Se as playlist do seu Spotfy marcam rock, funk ou sertanejo, talvez os cientistas tenham mais dificuldade para baixar sua pressão arterial. A menos que você concorde em mudar as categorias e sintonizar o vozeirão da Adele, a suavidade do Electra, a música frugal de Chris Tomlin, ou o som transcendental de Enya.

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Essa trilha sonora foi capaz de reduzir a pressão arterial de voluntários que participaram de um estudo feito em conjunto por pesquisadores da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Marília, Faculdade de Juazeiro do Norte, no Ceará, Faculdade de Medicina do ABC e Oxford Brookes University, na Inglaterra.

O grupo avaliou o efeito de ouvir aquelas músicas no tratamento da hipertensão arterial. Os resultados, positivos e surpreendentes, foram publicados na revista Scientific Reports da Nature. O artigo foi assinado por Eli Carlos Martiniano, Milana Drumond Ramos Santana, Érico Luiz Damasceno Barros, Maria do Socorro da Silva, David Matthew Garner, Luiz Carlos de Abreu e Vitor E. Valenti.

Para medir o poder do som, foram escolhidas 40 homens e mulheres que já faziam tratamento para hipertensão num serviço de saúde de Juazeiro do Norte, no Ceará. Eles foram examinados e avaliados.

Os cientistas não se preocuparam muito com o gosto musical dos pacientes, mas sim com a modulação autonômica cardíaca antes e depois da ingestão dos medicamentos (10 minutos antes, 20 minutos após tomar o remédio, 40 minutos após o remédio e 60 minutos após o remédio).

E cada um dos voluntários foi avaliado em dois momentos distintos (com e sem inserção do estímulo auditivo musical).

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Eletrocardiograma

A pesquisadora Milana Drumond Ramos Santana, diretora acadêmica da Faculdade de Juazeiro do Norte e responsável pelas coletas, conta que “A estimulação auditiva musical intensificou os efeitos da medicação sobre o controle autonômico cardíaco de pessoas hipertensas”. Em outras palavras, tomar remédio e ouvir música na sequência melhora a ação do medicamento e a condição do paciente.

Ainda não dá para dizer que Adele virá prescrita nas receitas dos médicos que tratam a pressão arterial dos pacientes, mas como faz bem, poderia sim estar nas recomendações. “Quando se aplica a música com finalidades terapêuticas consegue-se diminuir níveis de estresse, desconfortos e ansiedades”, defende Milana. “Acreditamos que a música pode auxiliar a ação do medicamento anti-hipertensivo”.

Não resistimos e perguntamos à pesquisadora por que Adele, Electra, Chris Tomlin e Enya (sei lá, tem gente que não gosta muito e pode preferir Pink Floyd, ou Tom Jobim). Ela respondeu apenas que as canções instrumentais tendem a ser mais calmas. E, sim, todas as músicas oferecidas aos pacientes estavam na versão instrumental.

De fato, um método bem sensível para detectar alterações no coração, conhecido como variabilidade da frequência cardíaca, “identificou que os medicamentos apresentaram respostas significantemente mais intensas sobre a atividade do coração quando os voluntários ouviam música”, conclui a diretora acadêmica da Faculdade de Juazeiro do Norte.