Aos 15 anos, quase todos os arroubos e chororôs desmedidos são justificáveis. Mas aquela cena que eu protagonizei tinha mais do que a autorização pela idade, tinha causa nobre cientificamente defensável. Explico. Eu voltara da escola um tanto emocionada, porque acabara de descobrir que num museu, numa cidade qualquer da Europa, havia uma vitrine envidraçada que protegia um cilindro de metal – de dois metais, em verdade. A peça em voga era o quilo. Ou melhor, a representação na Terra da medida de massa, o quilograma.

Lembro bem das imagens da vitrine, a professora de ciências mostrara com um retroprojetor, bisavô dos atuais datashows, que funcionavam com transparências e Dona Vera Lúcia – era seu nome e apropriado à disciplina lecionada, pensem – se embananava toda para colocar do lado certo e dar leitura. Naquele dia, vamos chamá-lo “Dia do Quilo”, a mestra explicou com seus dedinhos curtos em riste que aquele objeto representava uma medida universal, que unia povos e saberes e que dava base comum, um padrão, a tudo que se precisava medir e pesar.

Adolescente, militante da beleza do saber e entusiasta dos fios invisíveis que unem a humanidade, cheguei radiante em casa. Esse negócio de quilograma era mesmo emocionante, lindo mesmo. Mesa posta para o almoço, a família achou engraçado eu estar tão empolgada com um cilindro de liga metálica. E, animada com a recepção, mandei a pérola: “Acho que vou chorar quando for a esse museu e vir o quilo ali, na minha frente!”. Ok, foi over, hoje eu vejo. Mas era verdade naquele momento… era como um elo perdido, algo que unia e igualava a todos, enfim… Meus pais ficaram indignados com tanta emoção e disseram que o choro frouxo seria aceitável diante de uma Monalisa, ou do teto da Capela Sistina… mas diante do quilo, “Faça-me o favor”, pediu mamãe. Não esperei chegar ao museu e abri o berreiro naquele momento. Eles não entendiam.

Esta semana, na minha leitura matinal dos jornais, encontrei uma notícia que trouxe a cena todinha à memória. Dona Vera Lúcia vai ter de mudar sua aula, e eu não terei mais motivos físicos para chorar. O velho quilo – o conceito e a peça mesma – está de mudança. A partir de 2019, um quilo deixará de ser aquilo que aprendi e me emocionou tanto.

O negócio é que na última sexta-feira, 16.11, a Conferência Geral sobre Pesos e Medidas (CGPM), entidade que determina os padrões adotados pela ciência, iniciou uma grande revisão do Sistema Internacional de Unidades (SI). A maior, desde sua criação em 1960. A ideia dos especialistas ali reunidos é relacionar as unidades fundamentais (kelvin, mol e ampere são as outras) a constantes fundamentais – que não mudam nunca – e não mais a medidas arbitrárias – que podem variar com o tempo.

Lá na escola, a professora explicou que o quilo era definido por um cilindro de 4 centímetros de platina e irídio, fabricado em Londres e guardado pelo Escritório Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), na França, desde 1889. Essa pecinha aferia as balanças do mundo inteiro, fazendo com que o quilo daqui pesasse o mesmo que o quilo da Guiné-Bissau, ou do Chipre, ou do Laos. Quer dizer, mais ou menos, e aqui nasce a necessidade de mudar o sistema de medida. Desde que foi moldado, o quilo perdeu 50 microgramas. É, acontece. O quilo perdeu peso, emagreceu. Coisa comum porque qualquer objeto pode perder ou ganhar átomos quando expostos ao ar. E, se pesar com precisão, dá para notar a diferença.

Mas esses micro-minúsculos-gramas fazem assim tanta diferença? Fazem sim. Justamente porque precisam validar todas as balanças do mundo, qualquer mudança, por mais ínfima, altera todos os cálculos e previsões de comportamento de materiais. Por isso, os cientistas inventaram um jeito de garantir que 1kg continue sendo 1kg por muito tempo. Sai de cena o cilindro das minhas lágrimas e entra em cartaz a balança de Kibble, que consegue comparar a energia mecânica com a energia eletromagnética. Aqui eu tive de pedir ajuda ao prof. Hamilton, um barbudo simpático, docente de física, que nos fazia compreender atrito e movimento dos corpos estimulando que os alunos introjetassem que eram uma nave espacial em pleno sideral, mas isso é outro papo. Hamilton ensinou, anos mais tarde, verdade, que eletroímãs geram um campo magnético. A força desse ímã é diretamente relacionada à quantidade de corrente elétrica que passa pelas bobinas. Hami dizia girando os dedinhos gordos como um motor: “Existe relação direta entre eletricidade e peso”. Ou, em palavras mais objetivas, é possível definir um quilograma e outras medidas de peso a partir da quantidade de eletricidade necessária para neutralizar sua força. Quando os dois lados da balança de Kibble estão perfeitamente alinhados, temos uma constante e, assim, o velho quilo não emagrece, nem engorda ao longo dos séculos. Os cientistas sorriem de contentamento e a adolescente que mora em mim sofre para se adaptar e dizer adeus ao velho quilo. Mas a ideia de constância, equilíbrio e perenidade – agora que sou adulta – soa muito bem e acho que meus pais aprovariam a mudança de comportamento de minha parte.

PS: as outras unidades fundamentais, também terão sua forma de aferição modificadas. O ampere, que mede corrente elétrica, passará a ser medido com uma bomba de elétrons que gera uma corrente na qual cada elétron pode ser contado individualmente. O kelvin, unidade de temperatura, será medido com termometria acústica, capaz de determinar a velocidade do som numa esfera cheia de gás. E o mol, que indica a quantidade de matéria microscópica, logo será definido como a quantidade precisa de átomos em uma esfera perfeita de silício puro -28.