Cuidando do futuro de nosso planeta

Paulo Artaxo | 30 de março de 2016

Nosso planeta está passando por um processo de transformação muito forte e rápido, que pode levar as gerações futuras a terem dificuldades com a escassez de recursos naturais e com um clima menos amigável do que o que temos hoje. E somos nós que estamos promovendo tais mudanças, muitas das quais sequer nos demos conta.

A Terra tem uma história longa, de 4,5 bilhões de anos. O homem moderno só apareceu muito recentemente (200 mil anos atrás), e a civilização tal qual a conhecemos hoje existe há apenas 6 mil anos. Foi, contudo, nesse último milênio, que o nosso planeta passou por mudanças significativas, estando hoje bem diferente do que era àquela época.

A partir do século XIX, o homem descobriu que queimar carvão, petróleo ou gás natural poderia produzir trabalho, e isso iniciou a revolução industrial, que tantos progressos trouxe à humanidade. Porém, com o progresso vieram também os problemas, e um deles é o uso excessivo de recursos naturais como água, minerais e outros, que são finitos.

Com uma população de 7 bilhões de pessoas em 2016, cuja estimativa é que chegue a cerca de 10 bilhões de pessoas em algumas décadas, temos que pensar na sustentabilidade do planeta a longo prazo. Entre as 9 milhões de espécies biológicas em nosso planeta, somos uma fração enorme controlando a biosfera da Terra, a tal ponto que estamos alterando a composição da atmosfera, com fortes consequências para o clima global.

Áreas enormes das Américas, Europa e Ásia que eram florestas, há alguns séculos, hoje são áreas cultivadas ou com estradas e cidades, o que significa rigorosa mudança no uso do solo, com reflexos em várias propriedades que regulam o clima do planeta. Hoje, temos cerca de 1,3 bilhões de automóveis e estima-se que sejam 2 bilhões em algumas décadas.

Somente na cidade de São Paulo, temos 7 milhões de carros, para cerca de 18 milhões de pessoas. Parece claro que não pode continuar desse jeito, pois estamos esgotando rapidamente os finitos recursos naturais de nosso planeta.

Para estudar essa questão, um grupo de cientistas mundiais fundou uma atividade chamada em Inglês de “Future Earth”, ou “Terra Futura” (site: http://www.futureearth.org/). Essa iniciativa visa entender como o desenvolvimento de nosso planeta pode se tornar sustentável a longo prazo. O objetivo do Future Earth é produzir o conhecimento científico necessário para minimizar os riscos das mudanças climáticas globais e realizar a transição para a sustentabilidade global.

Garantir a sustentabilidade de nossa sociedade vai envolver fortes mudanças de atitude de e para todos nós. A enorme desigualdade na distribuição das riquezas de nosso planeta traz instabilidade política, econômica e social, e é preciso minimizá-la para evitar conflitos mais sérios.

O acesso universal à água e à comida foi reconhecido como um dos objetivos do chamado “Millenium Development Goals”, um conjunto de metas acordadas pelos 196 países da ONU, visando o desenvolvimento sustentável da Terra, a longo prazo.

Nessa perspectiva, o Future Earth desenvolve projetos científicos que visam dar uma direção às políticas públicas no sentido de garantir clima e sociedade estáveis às gerações futuras. Não será uma tarefa fácil, pois envolve pensar em metas a longo prazo (20-100 anos), que nossos políticos não estão muito acostumados a trabalhar, mas absolutamente necessária.


Paulo Artaxo, Professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo



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