J. Duran Machfee/Folhapress

Centro de São Paulo sob chuva: São Pedro trollando os moradores

Já ouviu falar no SOS Chuva? Não. Então acompanhe. Nem existia o elevador no mundo e as conversas sobre se vai chover ou não já rondavam os antigos. Mais do que puxar papo para evitar o silêncio, os fenícios, gregos, egípcios e tal precisavam ter alguma noção do clima para saber se plantavam, se colhiam, se esperavam tempos melhores.

Para atender à necessidade, os povos foram dando seus jeitos, inventando técnicas e, por que não, fazendo ciência. Observavam os fenômenos como o vento, o nascer e o pôr do sol, e o comportamento dos animais.

Uma exposição realizada no início de 2017 no  Museu Nacional de Zurique (Landesmuseum), na Suíça, passou por vários desses métodos até chegar à tecnologia mais usada hoje. Segundo a mostra, os babilônios eram bem clássicos e, há mais de 4 mil anos, preferiam olhar para as nuvens para descobrir o que viria dos céus. Os padrões das nuvens somados à posição das estrelas indicavam o clima que viria a seguir. Não é errado dizer que eles misturavam meteorologia com astronomia para fazer as previsões.

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Previsão heterodoxa: sapo no pote e o tempo fazendo vento

Falando em clássicos, os gregos adoravam o tema. O filósofo Aristóteles escreveu uma das primeiras obras sobre previsão do tempo, em 300 a.C. Chamado de Meteorologica, o documento foi pioneiro em usar abordagem mais científica.

Aristóteles ficava incomodado com a mania que os gregos tinham de atribuir chuvas, secas, dias ensolarados, ou dias nublados ao capricho dos Deuses. Ele não morava em São Paulo para desconfiar que o santo que dá nome à cidade vive de treta com São Pedro, padroeiro do céu. Se morasse na metrópole, talvez não duvidasse tanto do caráter religioso do tempo. Brincadeira à parte, Aristóteles observava e sistematizava os padrões da terra, do fogo, dá água e do ar para prever o clima.

A ideia colou tanto, que um discípulo do filósofo chamado Theophrastus escreveu um livro intitulado Os sinais, em que revela os métodos do mestre. É provável que o livro esteja esgotado na editora.

Pouco antes de Aristóteles, chineses e árabes desenvolveram equipamentos e calendários que, eles garantiam, funcionavam mesmo para prever o tempo. Os primeiros inventaram um calendário solar (bem científico, certo?), mas usavam junto com observações pouco ortodoxas, como ouvir grilos durante a noite, ou ver uma libélula voando, poderiam indicar dia de sol ou trovoada respectivamente. E segue: Formigueiro de porta fechada era sinal de tempestade. E a cor do céu também sugeria o tempo nos próximos dias.

Os vizinhos do oriente médio, feras na matemática, mediam a força do vento e calculavam, calculavam, calculavam. A direção, o que trariam, o que era bom para fazer com cada vento. Não querendo diminuir, chuva por ali é coisa rara, então prever que teríamos um dia quente e de sol era moleza. Incrível mesmo foi a invenção do astrolábio. Um aparelho mecânico, esférico e com alguns ponteiros que permite calcular a posição certinha do sol no universo. Lá para frente, o astrolábio permitiu a navegação pelo mundo todo e até a chegada dos portugueses por aqui. Se você está lendo este texto, pode agradecer aos árabes e islâmicos.

Até aqui está suave. Doidos mesmo eram os alemães e suíços, ou bávaros naquele tempo da Idade Média. Eles usavam um método entre bizarro e nojento. As famílias prendiam um sapo dentro de um pote com um pouco de água no fundo e uma pequena escada pro bicho se movimentar. Vai vendo: se o “sapo do tempo”, ou  wetterfrosch, em língua local, ficasse no fundo do jarro era sinal de tempo ruim. Se subisse a escadinha, dia de sol.

Agora, radical mesmo é esse grupo aqui:

Esse vídeo é da exposição mencionada lá em cima e mostra Martin Horat, um dos seis profetas meteorológicos no cantão de Schwyz. Ele e os outros cinco baseiam suas previsões usando formigas. ((Precisei parar de escrever para me coçar. Pronto, retomando.))

Agora que você já sabe tudo isso, vai ser bem legal conhecer o  SOS Chuva, um aplicativo que rastreia chuvas e tempestades num raio de 1km. Em tempo real, com antecedência de 30 a 60 minutos e sem lançar mão de formigas ou sapos e construído com ciência, sem adivinhação.

Desde outubro, o SOS Chuva pode ser baixado gratuitamente em smartphones e já conta com mais de 60 mil usuários. A Agência Fapesp trouxe a notícia e informou que o app foi desenvolvido por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), junto com pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, os dois últimos da Universidade de São Paulo (USP).

O grande barato aqui é o que os cientistas chamam de previsão do tempo imediata, que é diferente daquela que vemos nos jornais da TV. Aliás, lembra disso aqui?

Com a mesma pegada, os pesquisadores do projeto SOS Chuva ainda estão inventando mais dois aplicativos, um voltado para a agricultura e outro para a Defesa Civil. Os pesquisadores pretendem também aumentar a compreensão da dinâmica das nuvens e melhorar modelos matemáticos usados na previsão climática.

“É um projeto que tem o aspecto científico de melhorar modelos de previsão imediata e também outro aspecto associado à extensão, que é o desenvolvimento do aplicativo e de sistemas de alerta mais sofisticados para a Defesa Civil e para a agricultura”, disse à Agência, Luiz Augusto Toledo Machado, pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe) e coordenador do projeto.

Para chegar no aplicativo, os cientistas fizeram como os árabes: calcularam. Assim chegaram aos modelos para a previsão imediata. Essa mesma técnica vai ser usada também em um novo projeto de colaboração com colegas argentinos, chilenos e norte-americanos. “Continuaremos a coletar dados em Campinas e a melhorar nossos modelos até agosto de 2018. Depois disso, vamos levar nossa instrumentação para São Borja, no Rio Grande do Sul, para uma nova campanha de medidas de colaboração internacional”, disse Machado.

Curtiu? Melhor que posicionar astrolábio, olhar nuvens ou decifrar a cor do céu, certo? E baixar o app também é fácil. Busque SOS Chuva na App Store, se seu celular for um Iphone, ou na Google Play Store, se for Android e, pronto, separe o guarda chuva e a galocha e bom passeio.