Há exatos 99 anos, um feito sacudiu o entendimento que a ciência tinha sobre a Gravitação dos corpos. Naquele 29 de maio de 1919, as ideias propostas pelo físico alemão Albert Einstein em sua Teoria da Relatividade Geral, de 1915, finalmente ganharam uma comprovação experimental. A experiência aconteceu em Sobral, no Ceará, comandada por uma equipe de pesquisadores ingleses, coordenados por Charles Davidson e Andrew Crommelin, com apoio de cientistas brasileiros do Observatório Nacional.

Observatório Nacional

Estrutura armada para abrigar os equipamentos astronômicos

A observação de um eclipse solar que ocorreria ali e os cálculos que se seguiram a ela, em 1919, foram tão importantes para a história da ciência e para a noção de como funciona o universo que as autoridades cearenses, com apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), decidiram comemorar agora, um século depois, por um ano inteiro, a experiência de Sobral.

Uma série de debates e eventos científicos começam nesta terça-feira, 29 de maio, e vão até 29 de maio de 2019, quando a observação do Eclipse de Sobral completa 100 anos.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, em 06/04, o presidente da SBPC, Ildeu Moreira, lembrou que “Sobral é citada no mundo todo, em todas as publicações científicas, por conta desse fato tão importante. Cientistas do mundo inteiro deverão vir para Sobral para as comemorações”. De fato, enquanto esta reportagem é escrita, o próprio Ildeu, que é físico e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está a caminho do Ceará.

Se chegasse à Praça do Patrocínio 99 anos atrás, ele veria uma grande movimentação nesse ponto central de Sobral. Os instrumentos astronômicos trazidos pelos ingleses – modernos e estranhos para os moradores do Ceará – foram montados no meio da praça para a observação do fenômeno, que aconteceria às 9h da manhã. O físico e historiador da ciência Olival Freire Júnior, pró-reitor de Pesquisa, Criação e Inovação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) conta que esse eclipse não foi escolhido ao acaso.

Observatório Nacional

A observação acontecendo

“Foi em 1915 que Albert Einstein reformulou as ideias de Newton sobre a gravidade. Seu famoso artigo a respeito do tema saiu em dezembro de 1915. Para provar sua teoria seria preciso fazer uma observação preciosa, durante um eclipse para não cegar os cientistas”. Os pesquisadores britânicos já tinham, nesse momento, a ideia de promover a observação assim que possível, mas o eclipse seguinte aconteceria 1916, no meio da Primeira Guerra Mundial. “Como seria impossível organizar tudo em meio a um conflito como aquele, o projeto foi suspenso e só retomado quando a guerra acabou”, conta Freire.

Terminada a guerra, as previsões indicavam que os melhores locais para observar o sol coberto pela Lua seriam Ilha do Príncipe, no Golfo da Guiné, na África, e Sobral, no Ceará. E assim os cientistas ingleses fizeram as malas e despacharam os equipamentos para os dois locais. A equipe que seguiu para a África foi liderada por sir Arthur Eddington, físico inglês e grande entusiasta das ideias de Einstein. A equipe que veio a Sobral, por sua vez, tinha Davidson e Crommelin na liderança. “O próprio Einstein não veio, era um físico teórico e não gostava muito dessas aventuras. Anos depois, quando esteve no Brasil, fez um elogio ao sol claro do Ceará, que teria sido fundamental para a comprovação de sua Teoria”, lembra o professor da UFBA.

Mas, afinal, o que a equipe de Davidson e Crommelin, apoiados por cientistas do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, estavam buscando? A resposta é: a comprovação experimental de um pressuposto científico previsto na Teoria da Relatividade Geral, publicada em 1915, quatro anos antes, por Einstein. Segundo o físico alemão, matéria e energia distorcem a malha do espaço-tempo, podendo também desviar a trajetória da luz que viaja por ele. “Também tinha uma questão relativa à órbita do planeta Mercúrio que não podia ser explicada pela ciência newtoniana, mas que era resolvida pela Teoria Geral da Relatividade de Einstein. A observação em Sobral também resolveria essa situação se comprovasse as ideias do físico alemão”, conta Olival Freire Júnior.

O céu estava limpo em Sobral e as placas registraram 12 estrelas durante os cinco minutos de eclipse. Essas imagens serviram de referência para medir o desvio e a trajetória dos feixes de luz. “Einstein previa justamente esse efeito, que chamamos de deflexão da luz, na sua relatividade geral. Um feixe de luz vindo de uma estrela teria a trajetória encurvada AO passar por regiões com UM campo gravitacional forte”, ensina o físico e professor da UFBA.

