Meladinha do Nordeste, a riqueza molecular de uma espécie de uso popular pouco estudada

Vanderlan Bolzani | 03 de setembro de 2016

O uso de plantas para o tratamento de diversas enfermidades no Nordeste é bastante difundido, especialmente nas cidades do interior, onde o sistema de saúde é precário e muitas vezes praticamente inexistente. Muitas espécies, mesmo descritas na medicina tradicional, não devem ser utilizadas pela população sem que haja conhecimentos científicos sobre sua taxonomia (identificação botânica), composição química, farmacologia, toxicologia, prova de conceito e dados de pesquisa clínica que confirmem eficácia terapêutica. Portanto, é fundamental a pesquisa científica de identificação dos produtos naturais, incluindo aqueles responsáveis pelas propriedades terapêuticas das espécies brasileiras usadas na medicina popular, muitas vezes distinto dos relatos de uso tradicional dos nossos indígenas.

Stemodia foliosa Benth, arbusto da família Scrophulariaceae, (Figura 1-2) conhecida como “meladinha” é conhecida na medicina popular, para tratamento de infecções do trato respiratório. O gênero Stemodia é constituído de 56 espécies, todas de pequeno porte, sendo ervas anuais e/ou arbustos, de ocorrência nas regiões tropicais dos continentes Asiático, Africano, Australiano e Americano. Recentemente, pesquisas taxonômicas com base em dados genéticos e moleculares, para este gênero, em conjunto com outros gêneros, como Bacopa, Deinostema, Digitaris, Dopatrium, Ellisiophyllum, Hemiphragma, Limnophila, Mecardonia, Microcarpaea, Scoparia, Veronica e Veronicastrum, foram transferidos para a família Plantaginaceae. Este é um problema que o avanço científico vem tentando contornar. Com o advento de ferramentas moleculares, a identificação e posicionamento de muitas espécies estão sendo reclassificadas.

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Figura 2. Rodriguésia (1935), Revista do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde está descrito as características taxonômicas da família Scrophulariaceae, e das espécies de uso indígenas e exóticas.

A partir de folhas de uma população selvagem de S. trifoliata, foram identificados 22 componentes do óleo essencial extraído, sendo β-cariofileno e óxido de cariofileno os components mojoritários da mistura de sesquiterpenos, além dos diterpenoides da classe dos lábdanos: 6α-acetóxi-óxido de manoíla (1) e 6α-hidróxi-óxido de manoíla (2).

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Das folhas e caules de S. foliosa um produto natural, o éster do ácido esteárico 4-n-pentoxi fenetila (3) foi isolado e exibiu propriedade antibacteriana para Bacillus cereus e Bacillus subtilis e na bactéria Gram-positiva acidorresistente Mycobacterium fortuitum. Os dados de inibição bacteriana é bastante interessante pois referenda a tradição popular da espécie na região nordeste, usada para tratamento das infecções do trato respiratório. Logicamente, muitos estudos químico, farmacológico, toxicológico anteriores aos pré-clínicos e clínicos ainda são necessários para validar o conhecimento tradicional de uso desta planta.

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Os diterpenos biossintetizados pelo gênero Stemodia, chama atenção pois alguns tipos descritos na literatura, possuem arranjo estrutural raro, com esqueleto carbônico tetracíclico, aos quais foram denominados de estemodânicos (Figura 3). Sendo a espécie bem representada na biodiversidade brasileira, especialmente na região Nordeste, é um grupo taxonômico com grande potencial para estudo científico e exploração na química medicinal. As substâncias identificadas com atividade antibiótica, são um indicativo do conhecimento popular, que demanda muito estudo científico e tecnológico para confirmação das propriedades atribuídas. Importante ressaltar que os produtos naturais da biodiversidade brasileira constituem modelos moleculares inusitados a serem estudados e explorados, e assim, corroboram mais uma vez a beleza invisível da nossa biodiversidade, completamente inexplorada.

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Figura 3. Diterpenos estemodânicos de Stemodia, tipo estrutural raro na natureza com esqueleto carbônico tetracíclico

 

Referencias usadas para compor o texto

Yi-Shou Liang, Ming-Jer Jung, Sheng-Chieh Wu, Yui-Ching Kao and Jenn-Che Wang. Stemodia L. (Scrophulariaceae), a Newly Naturalized Genus in Taiwan.  Taiwania, 56 (1): 62-65, 2011.

Wildson Max B. da Silva, João Carlos da C. Assunção, Renata M. Araújo, Edilberto R. Silveira and Otília D. L. Pessoa. New Volatile Constituents from Leaves of  Stemodia trifoliata (Link.) Reichb. (Schrophulariaceae). J. Braz. Chem. Soc. Vol. 20, No. 1, 37-41, 2009.

Wildson Max B. da Silva, Edilberto R. Silveira, Otilia Deusdênia L. Pessoa. Acylated manoyl oxide diterpenes of Stemodia trifoliate. Magnetic Resonance in Chemistry, Vol. 48, no 6., 2010, 486-489

Lourinalda Luiza Dantas da Silva, Márcia Nascimento, Dulce Helena Siqueira Silva, Maysa Furlan, Vanderlan da Silva Bolzani. Antibacterial Activity of a Stearic Acid Derivative from Stemodia foliosa. Planta Med 2002; 68(12): 1137-1139

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Vanderlan da S. Bolzani, Professora Titular do IQAr-Unesp, Vice-Presidente da SBPC e membro da coordenação Biota-Fapesp

 



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