Sair da caixa, ir além dos livros, olhar para o céu e ganhar o mundo. Esses são os objetivos nada modestos dos voluntários do Projeto Cosmos para os estudantes do ensino médio de escolas públicas de Manaus.

Projeto Cosmos/ Arquivo pe

Voluntários e estudantes reunidos em uma oficina

A iniciativa, tocada por estudantes universitários – em sua maioria do curso de Física da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) – leva astronomia e ciências para as escolas, já conta com o apoio da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA) e foi uma das selecionadas para ser apresentada durante o 2º Simpósio em Atividades de Educação Espacial, que acontece entre 11 e 13 de abril em Budapeste, na Hungria.

Estudante de engenharia da Computação da UFAM, Carlla Vicna é uma das fundadoras do Projeto Cosmos e explica que o objetivo é promover e difundir a ciência de um jeito divertido, aproveitando para falar de astronomia, passando por matemática, física, química e outras disciplinas.

O estalo para montar o projeto surgiu da própria trajetória de Carlla que, embora fosse boa aluna, sentia que os estudos sempre vinham de uma demanda e não de uma busca própria por conhecimento. “Parece que o que eu aprendia estava distante da minha realidade. Além disso, ser um cientista era algo tão distante pra mim. Para ser sincera até meu ensino médio eu não tinha nenhuma ideia de como se fazia uma pesquisa científica. E os incentivos quando eu pensava em carreira limitavam-se a medicina e direto”. A virada veio quando, ainda estudante do ensino médio, participou da OBA, a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica. O professor do colégio disponibilizou um material para os interessados estudarem e ela se deu conta de que não entendia nada de astronomia. Mas curtiu e se debruçou. “Depois disso ficou impossível parar, era tudo muito curioso, interessante e fascinante. Cada vez eu queria saber mais e quanto mais eu lia mais eu me dava conta que até aquele momento eu não sabia explicar muita coisa que acontecia no meu dia a dia, como as estações do ano, o porque vemos apenas um lado da lua, não sabia identificar nenhuma estrela no céu, nem mesmo sabia que o Brasil tinha um programa aeroespacial. Parecia algo que eu deveria saber, que todos deveriam saber, mas ninguém realmente aprendia no colégio”.

Na primeira participação, a estudante da UFAM ganhou a medalha de bronze. Na segunda, voltou para casa com o ouro. E com uma pulguinha atrás da orelha que impelia a fazer mais alguma coisa para impactar outros meninos e meninas a mergulhar nas ciências.

Em 2015, quando entrou na faculdade de ciências da computação, Carlla Vicna montou seu Projeto Cosmos. Ao lado de outros estudantes voluntários – hoje são 25 – organiza aulas interativas, oficinas, experimentos, mostra vídeos e faz desafios nas escolas públicas de ensino médio.

“Acreditamos que a Astronomia é um canal para se chegar até a criança e o jovem, pois eles são naturalmente interessados pelo assunto, eles escutam com os olhos arregalados e os ouvidos atentos e perguntas e curiosidades brotam de suas mentes”, explica, “A gente tem o propósito de ensinar o que é ciência, como é feita, e aproximar essa realidade deles, mostrando que eles também podem ser cientistas. Citando Carl Sagan, ciência não é apenas um corpo de conhecimento, é uma maneira de pensar”, defende.

Nesses três anos de projeto, Carlla garante que já viu algumas transformações acontecerem na vida dos secundaristas que fizeram as aulas e oficinas e defende que essa é uma das revoluções que a ciência promove. Por oferecer ferramentas para conhecer e questionar o mundo, empodera o pesquisador. Parece textão de Facebook, mas faz sentido a maneira como ela defende esse poder. Olha só:

Arquivo pessoal

A estudante da UFAM defendendo o Projeto Cosmos

“Lembro como se fosse hoje o dia em que comecei a estudar sobre reconhecimento de constelações. Tem um software muito legal de simulação do céu, o Stellarium. Eu havia começado por Órion, porque partindo das três Marias seria fácil identificar as outras estrelas da constelação. Eu saí da frente do computador e fui olhar o céu e lá estava Betelgeuse brilhando diferente das outras estrelas da constelação, brilhando vermelha. E de repente aquilo me emocionou, eu senti um grande sentimento de pertencimento, uma conexão como mundo ao meu redor. Muitas pessoas comentam sobre o quanto se sentem pequenas ao refletir sobre o tamanho do universo. Naquele momento e até hoje , quanto mais aprendo sobre ele, mas me sinto grande no sentido de que ter compreensão de pelo menos parte disso é algo incrível e especial. Nós somos grãos de poeira diante da vastidão do universo e olha o que conseguimos descobrir sobre ele! Acredito que ter contato com a ciência me fez mais questionadora, menos preconceituosa, mais aberta a novas ideias. Ter contato com a ciência me fez sentir mais empoderada”.

Olhando para o projeto Cosmos, o que costuma acontecer com os alunos é que, nas primeiras aulas, eles perguntam muito. Do segundo encontro em diante, já chegam orgulhosos contando o que eles descobriram e o que eles pesquisaram e com novas dúvidas sobre assuntos que ainda nem foram explicados. É comum também que a escola que recebe as oficinas se inscreva nas Olimpíadas de Astronomia e Matemática e mande representantes. Já aconteceu, para orgulho da fundadora, que estudantes do projeto ganhassem medalhas na OBA, por exemplo.

Os resultados da experiência e das metodologias de ensino do projeto de Carlla viraram um artigo científico que despertou o interesse dos organizadores de um evento internacional, o 2º Simpósio em Atividades de Educação Espacial. Para conseguir mandar um representante, os voluntários lançaram uma campanha de financiamento coletivo. Até a data da publicação dessa reportagem, eles já haviam conseguido R$ 4225,00 dos R$8000 necessários.

 

Apresentar o projeto fora do Brasil é uma maneira defender a metodologia de aulas, oficinas e experiências desenvolvida pela equipe e propor uma abordagem mais divertida para as ciências. É uma forma de jogar luzes sobre ideias inovadoras que podem contribuir para o ensino de ciências e para despertar a vontade de ser cientista e produzir conhecimento e tecnologia entre os jovens do país. A vaquinha se encerra nesta sexta-ferira, 06 de abril.