Quando, às 8h55 do dia 29 de maio de 1919, a Lua começou a encobrir o Sol, as chapas fotográficas das câmeras acopladas aos telescópios começaram a ser acionadas para registrar com exatidão a posição das estrelas mais próximas à borda do astro-rei. Às 9h01, os equipamentos pararam e comprovaram que o espaço não era absoluto e o tempo não corria de modo uniforme, mas eram grandezas relativas que dependiam do observador. Imediatamente após a divulgação dos resultados – que não esperou a publicação em periódicos científicos – Albert Einstein virava o cientista mais famoso e mais importante do século XX. Passada a ofuscação causada pelo sucesso da missão, era tempo de ver que havia muito mais questões em jogo do que a validação da teoria de Albert Einstein.

Em novembro de 2017 – enquanto ainda preparava o que seria o evento que inicia nesta terça-feira – Ildeu Moreira disse à repórter Daniela Nogueira, em entrevista ao jornal O Povo, do Ceará, que: “o mundo estava esgotado, a Europa estava esgotada de uma guerra de muitos anos, e aquele evento curiosamente envolvia um cientista alemão, as observações dos ingleses que tinham sido adversários na guerra… Isso deu outra dimensão e a ciência era vista como uma mensagem de paz e de união para o mundo. Não é à toa que Einstein passou a ser visto como um símbolo. E depois ele tornou-se muito ativo politicamente, defendendo a paz mundial. Isso teve um caráter simbólico também, dentro do contexto da história mundial. Portanto, o eclipse de Sobral vem num momento crucial e o resultado dele teve um impacto muito grande pra ciência, mas também teve impacto fora da ciência, nesse sentido de criar um contexto da importância da ciência, que a ciência é uma atividade universal, que a ciência pode ser feita por cientistas de vários países que antes estavam em guerra”.

Observatório Nacional

Equipe inglesa e brasileira que esteve em Sobral, CE

Até o início do século XX, Isaac Newton era o padrão da ciência. “A maneira como ele fazia e divulgava ciência viraram a grande referência. Não só em termos de teorias, que foram imbatíveis por 200 ou 300 anos, mas de uma forma de tratar a ciência”, propõe Freire Júnior. Depois de Einstein, essa noção toda muda. “Primeiro, porque Einstein reformula as ideias de Newton e, segundo, porque propõe uma nova forma de entender o universo, distante da maneira que dominava a ciência até então. O Eclipse de Sobral termina de provar que esse novo olhar fazia todo sentido”, explica.

Em sua prosa divertida e entusiasmada, Olival aponta o que seriam quatro “cerejas sobre o bolo de festa que foi a observação em Sobral”. Primeiro, que o feito é tão grandioso que merece festa de um ano inteiro para marcar seu centenário. Segundo, as pesquisas baseadas nas ideias de Einstein nunca pararam e nunca foram tão atuais. Em 2017, os ganhadores do Nobel de Física foram o alemão naturalizado americano Rainer Weiss e a norte-americanos Barry Barish e Kip Thorne. Os trabalhos desses cientistas no Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferometria a Laser (LIGO), nos Estados Unidos, permitiram a detecção de ondas gravitacionais pela primeira vez na história. Essas ondas, relacionadas diretamente ao Big-Bang, foram previstas por Albert Einstein na sua Teoria Geral da Relatividade, mas ele próprio achava difícil de provar, por serem muito sutis. “Os cientistas do LIGO conseguiram detectar e provar as vibrações emitidas por dois buracos negros que giram um em torno do outro, a mais de um bilhão de anos-luz da Terra”, explica Freire. A terceira cereja, bem atual também, é o GPS, que calcula com precisão a posição de corpos no universo. “Isso só é possível por conta daquela correção da órbita de Mercúrio proposta por Einstein e que foi comprovada em Sobral”. Por fim, uma cereja que não sugere atualidade, mas a relevância da ciência. “Só dá para entender a grandeza desse feito se você olhar para o mundo, que saía de uma guerra bem grave”, inicia o professor da UFBA. Sir Arthur Eddingnton, que coordenou a observação em Príncipe, era quaker e militava pela paz. “A Primeira Guerra Mundial colocou em conflito a Inglaterra e a Alemanha, as duas maiores potências mundiais. Quando Eddington propõe que ingleses façam a observação e a possível comprovação da teoria de um alemão, o que ele está sugerindo é um acordo de paz com a ciência como fiadora”, comemora.