MALUCO BELEZA

Francisco Bicudo | 25 de abril de 2016

Imagem do Sol em ultravioleta captada pelo Soho, publicada na Revista Pesquisa Fapesp, edição de março de 2002

Nos intervalos dos ultrassons e das visitas a lojas de bebê – Elisa estava grávida da primogênita Luiza -, escrevi minha primeira grande reportagem de ciência. Foi publicada em março de 2002 pela revista Pesquisa Fapesp. Procurava traduzir um estudo feito por pesquisadores do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP) a respeito do diâmetro do sol (o título era ‘Sol pulsante’). Foi uma estreia abençoada por nossa senhora dos repórteres aflitos e inseguros. Ralei muito. Tive insônia. Achei que não ia conseguir. Ouvi sei lá quantas vezes a fita cassete (ainda existiam) com a conversa gravada. Atormentei a vida do autor do trabalho com dúvidas, muitas perguntas, sempre me desculpando pelos transtornos causados, sabe como é, quero que saia tudo certinho, com precisão, é por uma boa causa. Azucrinei também o editor – começo como? Vale incluir essa fala? Cito outras pesquisas? Ainda bem que era um cara paciente e generoso. Foi uma tormenta gratificante. Saiu. Gostei.

O pessoal da revista deve ter gostado também, porque logo me chamaram para uma segunda pauta. Essa foi de doer e de roer até os toquinhos das unhas. Instituto de Química (IQ) da USP, trabalho sobre comportamento de moléculas em base líquida ou solução. Tabela periódica, elétrons, prótons e nêutrons nunca foram o meu forte. No colegial (tudo bem, ensino médio), esses fantasmas se divertiam ao me assombrar. Queria ver bem longe de mim as provas de ligações iônicas e covalentes. Mas topei o desafio, ressabiado. Investi horas e madrugadas tentando entender aqueles conceitos. Entre uma anotação e outra, trocava as fraldas da Luiza, recém-nascida. Houve momentos em que me desesperei. Olhava para aquele monte de artigos, tabelas e números incompreensíveis e não sabia nem por onde começar. Só conseguia dizer – impossível. Entendo nada. Não vou conseguir escrever. Não é para mim. Melhor ser honesto e desistir. Não. Paciência e persistência. Pergunta sem vergonha, procura sem preguiça. Minha lembrança é que escrevi umas dez vezes aquele texto. Foi publicado em junho (título ‘Diálogos com a água’), quando Luiza tinha alguns dias de vida. Ela vai fazer catorze anos em maio próximo. O mesmo tempo em que me aventuro pelas estradas e encruzilhadas do jornalismo científico.

Minha relação com os mistérios e novidades da ciência é hoje muito mais amistosa. Não quer dizer que não sinta frio na espinha e adrenalina batendo a mil a cada pauta que recebo. O monstrinho, no entanto, é bem mais bonitinho e inofensivo. Não é o que pensam meus amigos. Insistem em dizer que sou louco, maluco de pedra. ‘Deixou as Exatas no colegial e foi fazer Humanas justamente para nunca mais ter de falar sobre Física e Matemática e, exatamente quando pode escolher, cai de novo no colo dos teoremas e das acelerações? Me poupe.’

Entendo, respeito, você pode achar que é mesmo coisa de quem não está na plenitude das faculdades mentais. Mas acredite: escrever sobre ciência para o público leigo é extremamente gratificante. Exercício permanente de curiosidade, alimentado também pela curiosidade e a dedicação dos pesquisadores. A humildade para ser um escutador do mundo, como ensina a jornalista Eliane Brum. Uma escuta atenta e crítica, sabedora de que cientistas são seres humanos falíveis, imperfeitos e movidos também por vaidades e ambições. O empenho máximo para encontrar e saborear um texto que seja o ponto de equilíbrio que respeite o rigor e a precisão da pesquisa e consiga simultaneamente fisgar o leitor para a narrativa, com muitos exemplos, metáforas e situações práticas. A ciência que toca nossas vidas. Uma boa história, com personagens, ambientes, enredos, conflitos e clímax.

Já enfrentei e entrevistei pesquisadores que tentaram meter a mão peluda na matéria, dizendo ‘muda tudo, não está bom, troca esse parágrafo, aqui vou reescrever’. Já cheguei a ouvir de uma fonte mais afoita e cheia de si ‘bom, vamos começar, sente aí que vou ditar a matéria’. Nessas horas, respiro fundo, conto até três milhões e, com educação e firmeza, digo: ‘professor, há algum erro conceitual, de informação? Não? Então vamos combinar que o método e as descobertas são por sua conta; a história é minha, escrevo eu. Essa é a parceria’. Não tem jeito: o texto jornalístico é necessariamente diferente do científico. Nem melhor, nem pior. Diferente. Há transformações e adaptações, traduções e simplificações que ajudam a valorizar e explicar sentidos e significados para o público leigo. São sempre dois universos distintos em confronto – o mundo da ciência é o da lentidão, da introspecção, da paciência e das minúcias; o do jornalismo, o da aceleração, da pressa e do ‘para ontem’.

Essas duas formas de conhecimento, placas tectônicas em permanente movimento, no entanto, devem evitar choques e terremotos, buscando diálogos e acomodações. Com o jornalismo, a ciência torna-se menos árida e sisuda; com a ciência, o jornalismo aprende a ser mais preciso e a observar detalhes e pormenores. E, vamos combinar, não faltam desafios a quem atua na área. Num dia, falamos de geleiras e dos grandes mamíferos da Era do Gelo; no dia seguinte, já estamos apurando sobre insetos que ajudam a analisar cadáveres em decomposição e a desvendar crimes enigmáticos. Não há mesmice. A rotina é a não rotina. A chavinha de assuntos vira a todo instante, como destaca Reinaldo José Lopes, competente repórter que atua na área, em vídeo recentemente disponibilizado no canal dele no Youtube.

Tudo bem, em alguma medida talvez seja mesmo preciso assumir-se um pouco louco para trabalhar com jornalismo científico. As equipes são enxutas, veículos abrem pouco espaço para a editoria, salários nem sempre são convidativos, estamos longe de conseguir concorrer com as meninas dos olhos das redações (Política, Economia e Internacional). Gargalos e obstáculos. Ainda assim, adoro essa maluquice. De perto, ninguém é normal, Caetano Veloso já definiu.

Empurrado pelas serpentes pré-históricas que tinham patas, desafiado pela teoria do caos aplicada ao comportamento das bolsas de valores e à comunicação entre neurônios, provocado pelos fragmentos e registros do supercontinente Rodínia e levado pelos jatos de baixos níveis que carregam umidade da região Norte para o Sul, sigo como narrador privilegiado das maravilhas da natureza e das relações que com ela estabelecemos.

Depois de catorze anos e de mais de centena de reportagens escritas, não tem mais volta. É tão forte e presente que às vezes preciso tomar cuidado para não deixar vazar. Não são poucas as vezes em que, na mesa do almoço de domingo ou no meio de uma piada, ouço Luiza arisca e irritada – tipicamente adolescente – me interrompendo e me dando sonora bronca. ‘Ah, não pai, lá vem você de novo com as suas aulas de Física. Pode parar’. Que maluquice.

 


Francisco Bicudo é jornalista, professor universitário e cronista



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