Texto originalmente publicado no Edgardigital, veículo de divulgação da UFBA, edição 92

Ricardo Sangiovanni

A economista Laura Carvalho, em palestra na Faculdade de Direito, na quinta, 23 de agosto

 

A economia brasileira não vem dando sinais de recuperação nos últimos meses. Com pesar, a economista Laura Carvalho reconhece que comemorou: não por desejar mal ao país, mas por ver confirmadas as previsões de seu livro mais recente, de que as medidas defendidas pelo atual governo como remédio para a retração da atividade econômica (como o congelamento do investimento público por 20 anos, a reforma trabalhista e a malograda, mas jamais abandonada, tentativa de reforma da previdência, entre outras) não tirariam – como não tiraram – o Brasil do atual cenário de “caos econômico”.

“Economista erra [em previsão] mais do que meteorologista, mas até agora a recuperação não veio, para o bem do livro e o mal da economia brasileira”, brincou a professora de economia da Universidade de São Paulo (USP) e colunista do jornal Folha de S.Paulo, que esteve em Salvador na semana passada para lançar Valsa brasileira: do boom ao caos econômico (Editora Todavia), um esforço de análise da conjuntura econômica e política brasileiras entre 2006 e 2016 feito “a quente”, já que toma como ponto de partida textos publicados por ela na imprensa nos últimos anos. A palestra de Laura Carvalho aconteceu na quinta-feira, 23 de agosto, no evento “A economia brasileira e a importância de uma reforma tributária com justiça social”, com a presença do auditor da receita federal Wagner Vaz, do Sindifisco Nacional, e mediação do professor de economia da UFBA Vítor Filgueiras, na Faculdade de Direito.

A valsa do título é a metáfora que a economista escolheu para tentar explicar ao leitor não especializado os erráticos passos da economia brasileira desde o governo do presidente Lula até os anos de Michel Temer à frente da presidência. Primeiro, um “passo à frente”, com o ciclo de crescimento econômico entre os anos de 2006 e 2010, que ela chama de “milagrinho brasileiro”. Em seguida, um “passo ao lado”, com a estagnação verificada no período entre 2011 e 2014, fruto da ineficácia das medidas do que ela caracteriza como “agenda Fiesp”, já sob a condução da presidenta Dilma Rousseff. E, por fim, o “passo atrás”, entre 2015 e 2016, com a adoção de medidas de retração do investimento público e “desmonte acelerado do frágil Estado de bem-estar social brasileiro”.

Nessa narrativa, os anos do “milagrinho” têm como característica principal o crescimento econômico do país conjugado à melhoria da distribuição da renda, cuja consequência mais significativa foi a redução da distância entre os salários da camada mais pobre e a média salarial no país. Se, por um lado, o crescimento percentual do produto interno bruto (PIB) não foi tão grande como nos anos do chamado “milagre econômico” da ditadura militar, por outro, começou-se finalmente a fazer a tão esperada “partilha do bolo”, expressamente vedada na política econômica dos anos de chumbo.

Os resultados positivos do período entre 2006 e 2010, explica Laura Carvalho, foram consequência, em parte, de uma conjuntura internacional favorável, sobretudo pela alta de commodities como petróleo, produtos agrícolas e minerais, e, em parte, de acertos da política econômica do governo Lula, como aumento do investimento público, políticas de transferência de renda, valorização real do salário mínimo, ampliação do acesso ao crédito, moeda valorizada e declínio de taxas de juros. Aquele cenário favoreceu o aquecimento do mercado interno brasileiro, resultando em expressivo aumento da participação de classes médias e baixas em setores do consumo dos quais estiveram historicamente marginalizadas. Favoreceu também a acumulação de reservas internacionais em dólar, fatores que, segundo ela, contribuiriam para minimizar os impactos da grave crise econômica internacional de 2008, que o presidente Lula, à época, chamou, um tanto impropriamente, de “marolinha”.

Dilma Rousseff herdaria assim, em 2011, um país com a economia interna aquecida, mas já não encontraria a mesma conjuntura internacional favorável. Diante da iminente pressão inflacionária e na tentativa de mudar a orientação da política econômica — da ênfase no mercado interno para uma matriz de desenvolvimento industrial, visando a aumentar as exportações — o governo Dilma acaba adotando o que Laura Carvalho chama no livro de “agenda Fiesp”: juros baixos, real mais desvalorizado frente ao dólar, menos investimento público, mais desoneração de investimentos e mais crédito para as empresas, um modelo “muitas vezes associado erroneamente aos ideais da esquerda”, mas que, no fundo, foi referendado “por associações patronais que abandonaram o barco e apoiaram o impeachment da presidente.”

Na prática, a adoção da agenda Fiesp teve resultados “desastrosos”: a valorização do dólar não impactou como esperado as exportações brasileiras, a retração do investimento público não foi suficiente para frear a economia a ponto de controlar a inflação, e as famigeradas desonerações concedidas ao setor empresarial não retornaram sob a forma de mais investimentos privados na economia, entre outros fatores. Como consequências, vieram novas altas nas taxas de juros, aumento da dívida pública, diminuição da arrecadação, desaquecimento do mercado interno e aumento do desemprego.

O “passo atrás” viria a galope: em síntese, uma série de falsas soluções, no âmbito político, para o cenário de descontrole econômico, que incluem desde as manobras políticas que resultaram no impeachment da presidente eleita, passando pela fixação de um teto de 20 anos para os gastos públicos, reforma trabalhista com redução de direitos para os trabalhadores, e uma pretendida reforma da previdência com aumentos de tempo e valor de contribuições e restrição a benefícios.

“A sociedade já percebe que as reformas [feitas após o impeachment] foram seletivas”, afirma Laura Carvalho, que é consultora econômica do candidato à presidência pelo PSol, Guilherme Boulos. Nesse cenário, a economista parece intrigada diante de uma curiosidade: o fato de diversos setores da sociedade começarem a cogitar o retorno do Partido dos Trabalhadores à presidência, mesmo após quatro eleições e 13 anos no poder, como encarnação do que ela chama de “política econômica anti-establishment”. Bem-humorada, ela observa: “Nada mais anti-establishment do que concorrer à presidência da prisão.”