ESCOLA SEM PARTIDO

Francisco Bicudo | 20 de junho de 2016

São Paulo, agosto de 2016

Senhores Pais,

Esperamos que seus filhos tenham aproveitado as merecidas férias de julho, sem exageros ou excessos. Durante esse mesmo período, o corpo diretivo da escola dedicou-se a reformular por completo o projeto pedagógico da instituição, para que possamos caminhar em sintonia com os promissores e refrescantes ventos que sopram no país. A era de desmandos administrativos e de assalto aos cofres públicos foi superada e ficou devidamente trancafiada em algum lugar do passado. Afastamos a corrupção de nossas práticas cotidianas, os maiores escândalos de barganhas e de propinas da história do Brasil não mais nos pertencem. Estamos a caminho do grau máximo de excelência ética, de acordo com agências internacionais. Para aproveitar os inegáveis avanços, brasileiros de alma que somos, com muito orgulho e com muito amor, é chegado também o tempo de defenestrar definitivamente o proselitismo comunista bolivariano que infestou nossas escolas nos últimos catorze anos, enterrando ainda a camarilha esquerdista de pseudo professores que estava mais preocupada em formar militantes de determinado credo político, decrépito e ultrapassado, do que em efetivamente consolidar em nossos jovens os valores da tradicional e respeitada família brasileira.

 

A escola não pode continuar sendo o espaço da rebeldia questionadora sem causa. Neutralidade, isenção e imparcialidade devem nortear absolutamente todas as falas e práticas dos educadores em sala de aula. Os abusos e arroubos ideológicos de quem ensina precisam ser duramente coibidos. Nossa tarefa histórica é descontaminar e purificar esse universo, quebrando o monopólio do discurso de profissionais antiéticos que se aproveitam de suas condições de autoridade intelectual para professar teses ultrapassadas e incutir em nossos estudantes bobagens que afrontam a moral e os bons costumes dos brasileiros de bem. Estamos a dizer um ‘não’ rotundo à doutrinação militante, disfarçada sob o manto sedutor do ‘conhecimento crítico’, que na verdade significa impingir aos jovens visão única, marxista e autoritária do mundo. É pressuposto inegociável: os pais têm o direito de dar a seus filhos a educação moral e cívica que esteja de acordo com suas próprias convicções.

 

Não foram tratativas fáceis, reconhecemos. Fomos obrigados a promover contundente reengenharia de recursos humanos, dispensando as frutas podres e incorrigíveis para abrir espaço para a chegada e a contratação de professores realmente comprometidos com a real liberdade de pensamento. Todos assinaram termos de compromisso e adesão ao novo projeto pedagógico. Vestiram mesmo a camisa amarela da instituição. As salas de aula passarão, todas, a ser monitoradas por circuito interno e câmeras, conectadas diretamente ao escritório da direção, para acompanhar diariamente como se dá essa dinâmica de ensino-aprendizagem. Ainda assim, se entenderem que os professores estão se desviando de seus compromissos pedagógicos, por favor, nos avisem imediatamente. Há formulários padrão de denúncia disponíveis em nosso site. Basta preenchê-los e nos encaminhá-los. Estejam convictos: os sons das panelas serão prontamente ouvidos e compreendidos. A neutralidade será garantida, doa a quem doer.

 

Tenham também a certeza de que a nova grade curricular e o conteúdo pedagógico das disciplinas passarão a servir como referência e modelo para todas as escolas do país. Estamos na vanguarda do atraso, ditando tendências, sempre com muito orgulho e com muito amor. Basta de pedagogias dos oprimidos idiotizantes e sem eficácia. Quanta tolice freiriana nos moveu até aqui. A lata de lixo é o lugar dessas sandices pretensamente libertárias – e verdadeiramente absolutistas.

 

Notem, senhores pais, os avanços: em Língua Portuguesa,  eliminamos as aulas de Literatura e de interpretação de texto. Todo o processo estará concentrado única e exclusivamente no aprendizado das regras da Gramática. O importante é conseguir dominar a técnica, mesmo que não seja compreendida. Basta decorá-la. Por essa mesma razão, vamos dar ênfase, em Matemática, às fórmulas e sentenças esquemáticas, sem necessidade de compreensão de conceitos ou de contextos. Pensar faz surgir dúvidas. E a dúvida questiona o sistema. Neutralidade, sempre. As tolices das matrizes africana e indígena foram sumariamente eliminadas de História do Brasil. Garantiremos ainda especial atenção ao período revolucionário que vai de 1964 a 1985, para desmontar as mentiras narradas pelos comunistas e valorizar a luta nacional contra os terroristas da esquerda que desejavam implantar em nosso país uma ditadura do proletariado. Em Geografia, trataremos das paisagens naturais e das belezas espaciais de nosso país, sem considerar aspectos políticos ou econômicos. Não são discussões cabíveis em sala de aula. São extremamente subjetivas. Atentam contra as convicções das famílias. Ciências passa a incluir o ensino da teoria do criacionismo. Pela lei do uso e desuso, Darwin, charlatão do distante século XIX, cairá em breve no ostracismo. Deus é eterno. Aleluia, glória ao pai. Filosofia, a novidade da grade, usará como base para as aulas – sempre expositivas, sem discussões – os livros e vídeos do professor Olavo de Carvalho, o mais importante pensador brasileiro da atualidade. Por fim, rejeitamos toda aquela cartilha estapafúrdia dos estúpidos e desconexos temas transversais. Direitos humanos devem servir aos humanos direitos. Homem nasce homem, mulher nasce mulher. É biológico. Beleza divina, vontade do criador. Em nome da neutralidade e da democracia, jogaremos duro contra as ditaduras feminista, gayzista e da negritude.

 

Temos consciência do passo gigantesco e primordial que estamos dando. Haverá resistências, boicotes, traições. A canalha esquerdista é mestra na arte da guerra de guerrilhas, das sabotagens. Nessa batalha de todas as batalhas, sabemos que podemos contar, senhores pais, com o apoio e o respaldo de vocês, para que a nova escola seja capaz de ajudar a construir o país que todos queremos, o gigante que acordou e caminha para frente, inspirado pelo lema escrito em nossa bandeira, que é verde e amarela e jamais será vermelha: ordem e progresso. Aos que discordam das novas diretrizes, deixamos aqui o nosso convite: vão estudar em Cuba. Amém.

A Direção.

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Francisco Bicudo é professor, jornalista e cronista, autor de Memórias de uma Copa no Brasil e de Crônicas Boleiras, os dois lançados pela Chiado Editora

 



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