Giovanna Delazari/Facebook

Douglas, de braço erguido, ao lado de Walter Neves e Natália Pasternak

O número de blogs, vlogs, podcasts e canais de Youtube sobre ciência tem crescido muito nos últimos tempos. Hoje estamos vendo o encontro de uma vontade do público de conhecer melhor as fronteiras do conhecimento e o de jovens, principalmente alunos das áreas básicas de ciência, de falarem sobre sua paixão, a ciência. E a internet permite algo novo, diferente do que acontecia na época da série original Cosmos, com Carl Sagan – a interação direta entre público de divulgador, e o reconhecimento do cientista como ser humano. Até muito recentemente, a universidade era a torre de marfim dos pesquisadores, que ali ficavam interagindo apenas com seus pares, sem um diálogo direto com a sociedade. Claro que o trabalho de pesquisa sempre se reverteu em benefícios públicos – desenvolvimento tecnológico, aplicações em medicina, saúde, etc, mas ainda assim o cientista é visto como entidade inatingível, o “louco de jaleco” enfurnado no laboratório, fazendo seus experimentos e falando em uma linguagem ininteligível pela maioria. E isso sempre trouxe dificuldades no entendimento público do fazer ciência – afinal, por que investir tanto dinheiro em algo assim?
A internet é uma ferramenta poderosa para mudar esse paradigma, mas ela não é suficiente. Felizmente hoje temos também uma mudança de mentalidade em muitos jovens alunos e cientistas, que têm procurado encontrar seu papel social. Fazer ciência para publicar artigos, para aprovar projetos de financiamento, não basta mais. A ciência está cada vez mais sendo vista como uma atividade parte da cultura, da sociedade. E os jovens estão desenvolvendo novas formas de aproximar o público do cientista.

No dia 24 de junho, tive a oportunidade de participar de uma iniciativa nova do grupo Via Saber, de divulgação científica do Instituto de Física da USP, o “Ciência na Paulista”. Eu havia sido convidado a participar algumas semanas antes, depois de ter colaborado com o Via Saber com uma entrevista em seu canal de internet, e de ter conversado com um de seus integrantes, Caio Dallaqua. A ideia era ir além do Youtube, sair do conforto do ambiente da universidade e ir para as ruas. Apesar da internet permitir interação, ela ainda acontece de forma relativamente segura, com um embate de ideias controlável e até mesmo passível de censura. No mundo real, isso não se aplica. Assim, eu e os colegas, professores e pesquisadores Maria Júlia Kovács, Natália Pasternak, Renata Funchal e Walter Neves fomos à avenida Paulista, apoiados por um grupo de empolgados jovens divulgadores do Via Saber. Nos instalamos em frente ao prédio da Fiesp em mesinhas, estendemos faixas propagandeando a ciência para todos e esperamos para ver o que aconteceria. Era a primeira vez que tentávamos algo desse tipo, e acho que todos tínhamos medo que fosse um fracasso total. Afinal, quem que estivesse na Paulista aproveitando seu lindo domingo de Sol se importaria em falar sobre ciência e pesquisa? Ou ainda, será que seriamos agredidos de alguma forma por pessoas que tivessem alguma ideologia contra a ciência, ou contra o investimento público em pesquisa? Mas estávamos lá exatamente para quebrar a barreira, mostrar que cientistas são pessoas com quem é possível conversar.

Felizmente nossos medos se mostraram infundados. Fomos recebidos com curiosidade pela população. As pessoas queriam saber o que estávamos fazendo lá e quanto custava para participar. Era tudo gratuito, obviamente. Nenhum membro da organização (incluindo os cientistas) estava ganhando nada pelo trabalho. E logo alguns curiosos foram se aproximando, sentando e fazendo as mais variadas perguntas. Filas foram se formando, as pessoas começaram a se sentir à vontade para perguntar dúvidas que sempre tiveram, muitas delas causadas por falta de uma divulgação adequada de ciência, ou por deficiências no ensino. É incrível, mas mesmo em um ambiente privilegiado como a avenida Paulista, fica evidente que o acesso à informação é limitado, ou feito de forma errônea e incompleta.

