*Texto originalmente publicado no Edgardigital, veículo de divulgação da UFBA, edição 83

Mapear a existência de petróleo em camadas profundas da terra, como o pré-sal, depende do aprimoramento contínuo de complexas tecnologias, como, por exemplo, o imageamento sísmico, método que responde por 90% do conhecimento mais preciso que se pode obter, previamente, de uma determinada área de exploração – de cuja expertise a UFBA orgulha-se de figurar na vanguarda nacional em termos de pesquisa em âmbito universitário.

Aprimorar continuamente essas tecnologias e ocupar esse lugar de proa, por sua vez, dependem de uma estrutura de pesquisa sólida, capaz de traduzir consistência acadêmica em credibilidade aos olhos das agências de fomento e da indústria, de modo a atrair os nada modestos investimentos necessários para a realização de pesquisa de qualidade em caráter permanente.

Essa consistência acadêmica, por sua vez, é produto do trabalho de toda uma comunidade de pesquisadores, docentes, corpo técnico administrativo e laboratorial e estudantes, ao longo de precisos 50 anos. E 50 anos, finalmente, merecem ser comemorados, e muito: 2018 é ano de celebração no Instituto de Geociências (Igeo) da UFBA, e os festejos começaram oficialmente nesta semana, com um ato comemorativo cujo carro-chefe foi o “revival” do ato que, em 1968, marcou o lançamento da pedra fundamental da construção do instituto.

O ex-reitor Roberto Santos, aos 91 anos, e a primeira diretora da unidade, Yeda Andrade, aos 84, lançaram na entrada do Igeo, uma “cápsula do tempo”, junto com o reitor João Carlos Salles e a diretora Olívia Oliveira. A exemplo da cápsula lançada por eles dois há 50 anos, a nova foi para alguns centímetros abaixo do solo do jardim do Igeo, contendo jornais do dia e outros documentos simbólicos.

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A diretora Olívia Oliveira e o ex-reitor Roberto Santos

A ideia de reviver o momento histórico partiu da diretora Olívia. Convidar Roberto Santos e Yeda Andrade, ela explica, foi uma maneira de reverenciar os dois líderes da equipe de pioneiros que montou o instituto. Em 1968, o então reitor Roberto Santos decidiu que a UFBA deveria atuar na formação de profissionais capacitados a explorar a pesquisa e a extração de petróleo, cuja reserva baiana de Lobato, a primeira a ser descoberta no país, começava a ser explorada pela Petrobras.

Yeda, então uma jovem docente da Faculdade de Filosofia e da Escola Politécnica simultaneamente, foi convidada “por sua seriedade e competência”, explica o professor Roberto, para liderar o processo. Outra virtude de Yeda era a independência, que a tornava a figura ideal para liderar um processo que afetaria interesses diversos e, por vezes, conflitantes, uma vez que envolvia a diluição de uma unidade (a então Escola de Geologia, criada em 1959 pelo pai de Roberto e primeiro reitor da UFBA, Edgard Santos), e a “cessão” do curso de geografia, bem como do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais e do Laboratório de Geoquímica à nova unidade.

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Yeda, a primeira diretora do Igeo, e Olívia, a atual

E assim, Yeda liderou, por dois anos, a equipe responsável por fazer o Igeo sair do papel – e, querida pela comunidade, foi eleita sua primeira diretora, em 1970, cargo que ocupou por quatro anos – justo no auge dos duros tempos de perseguição a professores e docentes pela Ditadura Militar, período em que foi tantas vezes obrigada a interceder junto ao reitor em favor dos perseguidos. Ela dedicaria a vida ao instituto, que voltaria a dirigir entre 2002 e 2006, antes de se aposentar.

