Envelhecer

Francisco Bicudo | 28 de março de 2016

d36bb5e0-3a6f-4fb9-9919-50c26274bc32Bati 4.4 na semana passada. Quatro décadas e quatro anos. Já é bem mais que a metade da expectativa média de vida do brasileiro (75,2 anos em 2014, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Mensagem matemática: já estou mais perto da linha de chegada que do ponto de partida. Natural, nesses momentos, investir em balanços de perdas e ganhos, lembrando da infância com joelhos lanhados nos ladrilhos vermelhos dos quintais das casas dos avós, das baladas e rebeldias sem causa adolescentes, dos projetos já conquistados e do que está por vir. Por coincidência, um amigo querido, ao me parabenizar, brincou e perguntou se eu não gostaria que a ciência anunciasse em breve uma maneira eficiente de atrasar ou até de interromper essa passagem implacável do tempo. Sei lá, talvez uma sofisticada combinação de equações, daquelas incompreensíveis para o público leigo, rodadas em computadores de última geração, que nos garantisse viver eternamente no presente, que seria também por consequência e ao mesmo tempo passado e futuro. Honestamente, acho que essa combinação seria muito chata. Porque se o tempo não passa, não roda, se a ordem que se impõe é a do aqui e agora imutáveis e permanentes, não há transformações e mudanças. Não me apetece. Sou movido por conflitos, tensões e avanços. Quem sabe então a engenharia genética alcançasse finalmente a competência de minimizar ou até de desligar a expressão dos nossos genes ligados ao processo de envelhecimento. Seríamos todos jovens para sempre. Tenho arrepios só de imaginar a hipótese. Explico: se esse feito valesse para um gene específico, provavelmente valeria para muitos outros. Vamos eticamente tolerar que seres humanos comecem a ser pensados e fabricados em laboratório, desliga esse, aumenta aquele, esse fica no meio-termo, mete um upgrade naquele, a sociedade idealizada e perfeita? E quem define esse ‘ser perfeito’? Um cara chamado Adolf Hitler adoraria ter dominado essa tecnologia. A seleção é natural, jamais social. Viva a diversidade. Vá lá, aqui pensando alto, outra alternativa científica poderia ser um clone, um cara idêntico a mim que ficaria congelado e apenas ‘nasceria’ após a minha morte, para me substituir e perpetuar minha existência. Que capricho e vaidade mais bestas. Quem sou eu para viver eternamente? O que tenho de tão especial? Além do mais, não seria mais eu. Outra época, outros acontecimentos, outras experiências, outras pressões. O ser humano não é apenas a sopa de letrinhas que carrega no núcleo de suas células. O homem e seu tempo. Reconheço: conviver com a ideia da morte não é fácil. Aceitar que somos finitos é algo que nos incomoda profundamente, perspectiva quase irrealizável para a espécie humana. A morte, no entanto, é a única certeza que temos desde que nascemos. Ninguém quer morrer cedo, claro. Mas não adianta querer escapar. Um dia Ela chega. É mais difícil ainda aceitar essa condição numa sociedade que valoriza o ‘novo’ e despreza o ‘velho’, que considera ultrapassado para o mercado de trabalho alguém que passou dos 40, que nos obriga a correr compulsivamente para as academias (a das esteiras e dos pesos, não a dos laboratórios e das bibliotecas) em busca de tanquinhos, bíceps, pernas e braços admiravelmente torneados e cheios de músculos bem marcadinhos. Minha convicção, amigas e amigos: a vida é de uma boniteza esplendorosa justamente por conta daquele ciclo básico e bem simples que a gente aprende naquelas aulas de ciências ainda no ensino fundamental: a gente nasce, cresce, se reproduz e morre. Daí a importância de aproveitar cada segundinho desse extraordinário privilégio que a natureza nos concedeu. Foi o que sempre tentei fazer, aos cinco, aos dez, aos vinte, aos trinta, aos quarenta. Aos quarenta e quatro. Ainda pensando na provocação do meu amigo – viver para sempre -, fico com o esplendor poético dos versos de Gilberto Gil, que canta ‘tempo e espaço navegando todos os sentidos. Tempo rei, transformai as velhas formas do viver’. Ele conversa com o parceiro Caetano Veloso, camarada de tantas afinidades e baianidades nagôs (ou não…), a ensinar que ‘és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho. Tempo, tempo, tempo, tempo’. Quem encerra esse sarau musical que brinda a vida é o príncipe Paulinho da Viola: ‘meu mundo é hoje, não existe amanhã para mim. Eu sou assim, assim morrerei um dia’. Continua tudo tranquilo e favorável. Mesmo e também aos 44.



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