É mais que urgente estruturar o programa brasileiro de pesquisa do zika

Mariluce Moura | 29 de janeiro de 2016


Volume de recursos disponíveis, fontes de financiamento, direcionamento do programa, comando, linhas claras de investigação e suporte, são algumas das questões que precisam ser urgentemente definidas pelo governo federal, crises políticas à parte, para que o país tenha em curtíssimo prazo um programa nacional de pesquisa do vírus zika.

Em paralelo aos difíceis e ainda mal esboçados problemas de saúde pública e dramas individuais que o zika está gerando e continuará a espalhar pelo país e pelo mundo, o Brasil pode ao menos pensar em assumir uma posição de liderança no esforço pela produção de conhecimento científico capaz de reverter ou minimizar a ameaça global que hoje o vírus representa. Afinal foi aqui que primeiro se estabeleceu uma associação possível entre infecção da gestante por zika e microcefalia em bebês.

Representantes da comunidade científica nacional acreditam nessa possibilidade, ao mesmo tempo em que criticam o tempo que se deixou escoar sem uma decisão clara quanto à política científica para enfrentar o problema – mais de dois meses desde que o Ministério da Saúde anunciou que o zika e a epidemia de microcefalia exigiam a decretação imediata do estado de emergência na saúde pública do país.

Afinal, enquanto o Brasil chega sem programa científico nacional perto da fronteira dos 4 mil casos de microcefalia em três meses, e buscando responder quantos deles estão realmente associados ao zika (perto de 300?), bastaram apenas dois casos confirmados dessa associação nos Estados Unidos para os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e o próprio presidente Barack Obama convocarem esta semana seus cientistas a se lançarem à busca de uma vacina que neutralize o vírus.

De todo modo, na última terça feira, 26, correndo contra o tempo, o ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Celso Pansera, junto com o secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento, Jailson Bittencourt, reuniu representantes da comunidade científica nacional, além de um representante da comunidade europeia, entre outros participantes, exatamente para discutir como encaminhar esse programa de pesquisa urgente destinado a produzir conhecimento sobre um vírus a respeito do qual hoje não se sabe quase nada.

Ainda sem um status definido, o grupo escolheu logo como seu coordenador o pesquisador Pedro Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas, do Pará (ver, a propósito, http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/estamos-com-os-pes-maos-atados-diz-medico-sobre-zika-18227041), e como vice coordenador o epidemiologista baiano Maurício Barreto, pesquisador da Fiocruz-Bahia e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Estava presente também nas discussões, entre outros, o virologista Paolo Zanotto, professor da Universidade de São Paulo (USP), que tem atuado na coordenação da rede de pesquisa de zika e Aedes aegypti já em ação no estado de São Paulo, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Na própria manhã da terça feira eles conseguiram avançar em algumas questões que possivelmente servirão de subsídio para o documento base do programa de pesquisa que se tem em mira.

“É importante, em primeiro lugar, expandir a base de evidência de que a infecção por zika na gestante causa a microcefalia em bebês”, diz Maurício Barreto. Não há, até aqui, outros possíveis agentes competindo fortemente com esse vírus na gênese da presente epidemia de microcefalia, mas ainda assim essa associação ainda precisa ser mais solidamente demonstrada, ele explica.

Os aspectos clínicos do comprometimento dos bebês cujas mães foram infectadas na gravidez por zika também têm que ser mais investigados. Outras lesões neurológicas associadas a zika e a frequência dos eventos neurológicos que ele aciona também têm que ser objeto de pesquisa, segundo Barreto.

E como o zika se transmite no Aedes? Não se sabe isso. E é esse mosquito o único vetor desse vírus? Registre-se que a essa altura suspeitas de que não o seja vêm tomando corpo no meio dos especialistas.

Numa outra linha, há que se estudar o tratamento da gestante infectada pelo zika, “ver quais antivirais, quais biofármacos com algum efeito contra o vírus elas podem usar”.

Outra linha de pesquisa fundamental refere-se a como tratar e recuperar as crianças com microcefalia, com lesões visuais, auditivas, cognitivas e possivelmente outras que ainda nem foram descritas.

Mais uma é a questão do vetor e da necessidade de se estabelecer estratégias mais eficientes de combate ao Aedes aegypti, “porque os métodos tradicionais não têm dado certo”, Maurício Barreto enfatiza. E provavelmente há que se buscar novos modelos matemáticos, novas estratégias epidemiológicas para enfrentar esse front em que a guerra vem sendo sistematicamente perdida há alguns anos.

Possivelmente neste momento o Brasil tem mais de cinco centenas de pesquisadores debruçados sobre tais questões, mas num grau de dispersão e de falta de coordenação dos esforços que, por uma questão de emergência na saúde pública, precisa ser superado. Urgentemente. Há uma expectativa de que exista de fato um programa nacional de pesquisa para enfrentar a emergência.



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