“Microcosmo da UFBA”

Como parte das comemorações pelos 50 anos, a Escola de Belas Artes homenageará o Igeo com um monumento comemorativo, que faz alusão às quatro grandes áreas do saber geocientífico que formam o instituto: a geografia, a geologia, a geofísica e a oceanografia – os quatro cursos de graduação oferecidos pela unidade – , cada uma delas representada graficamente na escultura, cujo centro é a terra – uma forma esférica feita de quartzito azul, uma rara formação geológica encontrada em Boquira, no oeste baiano. A escultura foi concebida e está sendo confeccionada pelo professor da Escola de Belas Artes Nadson Portugal. A homenagem é “um compartilhamento de boas recordações” – a rocha usada na escultura é feita do mesmo material ofertado pelo Igeo, quando das comemorações pelos 140 anos da EBA, em 2017.

Aludir aos quatro cursos talvez seja a maneira mais clara de ressaltar uma peculiaridade nacional do Igeo, da qual praticamente toda a comunidade de geociências se orgulha: a multidisciplinaridade do instituto, que afinal reúne as humanidades (através, sobretudo, da geografia), as ciências biológicas (com a geologia e a oceanografia), as exatas (com a geofísica) e talvez até mesmo as artes – afinal, geólogos também têm algo a dizer sobre as gemas e pedras preciosas, matéria-prima de tantos artistas. “O Instituto de Geociências é um microcosmo da universidade”, resumiu o reitor João Carlos Salles, no discurso que antecedeu o ato símbólico, na quarta-feira (06/06). De fato, a UFBA é uma das poucas universidades brasileiras a abrigar essas quatro áreas em uma única unidade.

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Presente da Escola de Belas Artes, mural a ser confeccionado pelo prof. Nadson Portugal ficará na entrada do instituto

E assim o Igeo, que começou com dois cursos de graduação (geografia e geologia), ganhou mais dois (geofísica, em 1992, e oceanografia, em 2003), e já formou, ao todo, mais de 2.000 profissionais. Na pós-graduação, são quatro programas: Geofísica, segundo programa de pós da UFBA, criado em 1969; Geoquímica: Petróleo e Meio Ambiente, cujo nascimento também remonta a 1969; Geologia, criado em 1976; e Geografia, criado em 1993. Ou seja: carreado pelo petróleo, o Igeo tornou-se também um grande centro de produção de conhecimento em áreas tão diversas quanto os ecossistemas marinhos e costeiros e o planejamento urbano, as bacias hidrográficas e recursos hídricos de modo geral e a análise geográfica socioambiental.

Destacar um ou outro professor ou aluno em uma história de 50 anos seria, mais do que difícil, injusto – afinal, tantos foram os nomes de destaque que por ali passaram, ou que seguem na ativa, na escola, até hoje. Uma curiosidade, revela a diretora Olívia, é que tem sido comum receber no Igeo novos alunos que contam ter optado por uma das quatro áreas das geociências por influência dos pais, profissionais ou professores ali formados. Um “caso emblemático”, ela diz, é o de uma aluna que se formou em 2016.2 em geologia, “exatamente quarenta anos depois do pai” formado em 1976.2, entusiasma-se Olívia. Pai e filha hoje atuam na área de geologia do petróleo: Ademilson Brito é gerente de exploração em uma empresa do ramo de petróleo, e sua filha Urânia é mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Geoquímica: Petróleo e Meio Ambiente. Que venham então as novas gerações – ou, como disse o ex-reitor Roberto Santos, “agora é preparar para os 100 anos”.

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Urania e Ademilson: pai e filha formados em geologia num intervalo de 40 anos

Em busca do “petróleo difícil”

O professor Amin Bassrei, coordenador do Programa de Pós-graduação em Geofísica (PGEOF), diz que “o petróleo fácil já foi explorado”. Por isso, é cada vez mais necessário buscar maneiras de descobrir e explorar o petróleo que se encontra em locais de difícil acesso, porque mais distantes da superfície – razão pela qual o Instituto de Geociências vem realizando importantes projetos de pesquisa através de dois de seus programas de pós-graduação: o PGEOF e o Programa de Pós-graduação em Geoquímica: Petróleo e Meio Ambiente (Pospetro).

