Desde 2012, mais bebês estavam nascendo com microcefalia do que apontavam os registros oficiais

Mariluce Moura | 12 de fevereiro de 2016

Uma revisão dos casos de microcefalia nos últimos quatros anos apontou, para o período anterior à entrada do zika vírus no Brasil, um número muito maior de ocorrências dessa condição do que as registradas nos relatórios oficiais de saúde pública do país, divulgou na quarta feira, 10 de fevereiro, a revista The Scientist, publicação do LabX Media Group, sediado no Canadá, voltada à cobertura de temas ligados a biologia molecular, genética, estudos da célula e outros campos das ciências da vida.

A matéria, assinada pelo editor sênior Kerry Greens (dois dias antes, o site ABC também publicara matéria sobre o assunto), baseia-se em estudo conduzido pela cardiologista Sandra da Silva Mattos, ligada ao Círculo do Coração de Pernambuco, segundo o qual desde 2012 houve um aumento surpreendentemente grande — de 4% a 8% — de bebês aparentemente com microcefalia no universo investigado pela equipe da médica. Não bastasse isso, o número de bebês afetados por microcefalia atingiu o pico em 2014, sempre de acordo com o estudo, antes, portanto, do zika virus ter sido detectado no Brasil

Serviu de base à pesquisa mais de 16 mil registros de bebês nascidos entre 2012 e 2015 em centros médicos da Paraíba, um dos estados mais atingidos pelo zika. Esse grupo constituiu um corte, com dados mais detalhados, dentro de um levantamento amplo de registros de 100 mil recém-nascidos que vinham sendo analisados pela equipe de Sandra com interesse principalmente nas cardiopatias congênitas.

Vale lembrar que os números totais de recém-nascidos com suspeita de microcefalia, de setembro/outubro de 2015 a janeiro de 2016 é superior a 4.700, dos quais 400 casos confirmados, 700 descartados e os demais ainda sob exame.

Sandra Mattos esperava encontrar de 3 a 4 casos por ano de microcefalia nos 16 mil registros examinados, o que estaria em acordo com os dados dos registros oficiais. Mas os números eram muito mais elevados.

Assim, mesmo ao restringir a definição de microcefalia apenas às suas formas extremas, com taxas observadas de 0,04% a 1,9%, ou seja, em conformidade com o relatado em outras partes do mundo. “isso significava que centenas de bebês tinham microcefalia”, em discordância com a declarada incidência nacional, até 2015, abaixo de 200 casos por ano, disse ela.

“É possível que uma alta incidência de formas de microcefalia mais branda tenha ocorrido bem antes do surto atual, mas que apenas os casos extremos com fenótipos clássicos estivessem sendo notificados”, escreveram os autores do estudo no relatório publicado em 4 de fevereiro no boletim da Organização Mundial de Saúde (OMS).

 



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