Texto publicado originalmente publicado por Marcos de Oliveira, para o Pesquisa para Inovação, da Fapesp

Um sistema inovador de criação de tilápias, que reduz o gasto com ração e a mortalidade de peixes, entre outros benefícios, foi desenvolvido pela Fisher Piscicultura e está em testes finais no Rio Grande, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, no lago formado pela Usina Hidrelétrica de Água Vermelha.

A inovação consiste na utilização de tanques redondos de alumínio que flutuam sobre conjuntos de garrafas pet – as mesmas usadas como embalagens de refrigerantes. Dentro dos tanques um conjunto de telas separa os peixes maiores dos menores facilitando a classificação desses e a oferta de ração é feita por um dispensador automático com temporizador que funciona com energia solar. O projeto tem o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP.

A tilápia (Oreochromis niloticus), originária do rio Nilo, na África, é o peixe mais criado no Brasil e o 4º em todo o mundo. Aqui, a produção de 357.639 toneladas, em 2017, cresceu 13,48% em relação ao ano anterior, conforme dados da Associação Brasileira da Piscicultura (PeixeBr). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a criação de tilápias movimentou R$ 1,335 bilhão em 2016. A produção brasileira só perde para as da China, Indonésia e do Egito. Esse mercado, em crescimento, almeja tecnologia e custos menores para competir inclusive no mercado externo.

“Nosso conceito de tanque redondo e flutuante proporciona um melhor sistema de produção. Em grande parte da piscicultura tradicional os tanques são quadrados e a dispensa de ração é feita por um funcionário, medida em canecas e jogada no viveiro, três a quatro vezes por dia. Nosso sistema utiliza um tanque redondo, tendo ao centro um silo para 1.200 quilos (kg) de ração que libera uma dosagem certa 48 vezes por dia”, compara Hélio de Souza Barbosa, criador do conceito do novo sistema e sócio da empresa.

“O temporizador modula a alimentação dos peixes e torna os cardumes mais homogêneos. Se o peixe come regularmente, estará sempre saciado; só come o que precisa”, diz Barbosa. A ração representa 70% do custo de produção de tilápia, conta David Pulino, outro sócio da empresa. Ele ainda não estimou um número final para o gasto de ração com o uso da tecnologia desenvolvida pela empresa, mas calcula que fica abaixo dos 70%.

Mais produtividade

A Fisher, também com apoio do PIPE, está finalizando um projeto iniciado em 2016, de análise do manejo dos peixes em uma versão comercial, com experimentos em tanques com 60 mil, 80 mil e 100 mil peixes.

A coordenação do projeto é do zootecnista João Donato Scorvo Filho, pesquisador aposentado da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, e tem a colaboração de outros pesquisadores da agência. “No primeiro projeto do PIPE em 2014, fizemos testes no tanque com 20 mil peixes para verificar se era viável, investigando os pontos falhos para corrigi-los. Agora estamos fazendo um acompanhamento completo dos parâmetros e de todo o sistema produtivo”, explica Scorvo Filho.

O tanque foi concebido por Barbosa e construído por engenheiros da empresa. Antes da Fisher, Barbosa administrava uma piscicultura com mais de 1 mil tanques tradicionais, com tratamento manual que exigia um número grande de funcionários empenhados, muitas vezes, em serviços “penosos” e o uso de muitas embarcações para atingir a produtividade desejada. “Concebi o novo tanque para reduzir o custo, diminuir a mão de obra e aumentar a produtividade.”

A empresa submeteu os dois projetos à FAPESP depois de construir o primeiro protótipo. Além de aperfeiçoar a tecnologia, os projetos sistematizam uma nova solução de manejo que poderá ser vendida a outros produtores. “Estamos colhendo resultados para documentar e estabelecer um modo de produção e um plano de negócio com resultados superiores ao da tradicional piscicultura brasileira”, diz Barbosa. Para Scorvo Filho, o investimento inicial nesse novo modelo de negócio deverá ser maior que o do manejo tradicional porque a tecnologia é mais cara, mas a vida útil e a escala de produção serão bem maiores, além do retorno do capital ser mais rápido.

Os tanques redondos medem internamente 12 metros (m) de diâmetro por 4,5 m de profundidade e são revestidos com telas de um tipo de arame que dificulta a incrustação do mexilhão dourado (Limnoperna fortunei), um molusco trazido acidentalmente em lastro de navios da Ásia e que se transformou em uma praga em rios da região Sul, Sudeste e já está presente em alguns rios da região Centro-Oeste do país. Dentro, são inseridas telas em malhas com medidas diferentes, adequadas à necessidade de manejo dos peixes. Essas telas facilitam a classificação do peixe pelo tamanho e contribuem para a diminuição da mortalidade. Nas criações tradicionais, quando as tilápias atingem determinado tamanho, faz-se necessário a troca de tanques, o que exige a retirada dos peixes da água, resultando em muitas mortes.

No sistema da Fisher, os peixes não são retirados da água para troca de tanque. O sistema de telas conduz os peixes maiores para um tanque, semelhante a um pedaço de queijo triangular. Confeccionado em arames, o tanque é retirado do círculo central e deslocado, embaixo da água, para outro tanque. “Quando o peixe está com cerca de 330 gramas, colocamos em outros tanques para engorda até o abate, com 900 gramas”, explica Barbosa. Todo esse sistema já possui patente depositada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). “A mortalidade de tilápias ultrapassa 20% nas criações comerciais. Atualmente atingimos os 8%, mas a nossa meta é baixar esse índice para algo em torno de 3% a 5% no máximo”, explica Pulino.

Outra vantagem apregoada pela Fisher é a facilidade na manutenção e limpeza das estruturas para a extração do mexilhão dourado. Os tanques da Fisher emergem e ficam fora da água por meio da injeção de ar em tambores na parte inferior da estrutura de alumínio. Nos criadouros tradicionais é necessário o uso de balsas com guinchos para elevar os tanques ou contratar mergulhadores para fazer esse serviço.

A Fisher foi fundada em 2011. Tem sede em Belo Horizonte e uma filial em Riolândia, cidade paulista às margens do Rio Grande onde está sendo testado o sistema de criação da empresa. A empresa obteve da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e do então Ministério da Pesca e Aquicultura licenças para atuar em uma área de aquicultura no lago da Usina Hidrelétrica de Água Vermelha.

Nos projetos PIPE, a Fisher tem, além da parceria com a APTA, a colaboração de pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Botucatu, para estudos sobre índices zootécnicos como ganho de peso, conversão alimentar, aspectos limnológicos (ecossistema aquático) e desenvolvimento da automação alimentar na criação das tilápias. O alimentador automático utilizado no projeto é um equipamento desenvolvido pelo professor Claudio Angelo Agostinho, da Unesp.

Fisher Piscicultura Água Vermelha – http://fisherpiscicultura.com.br