Em 2016, foi instalado no Igeo o Centro de Excelência em Geoquímica do Petróleo, projeto que já acumula aproximadamente R$ 45 milhões em recursos investidos, vinculados a projetos aprovados em patrocínios da Shell Brasil, graças a um dispositivo legal da Agência Nacional do Petróleo que estabelece a obrigatoriedade aplicação de aproximadamente 1% do lucro bruto de empresas de petróleo em pesquisa e desenvolvimento no país. Outras companhias de petróleo também têm aportado recursos para investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

Esses investimentos possibilitam a aquisição de equipamentos de ponta para o instituto, como um cromatógrafo gasoso com espectrometria de massa (que auxilia na identificação de rochas potencialmente geradoras de petróleo, já que é capaz de separar, identificar e quantificar compostos orgânicos de hidrocarbonetos) e um bioanalyser (que permite a quantificação e qualificação de DNA, RNA e proteínas, para auxiliar na prospecção de genes de microrganismos relacionados à degradação de petróleo).

O professor Antônio Fernando Queiroz, coordenador do Pospetro entre 2004 e 2012 e atual diretor da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Extensão (Fapex), destaca que o Centro de Excelência confere relevância nacional à UFBA na área de geoquímica do petróleo, já que a maior parte dos investimentos nesse setor costumam ser feitos no eixo sul-sudeste.

Na área de geofísica, houve um grande avanço com a criação do INCT em Geofísica do Petróleo, sediado no instituto, coordenado pelo professor Milton José Porsani. Criado na primeira leva dos INCTs (institutos nacionais de ciência e tecnologia, que congregam várias universidades em grandes redes de pesquisa nacional e internacional e, por isso, recebem grandes financiamentos), o instituto recebeu apoio da Petrobras e atualmente reúne pesquisadores de cinco universidades (as federais do Pará e do Rio Grande do Norte e as estaduais de Campinas (SP) e do Norte Fluminense (RJ), além da UFBA). As pesquisas desenvolvidas no INCT têm tido como objetivo a superação das dificuldades crescentes na exploração do petróleo e também o aprimoramento técnico visando a exploração do pré-sal.

O professor Bassrei explica que o PGEOF foi responsável por avanços relacionados ao processamento de dados sísmicos, que é uma das três etapas da exploração do petróleo em escala industrial. Quando as ondas sísmicas são captadas pelas estações sismográficas, faz-se necessário interpretar o que os especialistas chamam de “dados sísmicos”. A partir daí, inicia-se um trabalhoso processo de interpretação desses dados: considerando grandezas como a velocidade de propagação das ondas sísmicas, é possível estimar o tipo de rocha que há na sub-superfície, e se ela contém ou não óleo em seus poros.

A crescente dificuldade de se encontrar o petróleo tem exigido técnicas cada vez mais modernas, cujo principal destaque, segundo Bassrei, é o método eletromagnético de prospecção de multifrequência, objeto de estudos realizados na bacia sedimentar do Espírito Santo pelos professores e pesquisadores do Igeo Olivar Antônio Lima de Lima, Hédison Kiuity Sato e Carlos Alberto Dias, integrantes do INCT. Através do método eletromagnético, é possível realizar o imageamento da subsuperfície sem os ruídos e distorções de outros métodos. Como resultado do experimento, alcançou-se não só um aperfeiçoamento do método, como também foram encontradas rochas-reservatório que contêm de petróleo.

A pós-graduação relacionada ao petróleo tem atraído estudantes de formações diversas: não só ex-alunos de graduação do Igeo, mas também físicos, químicos e engenheiros com diferentes especializações buscam esses programas para se aprofundar nos assuntos e processos relacionados ao petróleo.

Geociências em rede

Além das parcerias com universidades brasileiras, todos os programas de pós-graduação do Igeo também têm buscado a internacionalização. O Programa de Pós-graduação em Geografia (Posgeo), por exemplo, possui convênios com as universidades de Santiago de Compostela e Coimbra, e está consolidando uma rede da qual fazem parte as universidades de Madri e Sevilha, além de outras instituições do nordeste brasileiro. Por outro lado, o instituto também tem recebido alunos estrangeiros, vindos de países como a Colômbia – de onde PGEOF e Pospetro também receberam alguns estudantes nos últimos anos. Para o próximo semestre, a expectativa é receber dois alunos de Moçambique.

