Fui sorteado para viajar no tempo

Francisco Bicudo | 29 de fevereiro de 2016

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As ondas gravitacionais lindamente captadas pelos detectores do Observatório da Interferometria a Laser de Ondas Gravitacionais (LIGO), a confirmar que as formulações teóricas de Albert Einstein estavam corretas, voltaram a esquentar as rodas de conversas científicas que debatem se algum dia o ser humano terá condições de ir e vir no tempo, passeando como bem entender por passado e futuro. Por enquanto, tudo engatinha no plano das especulações e dos desejos – uma “possibilidade infinitesimal, mas não impossível”, como gostam de definir os físicos. Quem sabe em 2050, quando eu já estiver aposentado, barbas bem brancas e careca total, e puder aproveitar as benesses incríveis da novidade.

Confesso que sonho com o dia em que, ainda eufórico e atordoado pelo feito fantástico anunciado ao mundo de forma retumbante, receberei um zapzap do consórcio de pesquisadores responsável pela invenção de uma máquina capaz de viajar no tempo, a me fazer o seguinte convite: ‘Parabéns. Você é o felizardo escolhido para fazer a primeira viagem experimental em nossa cápsula’.

Por que seria escolhido? Sei lá. Sorte de principiante, como estabelece o dito popular. Nos sonhos e na ficção, tudo cabe. A mensagem diria ainda: ‘Como é a estreia, você tem direito a escolher cinco destinos’. Não consigo nem ler direito. São tantas emoções. Ao final, o breve texto ainda alertaria: ‘Lembre-se, no entanto, que você só vai poder viajar como observador do passado. É preciso estar atento ao paradoxo dos avós – se você interferir na trajetória deles e mudar o que já teria acontecido, poderá matar você mesmo’. Lembram de Marty McFly em “De volta para o futuro”? Melhor não arriscar. Condições plenamente aceitas.

Difícil mesmo seria escolher o roteiro turístico. Guerra Civil Espanhola? Uma paradinha na chegada dos revolucionários cubanos em Havana, janeiro de 1959… quem sabe uma passada pelas cavernas da pré-história, para observar de perto como viviam aqueles nossos parentes peludos e que se entendiam maravilhosamente por meio de desenhos feitos nas paredes… Um dia num castelo medieval seria também ótima pedida…

Par ou ímpar daqui, dedos para tirar dúvidas, pedra, papel, tesoura para resolver o dilema. Feitas as contas, acho que vou querer mesmo primeiro desembarcar nos segundos iniciais de formação do Universo, as explosões contínuas a disparar bólidos e estrelas ferventes para todos os lados, a sinfonia ensurdecedora de estrondos (ou será que foi tudo graciosamente silencioso? Qual a música original do nosso mundo?). Vontade danada de fazer como Pedrinho, neto de dona Benta, e agarrar a cauda de um cometa. Calma, já desisti. Lembrei rapidinho do paradoxo dos avós.

Em seguida, quero conhecer o Egito dos faraós, o esplendor do rio Nilo, das pirâmides e da Biblioteca de Alexandria. Prometo não trazer de lá livro algum. Meu terceiro objeto de desejo é o 14 de julho de 1789, a tomada da Bastilha pelo povo francês que não se contentou em comer brioches, a multidão ensandecida e em êxtase derrubando o símbolo máximo do absolutismo e escrevendo nos livros de História que a partir de então não aceitariam mais que ‘liberdade, igualdade e fraternidade’ estivessem apenas ao alcance de poucos privilegiados. Posso só tirar uma selfie com os sans-culottes franceses? Rapidinho…
A máquina estacionaria então na Rússia revolucionária de 1917. Paz, pão e terra. Proletários de todo o mundo, uni-vos. Só mais um minutinho, por favor. Quero ouvir os discursos de Lênin e de Trotsky. Extraordinária experiência histórica. Nosso destino final seria o dia 11 de fevereiro de 1990, quando Nelson Mandela foi libertado, impondo ao sanguinário regime do apartheid sul-africano, que institucionalizou o racismo, sua derradeira derrota. Sem chamar a atenção, discretamente, sem falar com ninguém, marcharia ao lado de Madiba, contendo a todo momento o ímpeto de chegar no ouvido dele e sussurrar ‘camarada, muito obrigado. E saiba que você ainda vai me fazer chorar numa cerimônia de encerramento de uma Copa do Mundo que vai acontecer aqui no seu país’.

Bela viagem, não? Inesquecível. Como seria a sua?

A encrenca é que seres humanos somos ambiciosos, insaciáveis, queremos sempre mais. Será que o consórcio de pesquisadores me permitiria uma sexta parada? Fui cliente fiel, acumulei milhas. Quero usá-las. Vamos desembarcar no estádio da Luz, 11 de outubro de 1962, para ver a final do Mundial de clubes de futebol. O Santos de Pelé, numa apresentação épica, goleou o Benfica de Eusébio e conquistou sua primeira taça intercontinental. Quem estava lá garante que foi o maior espetáculo futebolístico de todos os tempos. Quero conferir. Memória afetiva-boleira. As ondas gravitacionais irão colaborar, os cientistas entenderão meu pedido extra.

Tripulação, apertar os cintos. Atenção aos procedimentos de segurança. Preparar para decolagem.



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