Cuidado com o rabo!

Francisco Bicudo | 19 de novembro de 2017
Lauren Sallan - Daily Mail, Reino Unido3B23E9DA00000578-4009286-Fossils_of_the_ancient_fish_found_evidence_of_two_growths_which_-m-6_1481119258462

Fósseis de exemplar jovem do peixe ancestral mostram evidências de duas formações que se tornariam caudas nos animais maduros

Há cerca de 350 milhões de anos, o peixe ancestral Aetheretmon valentiacum viajava pelos nossos mares e rios primitivos impulsionado por duas caudas – uma mais carnosa, conectada à vertebra da espécie, e outra mais molenga, que fazia as vezes de nadadeira.

Com o passar do tempo, a evolução e a necessidade de adaptação, os descendentes do peixe que permaneceram vivendo nas águas mantiveram apenas a estrutura flexível, ganhando agilidade de locomoção. Já os herdeiros que resolveram arriscar e ousar, abandonando o ambiente aquático e se aventurando pelo terrestre, desenvolveram só a cauda carnosa, provavelmente garantia de estabilidade e equilíbrio para o corpo; mais tarde, esse rabicho, em nova mutação, ainda iria se transformar em membros superiores e inferiores.

Foi graças a essa história e alterações que os seres humanos perdemos – com precisão científica e licença poética – o primeiro rabo que tivemos. Mais recentemente, quando nos tornamos bípedes e passamos a andar de forma ereta, inaugurando linhagem distinta da dos nossos parentes chimpanzés, por exemplo, acabamos perdendo a segunda cauda que a natureza nos deu.

As evidências desse longuíssimo processo foram apresentadas por estudo publicado pela paleobióloga Lauren Sallan, da Universidade da Pensilvânia.

Vale considerar, é verdade, que os caminhos e atalhos que a evolução ofereceu à espécie humana deixaram também rastros e consequências nem tão agradáveis e que nos afligem – e como – até hoje. Segundo outro trabalho científico, desta feita desenvolvido na Universidade de Oxford e divulgado no final de 2016, a capacidade de andar apenas com as pernas, liberando as mãos para outras tarefas, pode ser considerada uma das responsáveis pelas nossas muitas vezes crônicas e impertinentes dores nos joelhos, na coluna e nos ombros. Ainda estaríamos gradativamente nos acostumando a uma habilidade tão recentemente conquistada, levando em conta os milhões de anos da história dos hominídeos.

É fascinante perceber, no entanto, e ainda que se reconheça e se reforce que incômodos sobrevivem, como é inteligentíssima a natureza. Já imaginaram se, em plena era da pós-modernidade e da pós-verdade, além de lidar com Brexits, Trumps e golpes domésticos a nos atormentar, ainda fôssemos obrigados a andar por aí arrastando nossos rabos de Homo sapiens, preocupados a todo instante em evitar que provocassem balbúrdia e transtornos?

Os sofás, os bancos e as cadeiras de todos os ambientes (teatros, cinemas, estádios de futebol, nas nossas casas), por exemplo, precisariam ser generosamente repensados e desenhados de forma a oferecer buracos traseiros anatômicos e confortáveis, especialmente idealizados para acomodar, sem dores ou apertos, nossas caudas. Seria uma missão para os designers de móveis.

Nas escolas e universidades, as salas de aula seriam o caos, verdadeiros campos minados, aluno tropeçando no rabo do colega ao lado, cuidado, esse é o meu, tira a mão daí, não mexe no que não é seu, pode fazer o favor de tirar o pé do meu rabo. Já não bastasse ter de tomar conta das conversas paralelas, do Datashow, do tempo que sempre falta para conseguir cumprir o conteúdo programático, o coitado do professor, andando atordoado de um lado para outro, ainda seria obrigado a prestar atenção redobrada para não tropicar num desses ardilosos obstáculos corpóreos longilíneos. Seria um vexame. Que temeridade.

A respeitar ainda a diversidade da espécie, teríamos rabos mais longos, mais curtos, gordinhos, rechonchudos, fininhos, ásperos, lisos, com pintas, uns escuros, outros claros. Se esfregar as costas no banho já é um inferno, a gente raramente consegue higienizar todos os cantinhos da cacunda e sempre acaba sobrando alguma sujeirinha, alcançar a ponta da cauda seria impossível. A não ser que fossem inventados artefatos parecidos com os paus de selfie, com sabão e esponja na ponta, para dar conta de tarefa tão ingrata. Fica a dica para os empreendedores (se bem que é viagem minha, não temos rabo, esse palitão não é necessário. Estava ficando tão real. Acabei me empolgando).

E se três rabudos resolvessem entrar ao mesmo tempo numa loja de cristais? Vira de lá, procura de cá, gira de novo para pedir ajuda para a atendente (também com uma cauda considerável). Tragédia anunciada. Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar, coitados, teriam de se virar nos trinta para pedalar e driblar não apenas os zagueiros adversários, mas também para escapar dos rapas e rodos dos próprios rabos. A sutileza e a elegância do gingado da porta-bandeira na avenida no carnaval estariam profundamente prejudicadas. Não há samba no pé que resista à ameaça de uma rabada. Ao menos teríamos finalmente razão verdadeira para sair por aí dizendo ‘é bom você enfiar o rabinho (ou o rabão) entre as pernas e sair daqui bem de fininho’.

Não daria certo. Melhor mesmo viver sem rabos. Dona natureza, senhora vetusta e lúcida, sabe o que faz. Se ela ainda me permite humildes sugestões, gostaria de pedir que avaliasse a possibilidade de, em adaptações e mudanças que estão por vir, eliminar esse nosso maldito dedinho do pé. Só serve para bater na quina da cama quando a gente acorda sonado, cara amassada, numa dor lancinante e que nos faz xingar e amaldiçoar até a última geração dos nossos antepassados (tenham eles caudas ou não). O dente do siso é outra praga que poderia sumir, não tem mais função alguma, é só gengiva machucada, bochecha mordida e o trabalho de ir ao dentista para arrancar esse intruso contemporâneo, numa cirurgia quase medieval.

Nos dias em que acordo mais pessimista, sufocado pelas intolerâncias, racismos, homofobias, machismos, terrorismos e outros ismos cegos, suspeito que vou mesmo é ouvir a senhora natureza dizer ‘foi um erro de percurso, assumo, não deu certo. Tentei, dei a chance, mas vocês não souberam aproveitar tamanho privilégio. Estou arrependida. Vou apertar o botão evolutivo e seletivo genético que vai fazer desaparecer o cérebro da espécie’.



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