O Programa de Pós-graduação em Geografia também é responsável pela edição da revista GeoTextos. Coordenada pelo professor Ângelo Serpa, a publicação abre espaço para pesquisadores de universidades de todo o país divulgarem a sua produção. Para o coordenador do Posgeo, Antônio Ângelo, a revista, nota B1 na avaliação da Capes, é um dos principais meios de divulgação de resultados do programa. Ele diz que o programa “a cada dia que passa, diminui mais a fronteira entre a sociedade e a universidade”. Seja através de programas como o Pibid, que articula o sistema universitário com a rede pública de ensino, levando estudantes de licenciatura para realizarem estágios em escolas municipais e estaduais, ou por meio da realização de eventos abertos à comunidade, que também são um meio de se manter em contato com esta, avalia o professor Antônio Ângelo, coordenador do programa. Em 2017, por exemplo, a UFBA sediou pela segunda vez o Simpósio Nacional de Geografia Urbana, evento que discutiu a geografia por um viés interdisciplinar com pesquisadores de todo o país.

Outro exemplo de integração com a comunidade é o grupo de pesquisa Geografia dos Assentamentos na Área Rural (GeografAR), que trabalha com linhas de pesquisa como a Educação no Campo e Povos e Comunidades Tradicionais. Tendo como alvo as populações que vivem e dependem da terra, o grupo realiza cursos de extensão relacionados com a questão agrária, direitos territoriais e identidades coletivas dessas populações.

Rochas da terra, rochas do céu

O quadro geológico baiano é muito diversificado. De acordo com a professora Simone Cruz, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Geologia (PPPGG), o estado da Bahia possui desde rochas que se formaram há 3,5 bilhões de anos, fruto da atividade de arcos de vulcões situados em zonas de choque de placas tectônicas, quanto rochas recentes, relacionadas à formação de bacias sedimentares e à separação do Brasil e da África.

À variedade de objetos de estudo aos quais os estudantes e pesquisadores do programa podem se dedicar, somam-se ainda os meteoritos, que têm um número elevado de registros na Bahia. Em maio de 2017, um fragmento rochoso vindo do espaço caiu em uma fazenda no município de Palmas de Monte Alto, levando pesquisadores a empreenderem uma jornada para trazer o meteorito para a Universidade, relatada no Edgar Digital. Temáticas voltadas a petrologia, metalogênese e exploração mineral permitem avançar o conhecimento das geociências na Bahia e em regiões vizinhas.

Outro campo em que o os pesquisadores do programa desenvolvem estudos é a avaliação das mudanças climáticas e seus efeitos nos recifes de corais da região Nordeste. Esse tipo de ecossistema é muito sensível e necessita condições muito específicas para se desenvolver: águas pouco profundas, transparentes e iluminadas. A partir disso, o acumulo de calcário depositado por animais marinhos forma os recifes, que servem como barreira para a força das ondas e são fonte de alimento para a fauna marinha.

As mudanças climáticas, a poluição das águas e atividades de exploração como a pesca com explosivos têm devastado recifes de corais no Brasil e no mundo, explica a professora Simone. Visando reagir a esse processo de degradação, o PPPPGG tem atuado em parceria com a Rede Global de Monitoramento de Recifes de Corais. Outro destaque do programa é o INCT em Ambientes Marinhos Tropicais, coordenado pelo professor José Maria Landim Dominguez com pesquisas na área de origem e evolução da zona costeira e plataforma continental, Variações do Nívels do Mar, Sedimentação Marinha dentre outros – que também já foi assunto de outra edição do Edgardigital.

Em suma: em conjunto, as pesquisas realizadas pelo Igeo, ao contribuir para “a geração de riquezas desse país, em todas as suas áreas de competência”, concretizam “o papel fundamental da Universidade de gerar conhecimento que possa mudar a qualidade de vida de seu povo”, resume a diretora Olívia – e para isso, ela enfatiza, as parcerias institucionais ao longo desse tempo têm sido fundamentais: “digo que a credibilidade é uma via de mão dupla, e essa é a melhor garantia de crescimento para ambos”.