Descoberta de peptídeo pode ajudar a tratar obesidade sem efeitos colaterais

Elisa Marconi | 23 de novembro de 2017
Cecília Bastos/USP ImagemImagens da ação do peptídeo que reduz a gordura

Imagens da ação do peptídeo que reduz a gordura

 

Se tem algo que podemos chamar de boa notícia são as descobertas com potencial para ajudar a tratar a obesidade. No mundo todo, segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 30% da população, cerca de 2 bilhões de pessoas, sofrem com essa condição que é uma antessala para problemas sérios e risco de morte, como pressão alta, diabetes e riscos cardiovasculares.

Na Universidade de São Paulo (USP), uma equipe de pesquisadores deu um passo importante ao identificar e descrever um peptídio, fragmento de proteína, com grandes chances de ser aproveitado como medicamento para tratar a obesidade.

Batizado com o simpático nome de Pep19, o composto produzido naturalmente no interior das células do corpo humano se saiu muito bem nos testes feitos com animais obesos no laboratório comandado pelo professor Emer Ferro, do Instituto de Pesquisas Biomédicas da USP. As pesquisas apontaram que o peptídeo reduziu o peso e as gorduras localizadas e melhorou os índices de glicemia, colesterol e pressão arterial, sem causar depressão ou outros efeitos adversos no sistema nervoso central.

Os resultados foram sistematizados pela pesquisadora Patrícia Reckziegel, atualmente fazendo pós-doutorado na Suécia, e colhidos com o apoio de uma equipe formada por William Festuccia, Luiz Britto e Rosângela Eichler, do ICB; Karen Lopes Jang, Carolina Romão e Joel Heimann, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP); Manoela Fogaça, Naielly Rodrigues, Nicole Silva e Francisco Guimarães, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP; e Achla Gupta, Ivone Gomes e Lakshmi Devi, da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos Estados Unidos. O trabalho virou um artigo científico publicado no último dia 01 de novembro no Scientific Reports da revista científica Nature.

Cecília Bastos/USP ImagemAs pesquisadoras Rosangela Eichler, Andrea Heimann e o professor Emer Ferro

As pesquisadoras Rosangela Eichler, Andrea Heimann e o professor Emer Ferro

A pesquisadora Andrea Heimann conta que o peptídeo descoberto atua e regula um receptor de canabidioides. Em termos científicos, “O  Pep19 se liga fora da célula no receptor CB1, que transmite sinais para o interior celular. Ao fazer isso, o peptídio diminui a atividade do CB1”, ensina. Ao Jornal da USP, Andrea falou que “a atividade desse receptor está ligada a diversas doenças e também à regulação do humor, da saciedade (relacionada com o controle de peso) e da dor. Sua inibição é a base do tratamento, por exemplo, da cirrose e da epilepsia.”

Percebendo que ele agia assim, os cientistas resolveram testar o composto para tratar obesidade e síndrome metabólica, sempre verificando se causaria alguma adversidade como depressão, efeito bem comum em medicamentos contra a obesidade.

O champanhe foi aberto quando a equipe de Patrícia descobriu que o Pep19 não só melhorou os parâmetros ligados à obesidade, como diminuição de peso e de gorduras localizadas, mas também que não interferia no sistema nervoso central. Ou seja, o composto era seguro e não causava depressão nem risco de algo mais sério. “Esta é a grande vantagem do Pep19, porque o fármaco similar saiu do mercado, pois algumas pessoas que tomaram tentaram cometer suicídio. Hoje em dia, não existe nada similar no mercado”, garante Andrea.

Os testes ainda não começaram com humanos, mas os roedores usados no experimento ficaram magrinhos e felizes.

Outras vantagens:

Cecília Bastos/USP ImagemLaboratório de Farmacologia de Peptídeos Intracelulares do ICB

Laboratório de Farmacologia de Peptídeos Intracelulares do ICB

O medicamento feito a partir do peptídeo poderá ser tomado por via oral, opção menos desconfortável que via injetável, como insulina. E, além disso, o Pep19 também melhorou parâmetros importantes para a síndrome metabólica, como glicemia (açúcar no sangue), insulina, colesterol e pressão arterial.

A patente do peptídeo já está registrada nos Estados Unidos e a pesquisadora calcula que os testes clínicos podem começar em seis meses. Se tudo avançar como previsto, o medicamento para humanos chega ao mercado em cinco anos.

 



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