Meu tema de discussão era a Astrobiologia – como a vida surgiu, como ela evoluiu e se ela pode existir em outros planetas. Tive muitas perguntas sobre extraterrestres, o caso de Varginha, a área 51. Expliquei esses e outros casos baseado no que a ciência sabe. Vi muitas pessoas se sentirem frustradas por saberem que, até hoje, não temos nenhuma evidência concreta de vida extraterrestre. Mas vi praticamente todos se empolgarem quando contei os avanços científicos e tecnológicos que estão acontecendo hoje, e que permitem que a gente continue avançando nossa busca pelo Sistema Solar e até mesmo por outros planetas da Galáxia. Vi os olhos de crianças e adultos brilharem quando contava que, muito provavelmente, logo estaremos pousando astronautas em Marte, que estaremos viajando entre os planetas para explorar nosso Universo de uma forma pacífica e em grandes colaborações internacionais, de uma maneira que hoje não conseguimos fazer em nosso próprio planeta pelos interesses econômicos e políticos.

Eu vi que as pessoas, mesmo na crise que estamos passando, sonham com mundos desconhecidos. A curiosidade humana continua presente e pode ser um motor incrível para o desenvolvimento social, cultural, tecnológico e econômico de um país. Se soubermos manter essa chama acesa, teremos alunos mais interessados nas escolas, teremos professores mais animados a irem além do conteúdo mínimo a ser ensinado, e, quem sabe, teremos até mesmo políticos capazes de entender a importância da ciência. O cientista tem um papel importantíssimo nesse processo de mudança, e as barreiras que existem entre eles e a sociedade precisam ser quebradas. Os canais de internet certamente são ferramentas poderosíssimas para atingir um grande número de pessoas, mas podem e devem ser complementados com outras atividades presenciais, como o “Ciência na Paulista”. Eu vi que dar a mão para as pessoas, sentar com elas, escutar, aprender e dividir o conhecimento é algo extremamente poderoso. Acredito que eu saí mudado do evento, e espero que algumas das pessoas com quem eu conversei tenham sentido que fazer ciência é importante, que é algo para todos.
Eu fui para a Paulista ainda carregando o sentimento arrogante de que iria ensinar algo, mas percebi que aprendi muito mais, com cada uma das pessoas. Fiquei emocionado pelas crianças que, apesar da timidez, vinham arrastando seus pais para poderem conversar com a gente. E cada pergunta difícil! Com sua curiosidade inocente insaciável, eu aprendi que nós cientistas não podemos esquecer que devemos manter esse espírito por toda nossa carreira. Devemos continuar fascinados pelo Universo, mas temos a obrigação social de dividir essa paixão com todos. Se queremos que a ciência seja apoiada, se queremos mais investimentos, mais bolsas de pesquisa, melhores laboratórios, universidades mais bem equipadas e um ensino de base capaz de formar alunos preparados para o futuro, precisamos mostrar ao mundo o que é ciência de verdade. E mostrar que nós cientistas somos humanos, com os defeitos e as paixões que todos têm.

O evento na Paulista foi transformador para mim, mas acredito que seja apenas o começo. Eventos como esse deveriam acontecer não apenas em lugares social e economicamente privilegiados, mas deveriam estar acessíveis a todos. Estamos em um momento de revolução no acesso democrático à informação pela internet, e também em uma mudança drástica na mentalidade de muitos de nossos jovens cientistas. Se continuarmos explorando esse caminho, acredito que podemos trazer a ciência para a sociedade, e avançar em nossa jornada humana por caminhos mais pacíficos e sonhadores na exploração de nosso universo natural e humano.

**Douglas Galante é doutor e pós-doutor em Astronomia pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG-USP). É pesquisador do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), trabalhando na área de astrobiologia e ciências planetárias. É também pesquisador associado do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia, NAP-Astrobio (IAG/USP) e tem experiência no estudo dos efeitos da radiação sobre sistemas químicos e biológicos, da micro à macro escala. Trabalha também com o fenômeno da origem da vida, sua adaptação às superfícies planetárias e a habitabilidade do sistema solar, inclusive utilizando plataformas espaciais.