Entre os avanços da pesquisa e o avanço da epidemia de microcefalia há um descompasso natural

Ciência na rua | 22 de janeiro de 2016
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CAU GOMEZ, 43 anos, mineiro de Belo Horizonte, por mais de duas décadas, trabalhou como artista gráfico e visual, caricaturista e ilustrador nas principais agências de propaganda e veículos impressos de comunicação do Brasil: Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, revista Playboy, dentre outros. Radicado na Bahia, atualmente publica charges e ilustrações no jornal A Tarde em Salvador, colabora com as revistas Gráfica Magazine e Courrier International, na França. Conquistou mais de 50 premiações em diversos Festivais e Salões de Humor no Brasil e no exterior. Dentre eles, destaque para os mais recentes: Award of Success – Aydin Dogan International Cartoon Competitions 2010, na Turquia; o Grande Prêmio Charge no III Festival Internacional de Humor, Rio de Janeiro – 2011; o prêmio de Caricatura no Salão Internacional de Humor Gráfico de Pernambuco – 2012, é coautor do livro “Pastinha, o Menino que virou Mestre de Capoeira” – único livro baiano infanto-juvenil a ser finalista do Prêmio Jabuti – 2012, Também ilustrou os livros O Dia em que os Gatos aprenderam a tocar Jazz e Dias de Tempestade, da editora CEPE e publicou um álbum de HQ – Billy Jackson, em 2013. Participou de várias exposições e júris, incluindo a curadoria do 8º RIDEP (Rencontres Internationales du Dessin de Presse – França/2007).

Na terceira semana de janeiro, entre os dias 17 e 23, foi noticiado o primeiro caso de microcefalia ligado a infecção por zika nos Estados Unidos, a OPAS/OMS lançou um alerta sobre o aumento dos casos da síndrome de Guillain Barré, de anomalias congênitas e outras manifestações autoimunes e, por último, a Fiocruz do Paraná constatou que o zika atravessa a barreira da placenta e contamina o bebê no útero.

A expectativa em relação a novos achados científicos sobre zika, microcefalia e outros males ainda mal conhecidos disparados pela infecção pelo vírus é alta. E natural, porque se não é logo um antídoto, ao menos minora a angústia geral frente a um inimigo que se apresenta poderoso e misterioso ao mesmo tempo. Mas o tempo próprio da pesquisa é mais lento que as urgências de saúde pública, e nada indica que esta semana será tão pródiga em notícias dos fronts de pesquisa quanto a que terminou.

O conhecimento acumulado sobre zika é mínimo e sobre essa base estreita as centenas de cientistas brasileiros que neste momento escrutinam o Aedes aegypti e os vírus que ele transmite sob múltiplos aspectos, assim como centenas, talvez milhares de seus colegas em todo o mundo, não conseguem fazer milagres.

Daí porque o combate mais prático à contaminação tem seu peso ampliado, a ponto de alguns países simplesmente terem entrado em campanha para que as mulheres evitem a gravidez nesse momento. Em El Salvador, o vice-presidente de saúde pública, Eduardo Spinosa, recomendou às mulheres em idade fértil que evitem engravidar neste momento e pelos próximos dois anos. Já às grávidas, recomendou que prefiram lugares fechados e se cubram para não ficar expostas a picadas. Neste momento o país tem 100 casos confirmados de gestantes que foram infectadas.

Mais moderado, o ministro da saúde da Colômbia, Alejandro Gavíria, sugeriu às mulheres que evitem a gravidez pelo menos até julho, dado o risco atual. Esse tema não entrou em discussão pública no Brasil, difícil entender porque, mas certamente as mulheres mais antenadas já adiaram projetos de gravidez. O país tem hoje 3.893 casos de microcefalia em bebês suspeitos de relação com o zika, dos quais 230 confirmados. Os casos suspeitos se espalham por 764 municípios de 21 estados.

A placenta não protege – A Fiocruz do Paraná chegou à conclusão que o zika atravessa a placenta examinando amostras desse órgão de uma paciente do Nordeste. Ela relatara sintomas clínicos que indicavam infecção por vírus zika no início da gravidez e tinha sofrido um aborto espontâneo na oitava semana de gestação.

