FOXP2 – O gene que não quer calar

Francisco Bicudo | 06 de setembro de 2016

Grunhidos ou berros guturais transformaram-se em sons mais suaves e elaborados. Palavras. Sílabas. Frases. Parágrafos. Falas longas e complexas. Prosa e poesia. Uns falam pelos cotovelos, mesmo que não tenham muito a dizer. Outros são econômicos com as palavras, precisos nos sentidos e claríssimos nos significados que desejam dar a elas. Há quem fale para compartilhar e fazer pensar; existem também aqueles que fazem uso das palavras para desconstruir, dominar e controlar. Falamos porque pactuamos viver em comunidades, em sociedades. Eu e os outros. Sujeitos que se encontram. Revelam. Iluminam. Esclarecem. Conectam. Explicam. Informam. Tecem laços, sugerem empatias e pertencimentos. Redes de sociabilidade. Diversidade. Tolerância. Falar reforça a nossa condição humana, nos lembra a todo instante que pertencemos à mesma espécie. Falar carrega ainda consigo as marcas e identidades da nossa evolução biológica. É o gene FOXP2, diretamente associado à linguagem, quem junta os sinais e impulsos elétricos cerebrais com os movimentos dos músculos dos nossos rostos, de forma a transformar essa sinfonia em substantivos, adjetivos, pronomes e verbos. A natureza nos concedeu o privilégio da fala – o FOXP2 é exclusividade do Homo sapiens. Apenas nós, humanos, até aqui alcançamos a incrível façanha da comunicação por meio da linguagem faladeira. Mais ainda: também aprendemos a guardar consciência e a memorizar nossas falas. É extraordinário. Impõe responsabilidades. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que afirmas. O papagaio? É um exímio escutador, repete aquilo que ouve. Assobia o hino nacional, pragueja os palavrões ditos por seu dono. Falta-lhe, no entanto, o principal – ser um produtor de falas. Jamais conheci um papagaio que, ao receber um ‘bom dia’, tenha respondido com um singelo ‘bom dia para você também, dormiu bem, sentiu frio durante a noite, a madrugada foi gelada, o que pretende fazer agora pela manhã?’. Diante de tantas ameaças libertárias, há, evidentemente, os que temem o que falamos. Agem para nos transformar em papagaios. Silêncio. Censura. Manipulação. Mera reprodução. Livros enclausurados e queimados. A polícia atuou para conter a ação dos vândalos. Como é que é? Do não dito – ou do dito de forma enviesada, truncada – nasce o controle. Rebelde e irrequieto, inconformado, avesso a esses mandonismos de plantão, meu gene FOXP2 anda querendo se expressar com a máxima vontade nos últimos tempos. É ele quem me empurra a nomear, letra por letra, aquele que não quer ser nomeado. G. O. L. P. I. S. T. A. É a fala cantada nas ruas, milhares de vozes (apesar da força bruta da PM). É a fala que chega do exterior, inclusive da China. É a fala de mais de quarenta, certamente. Vamos contar? É a fala que não pode ser calada. Impossível represá-la. É biológico. O gene quer conversar. É cultural. A fala é um ato político. Quer saber? Nada de segurar. Precisamos falar sobre o golpe. Diretas Já. #ProntoFalei.



Uma resposta para “FOXP2 – O gene que não quer calar”

Deixe uma resposta