João Carlos Salles no Ciclo Mutações: a diferença entre a visão de deus e o olhar humano

Mariluce Moura | 12 de outubro de 2016

(Texto elaborado originalmente para o edgardigital.ufba.br)

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O conferencista e (à esquerda) o compositor Paulo Costa Lima, mediador do debate

O desafio de João Carlos Salles no Ciclo Mutações era abordar “O olho na história” dentro da moldura do tema geral “Olhar”, retomado de um dos primeiros ciclos de reflexões concebidos e organizados por Adauto Novaes há 30 anos – mais precisamente, o segundo, realizado em 1987. E ele o fez, desdobrando para a plateia reunida no salão nobre da reitoria da UFBA na noite de quarta feira, 5 de outubro, um vibrante, refinadamente literário, exercício filosófico sobre a oposição ou as diferenças entre o que seria a visão absoluta de deus, sem pontos de vista, e o olhar sempre perspectivo do homem. “Ver é agir, pretendemos mostrar, se o ver é humano, se é enfim olhar”, disse.

Professor de filosofia, filósofo, intérprete de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), seja o primeiro, o do Tractatus lógico-philosophicus, seja o segundo, o das Investigações filosóficas, publicação póstuma, João Carlos Salles, antes de aprofundar-se no mote de sua palestra, apresentou com clareza, sem entretanto abrir mão em nenhum instante do rigor costumeiro, o contexto teórico em que se dava sua fala.

Seu pano de fundo era o deslocamento que constata, na obra de seu filósofo de eleição e na própria história da filosofia, de uma anterior modalidade lógica muito forte e pretensamente universal – haveria uma verdade da razão, verdadeira em todos os mundos possíveis, que faz coincidir necessidade e universalidade – para uma outra, mais generosa, comprometida com o mundo, com a história, em que a necessidade resulta de invenção gramatical. Ou, em que a razão tem historicidade, e “verdades” podem não valer em outros mundos e outras organizações da experiência.

“A proposição gramatical expressa um perspectivismo sem relativismo, com o que afastamos um vale tudo na organização da experiência, mas aceitamos tocar e entender o mundo apenas através de nossa estrutura gramatical, de margens de liberdade postas e dispostas por relações mais amplas entre nossa linguagem e o mundo”, disse.

Esse contexto ainda estava sendo explicado, e a conferência de João Carlos Salles, atual reitor da UFBA, já evoluía como jogo primoroso ou sucessão de jogos com a plateia. Avançava com o oferecimento de pistas para uma coreografia ainda mal compreendida, talvez como revelação nos próprios enunciados do potencial lúdico da aventura de olhar e conhecer.

Em dado instante, impressionou a projeção na tela de algumas imagens extraordinárias de Os olhos do gato, de Moebius e Jodorowski, um ícone das histórias em quadrinhos, lançado em 1978, publicado no Brasil em 1987, e objeto de um primeiro texto de Salles para um suplemento literário já em 1990. “O livro narra algo semelhante ao esforço de um Deus por tornar-se humano”. E nas páginas que operam como campo e contracampo – na esquerda, par, sempre a estreita janela de visão do deus cego, na direita, ímpar, as cenas do acontecimento –, desenrola-se a aventura violenta, cruel, da busca do deus por uma possibilidade de olhar e, por isso, dos olhos do gato. É um deus que quer desfrutar “um pequeno instante de olhar”, conta o conferencista. Ao final, a personagem vai sugerir à grande ave que o serve que um dia, talvez, possa lhe levar os olhos de uma criança.

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“A história desenha a oposição entre ‘visão’, em sentido forte, e o ‘olhar’. Digamos assim, a visão é conhecimento, o olhar é opinião. A visão é própria dos deuses; o olhar, coisa humana. A visão representa a ligação modal forte entre universal e necessário, enquanto o olhar representa esse laço mais tênue e insidioso de quem mira, espia, investiga, guarda, examina, sonda, consulta, fita, encara, julga”. Salles dirá que “com essa figura que cola por instantes os olhos do gato no rosto, temos a encenação de um conto teológico, ao modo do mais forte apelo literário de nossa tradição, qual seja, a narrativa de um Deus que oferece seu próprio filho em sacrifício, retratada aqui na evidência que procura o ponto de vista, na visão que busca ser olhar”.

Só após a mirada na forma do livro, João Carlos Salles considerou que sua palestra efetivamente começava. Comentaria daí em diante o “sentido mais profundo da oposição entre visão e olhar”, orientado por “considerações wittgensteinianas sobre a gramática do ver”, e associando a reflexão do filósofo “ao pano de fundo da história da filosofia”. Especificamente, “ao principal programa de investigação epistemológica do século XVIII”.