“Analisamos as amostras da placenta utilizando um anticorpo monoclonal contra flavivírus, que reconhece membros desse gênero, incluindo os vírus dengue, zika vírus, febre amarela entre outros”, explicou a virologista Cláudia Nunes Duarte dos Santos, chefe do Laboratório de Virologia Molecular da Fiocruz Paraná à revista Brasileiros. Os resultados da primeira análise foram positivos, e confirmaram a presença de proteínas virais nas células placentárias (mãe e feto).

Uma linha de pesquisa que em breve poderá resultar em achados científicos é que interroga como o agente causa a microcefalia e quais células são atingidas durante a formação do cérebro dos bebês.

Nesse sentido, tanto laboratórios da Universidade de São Paulo (USP) quanto da Fiocruz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de pesquisa e Ensino estão desenvolvendo ou começando o trabalho com minicérebros.

“Novos dados sobre o que o zika faz no cérebro estão sendo conseguidos pelo grupo de Patrícia Beltrão, na Veterinária da USP. Ela trabalha com microencéfalos, pequenos cérebros humanos in vitro”, disse Paolo Zanotto na primeira reportagem do Ciência na rua sobre o Aedes e seus estragos, na segunda semana de janeiro.

zika_Infografico (1)Ana Bispo, a chefe do laboratório de flavivírus da Fiocruz — primeira pessoa a identificar a presença do vírus no líquido amniótico de grávidas e idealizadora do kit diagnóstico NAT —, também tem expectativas de que as instituições do Rio de Janeiro que começaram a trabalhar em parceria com base na infecção de minicérebros produzidos in vitro obtenham respostas rápidas.

Como explicou reportagem de O Globo, os minicérebros são uma massa celular produzida em laboratório a partir de células-tronco. São recolhidas amostras de urina, de onde as células são isoladas e prospectadas para um estágio no qual podem dar origem a qualquer tecido do corpo humano. O procedimento para fazer esse organoide, que mede cerca de dois milímetros, leva cerca de três meses.

“Nesses minicérebros há uma população de células que não existe em camundongos. O organoide capitula todos os estágios iniciais do cérebro humano, como as células se dividem, como migram. Precisamos saber quais os mecanismos celulares que, com intervenção do zika, estão causando a microcefalia. Não sabemos se o vírus age sozinho ou se existe outro fator”, disse na mesma reportagem Patricia Garcez, pesquisadora do Laboratório de Neuroplasticidade da UFRJ e do Instituto D’Or.

Três minicérebros já estão prontos para serem infectados e é possível que as experiências comecem para valer em fevereiro, valendo-se inclusive do vírus isolado da paciente. Resultados mais consistentes podem demorar até dois anos. “Após a infecção dos minicérebros, esperamos encontrar um cérebro menor em 45 dias. Então veremos o que está acontecendo, se as células podem estar morrendo, ou se dividindo menos, entre outras hipóteses”, diz Patrícia.

Mais informações sobre isso estão em http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/cientistas-vao-infectar-minicerebros-com-zika-18513391#ixzz3xyWwyOqx

 

Bioinseticida natural – Num outro front da pesquisa brasileira, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) deu suporte ao desenvolvimento de um bioinseticida na Ecobios Consultoria Ambiental e Controle de Qualidade Ltda, empresa incubada no Centro de Desenvolvimento Empresarial e Tecnológico  da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Segundo a Agência Fapeam, tudo indica que esse bioinseticida natural produzido a partir de fungos encontrados em plantas e insetos da Amazônia elimina as larvas e ovos em até 24h, não é tóxico e não prejudica o meio ambiente. Essa matéria prima foi obtida graças a pesquisa em parceria da UFAM com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Em 3 anos, conseguiu-se isolar mais de 100 linhagens de fungos de vários substratos da Amazônia.

Segundo a bióloga Yamile Benaion Alencar, com os isolados identificados foram realizados cerca de 50 ensaios em laboratório. Desse número, apenas três apresentaram potencial contra as larvas e ovos do mosquito.

O bioinseticida funciona de forma simples: pode ser borrifado diretamente em água destilada como spray ou extrato (este ainda em pesquisa) em vasos e outros locais que acumulam água.

O produto ainda não passou a escala industrial. “Esperamos que os empresários tenham interesse e o disponibilizem logo no mercado para a população, pois essa é mais uma ferramenta de combate contra o mosquito”, disse Yamile..



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