Fome de cérebro

Francisco Bicudo | 02 de novembro de 2016

Cabralzinho é um cara bacana, parceiro de todas as horas, prosa agradável, mas não é exatamente alguém que se possa chamar de um bom gourmet. Não passa a madrugada sonhando com um ‘vol-au-vent de bacalhau à moda do convento’ nem saliva como um cão de Pavlov ao ouvir falar em ‘raviólis de vitela com tomates frescos, mozarela e manjericão’. Não curte paella nem polvo ao vinagrete. Quer vê-lo feliz e saciado? Batatas fritas. Esfihas. Carne moída. Empadinhas. De queijo. Pão de forma. E um bom prato de feijão. Há quem diga que ele é um pobre diabo, uma besta quadrada incapaz de aproveitar as habilidades culinárias da companheira, essa sim, salgadeira e quituteira de mãos cheias, candidatíssima a qualquer master chef televisivo. Inventa mil receitas deliciosas, mistura ingredientes, experimenta temperos e especiarias. É capaz de produzir iguarias de fazer deuses gregos e orixás africanos lamberem os beiços. Tem prazer em cozinhar. Certa vez, inspiradíssima, fogão e livros de receitas a postos, avental em mãos, ela se empolgou e magicamente perguntou ao Cabralzinho: “que prato especial posso preparar para você hoje?”. Sem maldade alguma e muito espontaneamente, sem nem pensar, ele mandou um ‘ficarei feliz com um ovo frito. Gema dura, por favor’. Quase deu divórcio. A companheira só não mandou a panela de pressão ou a frigideira na testa do insensível desorientado porque é pacifista, admiradora de madre Teresa de Calcutá e Gandhi. Vontade não faltou. ‘Pois vá você fazer você esse ovo!’, devolveu, profundamente ofendida. O marido ficou estático, atordoado, tentando entender o que havia dito de errado. No sábado passado, quando voltavam das tantas apresentações culturais dos filhos nas escolas, ele cutucou:

– Vamos parar para comer um lagarto assado ao molho madeira com batata sauté? Quero matar a fome e fazer meu cérebro crescer mais um tiquinho.

Ela estancou. Quem é esse ser estranho que tomou conta do meu marido? Saia desse corpo que ele não te pertence! Colocou a mão na testa dele. Sem febre. Também não estava pálido, tampouco tremendo. Mas estava delirando. Certamente. Só podia.

– O que deu em você? Resolveu virar um glutão depois dos 40? E assim de repente, sem ter dado qualquer pista?

– Brincadeirinha. Lembrei daquela vez do ovo frito. Poucas vezes vi você tão irritada. Mas a parte do cérebro que cresce é verdade.

– Há controvérsias.

– Aceleramos a evolução do nosso cérebro quando aprendemos a cozinhar.

– Ou não, diriam Gil e Caetano.

– Nosso cérebro é cerca de três vezes maior que o do chimpanzé, que ainda não aprendeu a usar o fogo para se alimentar.

– Essa relação pode não ser direta. Os cérebros dos vegetarianos são menores ou menos eficientes?

– Não, embora os chimpanzés tenham enormes dificuldades para obter calorias das frutas e plantas que consomem. Alimentos cozidos representam mais calorias, mais energia e possibilidade bem menor de ficar doente por ingestão de comida crua. O cérebro humano precisou responder rapidamente a esses desafios. E cresceu rapidamente.

– Você, que não consegue passar um dia sem ler jornais, acompanha com frequência a editoria de Ciências, deve ter lido sobre estudo recente que revelou que os indícios mais efetivos de uso do fogo aparecem bem depois de o nosso cérebro ter começado a crescer. Viramos cabeçudos antes. E testes feitos com ratinhos – coitados deles, morro de dó dos bichinhos – mostram que o ganho energético pode ser maior com carne crua, em comparação com a cozida.

– A tese do somos humanos porque somos cozinheiros é do Richard Wrangham, de Harvard. Um baita cientista.

– Os trabalhos que contestam essa ideia são do pessoal da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, também um centro de excelência quando o assunto é o nosso cérebro.

Continuaram conversando animadamente por mais dois quarteirões, até chegarem em casa. Estavam famintos. Gata escaldada, a companheira de Cabralzinho nem fez menção de perguntar o que o marido estava com vontade de comer. Ainda na garagem, deram boas risadas com uma piada contada pelo filho. Quem ganhou o debate científico? Sei lá. Ali, nenhum dos dois estava preocupado em levar vantagem ou em vencer a discussão. Trocavam ideias e impressões, teses e antíteses. Porque assim é a ciência, sucessão de verdades provisórias, a avançar a partir de divergências e embates, às vezes duríssimos. Como diz uma professora de Matemática da filha do casal, ´é preciso aprender a apreciar essa beleza do pensamento científico’. Há quem diga que Einstein estava errado ao anunciar que nenhum corpo se move mais rápido do que a luz. Daí a provar… No elevador – bem mais lento que a luz, ainda mais quando a barriga ronca de fome -, ela perguntou:

– E você viu o artigo escrito por pesquisadores britânicos que mostrou que quanto mais mentimos, maiores ficam as nossas mentiras? Curioso.

– Faz sentido, Cabralzinho concordou.

Naquele sábado, ele se refestelou no almoço com dois gordurentos pasteis de queijo. E limonada gelada com açúcar, para rebater.



Uma resposta para “Fome de cérebro”

  1. malu albuquerque disse:

    Gostoso de ler

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