Nessa altura, o  “experimento de pensamento” formulado por William Molyneux para John Locke em 1688 e, adiante, em 1693, apareceu na tela: “Um homem nascido cego que aprendera a distinguir pelo tato e a nomear uma esfera e um cubo de similar tamanho e matéria, poderia discernir qual a esfera e qual o cubo e nomeá-los, antes de tocá-los, pelo simples e imediato olhar, caso e quando passasse a ver?”

Transformado em problema central da teoria do conhecimento e da psicologia do século XVIII, questão capaz de provocar o diálogo e a tentativa de resposta de vários filósofos – coisa raríssima, comenta João Carlos Salles – e que mereceu o sim, por exemplo, de Kant e de Leibniz, e o não de Locke, tratava-se com o experimento de Molyneux, de decidir “se o sentido, enquanto tal, é capaz de construir para nossa consciência a forma do mundo das coisas ou se necessita da colaboração de outras forças psíquicas e quais seriam elas”,  segundo Ernst Cassirer, na citação do conferencista.

Tinha-se então o fio condutor para um programa produtivo de investigação filosófica em torno do qual se decidiria “o problema da unidade da experiência, cifrada na pergunta pela equivalência entre as verdades do tato e da visão”. E tinha-se também uma chave para a compreensão sobre o significado de ver.

O não à proposição de Molyneux, que segundo Salles seria a escolha de Wittgenstein e a sua própria, viria a ser corroborado mais recentemente por experimentos científicos. Mas isso importa pouco ao filósofo, porque respostas filosoficamente relevantes não podem ser dadas por experimentos científicos, mas só pelos filosóficos mesmo. E na filosofia “a resposta não é o mais importante, mas antes a capacidade de estabelecer nosso próprio vocabulário ao formularmos ou enfrentarmos perguntas desafiadoras”.

Seja como for, ressaltou, houve, provocada pelo experimento, uma disputa de gigantes no século XVIII, que inclusive ajudou a separar empirismo (onde o não se situa) e idealismo (território do sim). Está em jogo aí se há uma linguagem anterior à do tato e à da visão, um solo comum do pensamento no qual a experiência seria uma possibilidade antes de ser experiência mesmo. E, seguindo a senda, João Carlos Salles propõe que o problema “parece denunciar que somos prisioneiros de uma imagem cartesiana, a que faz reduzir a visão a uma medida própria do tato, a saber, a extensão”.

O conferencista propõe novos jogos à plateia: perceber que a esfera e o cubo da imagem do experimento constituem na verdade uma lâmina bidimensional e a ilusão que há em vermos as figuras com volume; perceber se a distinção de tons e o jogo de sombra e luz correspondem à conformação de volumes. Adiante, fará expor na tela imagens do experimento de Müller-Lyer, linhas que são rigorosamente iguais, mas que temos a impressão de serem maiores ou menores a depender do que lhe seja aposto nas extremidades. E assim clareia a noção de que “o espaçamento do tato é radicalmente diferente do espaçamento lógico da visão”.

Medir os dois segmentos de reta, constatar que são iguais, não leva ninguém a vê-los como iguais. “Significa isso que não existe experiência anterior à experiência. Não existe experiência, para nós humanos, sem os artifícios perspectivos pelos quais ligamos nomes a objetos, palavras a coisas, e decidimos o que enfim nos é dado ver. Ou seja, não vemos sem jogos de linguagem”, afirmou João Carlos Salles.

Seu último jogo wittgensteiniano com a plateia se deu em torno das figuras ambíguas, a velha que é moça, o pato que é coelho, a depender da perspectiva de quem olha. Daí João Carlos Salles toma o tema da contradição, impossível na visão de deus, volta à virada linguística do Tractatus, que desloca toda a questão filosófica para a linguagem, e investiga a questão do conhecimento e da construção da história, que exige uma conversão do olhar, “uma capaz de admitir a construção cultural da necessidade, pela qual o espírito lógico baixa a uma dimensão terrena e gramatical, cujas verdades se dispõem no tempo e nos solicitam, por sua invenção, a invenção dos nossos limites”.

O conferencista observa que é aí que se dá uma verdadeira revolução copernicana no interior da virada linguística. Se compreender, como ver, é sempre perceber a coerência de um conjunto de elementos, chegamos ao sujeito não mais fora do arranjo, mas parte do que dá sentido à composição.

“Assim, o modelo desse novo universo (…) não é mais o ponto de vista do olho divino, que tudo vê por estar fora do Mundo, mas antes o ver de um espírito que anda, perfazendo conexões e inventando necessidades, de um lugar mais pedestre e com um olhar perspectivo. E sua medida temporal não é mais o eterno, mas sim a história, plena de ritmos e conflitos, e entremeada de necessidades e acasos”.

A seguir o conselho dado à plateia por João Carlos Salles, o que há de mais urgente a fazer agora é conseguirOs olhos do gato e lê-lo guiado por um filósofo wittgensteiniano.

 



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