Em artigo na Science, equipe de pesquisa que inclui três brasileiras propõe aos governos 10 ações políticas em defesa dos polinizadores

Mariluce Moura | 24 de novembro de 2016

Uma equipe internacional de 12 cientistas, entre os quais três brasileiras, Blandina Viana, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Ariadna Lopes, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Carmem Pires, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília, publica nesta sexta feira artigo na respeitada revista científica Science confirmando o declínio em larga escala dos polinizadores em várias partes do mundo e propondo aos governos em geral a implementação de 10 ações políticas para salvaguardar  os serviços de polinização fundamentais à produção agrícola.

O sistema agrícola convencional, com destaque para seu uso intensivo de pesticidas, é apontado no artigo como o grande responsável pelo declínio dos polinizadores em larga escala no nordeste da Europa e nos Estados Unidos e em queda menos acentuada, mas exigindo urgente monitoramento, em outras regiões do planeta, incluindo o Brasil, onde a equipe de Blandina Viana vem há anos desenvolvendo trabalhos sobre os polinizadores — em especial em áreas de cultura da maçã na Chapada Diamantina, Bahia (ver, a propósito, reportagem sobre outro artigo da Science, de janeiro deste ano, no Ciência na rua).

“Ao longo desses últimos anos, ajudamos a produzir uma avaliação científica global de polinizadores e polinização, demandada pelos países signatários da Plataforma Intergovernamental sobre a Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos – IPBES”, disse Blandina Viana, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Biomonitoramento do Instituto de Biociências da UFBA.

Essa avaliação, segundo ela, confirmou que os polinizadores silvestres e manejados “trazem inúmeros benefícios para os seres humanos, incluindo os efeitos diretos sobre a produção de frutas, legumes e óleos”. Mas esses polinizadores estão em declínio em diversas partes do planeta, e “dentre as causas principais destaca-se o sistema agrícola convencional”.

Foi com base nisso, acrescentou, que “sugerimos 10 ações políticas que os governos e os formuladores de políticas em todo o mundo devem considerar para salvaguardar os polinizadores e os serviços de polinização, quais sejam”:

  • Elevar os padrões regulatórios para os agrotóxicos, o que inclui considerar os efeitos indiretos dos agrotóxicos nas avaliações de risco e avaliar os riscos para uma série de espécies de polinizadores, e não apenas para as abelhas;
  • Promover o manejo integrado de pragas (IPM), reduzindo o uso de agrotóxicos;
  • Incluir efeitos indiretos e subletais nas avaliações de risco de culturas geneticamente modificadas, pois apesar de não se saber o suficiente sobre o impacto dos cultivos transgênicos nos polinizadores, algumas culturas GM são tóxicas para os insetos e podem ter efeitos sutis nas populações de polinizadores.
  • Regular o movimento dos polinizadores controlados, para evitar a proliferação de doenças e controlar a introdução de espécies invasoras;
  • Desenvolver incentivos, como os esquemas de seguros, para ajudar os agricultores na transição para uma agricultura com menor uso de agroquímicos;
  • Reconhecer a polinização como um insumo agrícola nos serviços de extensão;
  • Apoiar sistemas agrícolas diversificados, como os sistemas agroflorestais e policultivos, práticas que ajudam a manter os polinizadores por proverem alimento e abrigo;
  • Conservar e restaurar “infraestrutura verde” (uma rede de habitats entre os quais os polinizadores podem se mover) em paisagens agrícolas e urbanas. Isso porque, para polinizar as culturas, os polinizadores selvagens necessitam de habitats em torno dos cultivos que forneçam locais de nidificação e recursos florais. Essas manchas de habitat precisam ser suficientemente próximas para que insetos ou pequenos pássaros voem entre elas – não mais de 500 metros de distância para as abelhas médias;
  • Desenvolver o monitoramento de longo prazo dos polinizadores e da polinização;
  • Financiar pesquisas participativas sobre a melhoria dos rendimentos na agricultura orgânica, diversificada e ecologicamente intensificada.

Para a pesquisadora da UFBA, no Brasil, “onde a agricultura é uma vocação natural, com expressiva participação na economia”, a implantação de tais políticas poderá ter um grande impacto socioeconômico e garantir a sustentabilidade a longo prazo para o setor.



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