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As mesmas cerdas que transportam micróbios podem ser aliadas no combate a doenças

Raul Seixas já dizia que as moscas são mesmo abusadas e que não adianta dedetizar, porque matando uma, vem outra no lugar. Foi nesse embalo que os cientistas decidiram das uma chance para esse animalzinho provocador.

A ideia de Ana Carolina Junqueira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro é  aproveitar as potencialidades da mosca doméstica em benefício – sim, benefício – da humanidade. O estudo foi publicado na Scientific Reports.

Parece absurdo, mas não é. Além de irritar, elas poderiam, por exemplo servir de como uma espécie de termômetro ambiental para mapear o surgimento de agentes causadores de doenças e ainda prevenir surtos e epidemias.

Ao jornalista Gabriel Alves, do jornal O Estado de São Paulo, Ana Carolina contou que as moscas têm muitas cerdas – aqueles pelinhos feiosos – espalhadas pelo corpo, o que aumenta a área superficial do corpo, mesmo ele sendo pequenininho. E quanto mais área, mais germes transportados de graça por aí.

A mosca comum (Musca domestica) e a varejeira (Chrysomya megacephala) se alimentam de material orgânico e em decomposição e, por isso dão carona a incontáveis organismos que podem causar doenças. Além de abusar, Raul, elas podem causar um estrago danado.

O tamanho exato desse estrago era o que a pesquisadora da UFRJ queria descobrir. Em termos científicos, o objetivo era descobrir o potencial de transmissão mecânica de patógenos. A transmissão mecânica, diferentemente da biológica, é apenas o transporte dos organismos causadores dos males.

Ana Carolina então se associou a pesquisadores dos EUA e de Singapura e, em conjunto, convidaram as moscas para um banquete: peixe podre. Depois que elas se fartaram, os cientistas recolheram e resfriaram as abusadas. Começaram, então a fazer uma análise genética dos organismos presentes na amostra. Todos. Moscas e os patógenos que vêm de carona.

Vamos aos números: no total, foram coletadas 116 moscas nos três países participantes e foram encontradas 431 espécies de bactéria. Um número significativo.

Entre as bactérias encontradas, as do gênero Helicobacter, ao qual pertence a perigosa H. pylori, que causa complicações em quem tem gastrite. Ela apareceu em 15 das 116 amostras e todas retiradas das moscas-varejeiras do Brasil.

Ana Carolina defende que usando métodos como o de sua pesquisa “é possível realizar um monitoramento ambiental a partir de insetos e seu microbioma. A mesma tecnologia poderia ser aplicada, em tese, para investigar se a presença de genes ou organismos específicos favorece a transmissão de doenças como zika, dengue e chikungunya pelo Aedes aegypti”.