Na gangorra do tempo

Fernanda Pompeu | 05 de setembro de 2016
Gangorra

Admiro os visionários, gente com talento e capacidade para enxergar além da linha do horizonte. Pessoas que trabalhando com informações atuais farejam tendências. Veem o que pode haver atrás da montanha. É claro, sempre é uma aposta. Porque o que virá depois ainda não é. Pode inclusive nunca se concretizar. Visionários erram muito. Mas seguem felizes com seus palpites, preveem desdobramentos surpreendentes. Visionários sonham com olhos bem abertos.

 

Também admiro os memorialistas, gente com talento e capacidade para enxergar atrás. Recuam no tempo para encontrar origens das circunstâncias do dia a dia presente. Adoram dizer Ah, foi ali que tudo começou. Ou exclamar Aquilo deu nisso. Memorialistas devoram livros e sites de História, biografias, documentários. Suas mentes entram em êxtase quando tocam em cartas da bisavó para o bisavô. Quando se deparam com fotos antigas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro – joia verde urbana – criado há 207 anos.

 

Assim como cada um carrega um pouco de médico e de louco, acredito que nos alternamos entre visionários e memorialistas. Há momentos que queremos quebrar o espelho para saber além dele. Em outros, nos deleitamos em observar a vida escorrer pelo espelhinho retrovisor. Verdade que à vezes fazemos força para esquecer ou desconhecer o passado. Às vezes, não queremos investir um centavo apostando no amanhã.

 

Mas a densidade do passado e a sedução do futuro é matéria-prima do presente. É com ela que nos configuramos segundo a segundo. Pois, aqui entre nós, impossível pegar o presente com as mãos. Ele é água livre Passa, passa, passou! As novas tecnologias de conhecimento, informação, entretenimento estão potencializando o imenso acervo dos ótimos feitos e dos malfeitos. E oferecendo vislumbres do que pode dar certo e do que provavelmente dará errado.

 

A gangorra passado-futuro é plenamente realizada nas relações familiares, principalmente nas gerações. Estamos sempre entre o que nos mostraram e ensinaram e o que não experimentamos e desejamos. Entre vivências do passado e desenhos do futuro. Eu, por exemplo, em relação ao passado, ora sinto ternura, ora raiva. Com o futuro, preparo o misto quente com fatias de ousadia e medo.

 

Queria que minha avó Affonsina voltasse da eternidade, na qual ingressou faz 44 anos, para tomar o café da manhã de hoje em minha companhia. Gostaria de perguntar o que ela acha do presente da neta. O modo como eu vivo é o futuro que ela havia imaginado?

 

 

Fernanda Pompeu é escritora e blogueira. Mantém o site Fernanda Pompeu Digital

 



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