacientes) a se expressarem com total liberdade. O que sucedeu foi uma profusão de desenhos e pinturas, muito deles com inequívoco valor artístico.

Nessa primeira fase, alguns psiquiatras debochavam dos ateliês. Mas Nise, afinada com as idéias de Carl Gustav Jung (1875­1961), sabia da eficácia das imagens e dos símbolos nos trabalhos com o inconsciente – este mar adentro e aberto – que ora navegamos, que ora nos navega.

A doutora apostava no poder da expressão como terapia autocurativa. Pois, ao representar os “demônios” nas telas, os esquizofrênicos “aliviam” os terrores de seu inconsciente.

A aventura deu tão certo que, no ano de 1952, Nise criou o Museu de Imagens do Inconsciente. Concebido como um espaço vivo, permitia que os terapeutas e o público tivessem acesso às imagens dos esquizofrênicos e estes comunicassem fragmentos de seu mundo.

Vale lembrar que a esquizofrenia caracteriza-­se por uma grave fragmentação do ser, o que leva a uma drástica desorganização, ao sofrimento psíquico e à incomunicabilidade verbal.

Muitos pintores do museu ­ateliê tiveram suas obras festejadas por críticos de arte. Entre os artistas, Fernando Diniz, Carlos Pertuis, Emydio de Barros e Adelina Gomes. Sem arte, eles seriam tão somente esquizofrênicos segregados em um hospital psiquiátrico. Com a oportunidade, eles pintaram, como Adelina, sem nunca ter deixado o Pedro II, todos os dias de suas vidas.

No ano de 1956, a irrequieta Nise fundou a Casa das Palmeiras, clínica de reabilitação em regime de portas abertas, onde a terapia dos ateliês foi reaplicada.

Legado sensível

O trabalho de Nise e de sua equipe passou a ser conhecido mundialmente. Tanto que, no II Congresso Internacional de Psiquiatria do ano de 1957, realizado em Zurique, ela organizou uma mostra de parte do acervo do Museu, dando ênfase para as mandalas. Quem abriu a exposição, cheio de entusiasmo, foi o Doutor Jung.

Pelo resto de sua vida, seguiu incansável. Lutou para preservar e ampliar o Museu, desdobrou-­se para dignificar a vida das pessoas com problemas mentais. Escreveu livros e artigos. Estudou continuadamente.

Também arranjou tempo para cuidar de seus gatos e cachorros, que ela chamava de coterapeutas. Uma vez disse: O animal nunca provoca frustração, além de dar afeto incondicional.

Hoje o Hospital Psiquiátrico Pedro II ganhou o nome de Instituto Municipal Nise da Silveira ­ voltado para as boas práticas da psiquiatria. As idéias e as ações da doutora são referências de primeira qualidade para terapeutas de todo o mundo.

Nise da Silveira, que amava e respeitava seus clientes, saiu da vida aos noventa e quatro anos, em outubro do ano de 1999. Entrou para a história da psiquiatria, da arte, do Brasil e da humanidade.



Uma resposta para “Nise da Silveira: uma vida cheia de ousadias realizadas”

  1. Claudia disse:

    Grande mulher!

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