Confirmando tendências que se anunciavam nos últimos anos no ambiente científico internacional (ver, a propósito, por exemplo: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1574789115001155), um grupo de pesquisadores brasileiros, liderado por Alexander Birbrair, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB-UFMG), constatou a existência de terminações nervosas em tumores. A confirmação pode levar, no futuro, a tratamentos menos agressivos do que as tradicionais radioterapia e quimioterapia, que, ao alvejarem as células de câncer, têm o efeito colateral de matar também outras células. “Na hora que você faz corte em qualquer tumor, uma biópsia, se a gente conseguir quantificar quantas células doentes tem ali, elas correspondem a somente metade”, explicou Birbrair, por telefone, ao Ciência na Rua. A outra metade tem tipos variados, como células imunes, vasos sanguíneos ou, claro, terminações nervosas.

O Birbrair Lab, financiado pelo Instituto Serrapilheira, se dedica a estudar o microambiente tumoral, o pequeno ambiente em que as células doentes se multiplicam de forma descontrolada. A ideia é entender os mecanismos que permitem essa proliferação e tentar intervir neles para evitá-la. “Se eu mando você fazer reportagem lá na China, você vai fazer de outra forma, lá a língua é diferente, pode ser pior pela dificuldade, pode ser até melhor porque é um desafio grande, mas você vai se comportar de outra forma. Então nós, humanos, dependemos do ambiente onde estamos para nos comportar. É a mesma coisa com as células”. A preocupação com o microambiente tumoral é uma tendência mundial nas pesquisas de tratamentos contra o câncer. O Prêmio Nobel de Medicina de 2018, por exemplo, foi para dois pesquisadores que se debruçaram sobre as células imunes desse microambiente.

Além de confirmar a existência de nervos dentro dos tumores, a equipe – que trabalha com câncer de próstata, mama e pele – descobriu que as células associadas aos nervos (chamadas células de Schwann) desgrudam desses  durante a progressão do câncer e vão se ligar aos vasos sanguíneos que estão dentro do tumor, ajudando a bloquear seu crescimento. “O próximo passo é descobrir moléculas dentro desses nervos intratumorais para usá-las como alvo terapêutico certeiro”, diz Birbrair.

Os testes com animais têm sido promissores. “Quando manipulamos geneticamente, conseguimos afetar o crescimento das células malignas”. O projeto tentará uma adição de contrato de mais quatro anos. O objetivo final é chegar a drogas que possa ser testada em seres humanos.