*Ben Guarinodo, Washington Post e republicado na Folha de São Paulo, 22 de março de 2018

 

Em estudo, apenas 30% das representações eram femininas

Em 1983, um cientista social chamado David Chambers publicou um estudo sobre crianças e seus desenhos. No final dos anos 1960 e durante os 1970, professores haviam pedido a 5.000 crianças que desenhassem cientistas.
Alguns dos traços frequentes nesses desenhos eram jalecos de laboratório, exclamações de eureca e costeletas longas. Um tema singular surgiu: os cientistas desenhados eram homens.

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“Nenhum dos meninos envolvidos no estudo desenhou uma mulher como cientista”, disse David Miller, aluno de pós-graduação em psicologia na Universidade Northwestern. Apenas 28 meninas desenharam cientistas mulheres —menos de 1% dos participantes do estudo, um grupo no qual a proporção de meninas era de 49%.
Mas o retrato que as crianças têm na cabeça sobre a figura de um cientista parece estar mudando. Nos últimos cinco anos, Miller e seus colegas na Northwestern revisaram 78 estudos nos quais crianças foram convidadas a desenhar cientistas, todos realizados depois da publicação do relatório de Chambers.
De 1980 em diante, três em cada 10 participantes desenharam figuras femininas como cientistas. As crianças mais jovens, especialmente as meninas, apresentavam maior probabilidade de desenhar cientistas mulheres, segundo o relatório sobre o estudo, publicado na terça (20) pela revista Child Development.
O estudo demonstra que os estereótipos de gênero que as crianças adotam quanto aos cientistas mudaram nas últimas cinco décadas, nos Estados Unidos, segundo Jocelyn Steinke, professora de comunicações na Western Michigan University, que pesquisa sobre a representação de cientistas na mídia e não participou do estudo.
Os resultados surgem em um momento no qual cientistas como a ecologista Jane Zelikova estão lutando contra o estereótipo de cientistas do apresentador de TV Bill Nye — “velhinho, pálido e homem”, nas palavras dela. Zelikova, cientista e pesquisadora na Universidade do Wyoming, é uma das fundadoras da 500 Women Scientists, uma organização ativista que defende a igualdade na ciência. A organização não demorou a ultrapassar a marca inicial de 500 signatárias de sua carta aberta, e hoje tem 400 divisões locais com entre 10 e 200 integrantes cada.
Como a presença de mulheres na força de trabalho científica cresceu, Miller e seus colegas previram que a tendência a desenhar homens diminuiria com o tempo. “Foi o que constatamos”, ele disse.
Reunindo desenhos produzidos por quase 21 mil estudantes, do jardim da infância ao ensino médio, os autores do novo estudo também identificaram uma mudança de percepção por volta dos oito anos de idade.

IDADE
Antes do ensino médio, a maioria das meninas desenha cientistas mulheres e a maioria dos meninos desenha cientistas homens. Mas entre os estudantes de idade mais alta, a proporção de desenhos representando cientistas como homens sobe. “Acreditamos que isso reflita o fato de que as crianças aprendem estereótipos sobre cientistas à medida que crescem”, disse Miller.
A representação feminina na ciência flutua de acordo com o campo. Em 2013, as mulheres correspondiam a 49% dos biólogos e a 35% dos químicos, mas apenas a 11% dos astrônomos e físicos. As mulheres obtêm o maior número de diplomas de graduação nas ciências sociais e biológicas e na psicologia, de acordo com estatísticas da Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos, enquanto os homens obtêm mais diplomas nas áreas de engenharia, física e ciência da computação.
“A porcentagem de mulheres cresceu ao longo das décadas, mas ainda não existe paridade”, disse a psicóloga social Sapna Cheryan, que estuda questões de gênero e Stem (acrônimo em inglês que significa ciência, tecnologia, engenharia e matemática) na Universidade de Washington e não participou do estudo.
Alguns dos programas de TV mais populares reforçam os estereótipos sobre ciência da computação e física como domínios masculinos, disse Cheryan, citando “Silicon Valley” e “The Big Bang Theory”. Quando esse último criou papéis para mulheres cientistas na série, depois de algumas temporadas, as cientistas eram biólogas, outro exemplo da ideia de que “homens são engenheiros e físicos, e mulheres fazem biologia”, disse Cheryan.
Steinke diz que agora vemos programas de televisão como “SciGirls” e “Project Mc2” e filmes como ‘Gravidade’ e ‘Estrelas Além do Tempo’ que buscam inspirar as meninas, oferecendo exemplos positivos de mulheres na ciência, tecnologia, engenharia e matemática.
O filme de maior sucesso até agora este ano, “Pantera Negra”, tem uma personagem chamada Shuri, uma cientista jovem e muito competente em tecnologia que dirige seu próprio laboratório. “Ela é demais”, disse Zelikova, que assistiu ao filme três vezes.

APARÊNCIA
Fora das telas, persistem as expectativas quanto à aparência de um cientista. Metade dos estudantes cujos desenhos foram avaliados no estudo retrataram cientistas usando jalecos de laboratório. E 80% dos desenhos foram interpretados como representações de pessoas brancas.“Minhas roupas não são as que uma cientista nerd usaria”, disse Maryam Zaringhalam, bióloga molecular norte-americana de origem iraniana e membro do 500 Women Scientists.
Quando vai ao bar, se Zaringhalam revela que é cientista, as reações que encontra são estranhas. “Há um estranho fetiche das pessoas por cientistas”, ela disse, especialmente, acrescentou, se “você for mulher e não caucasiana”.
Quando questionada se considerava os resultados do estudo promissores, Zelikova citou Ruth Bader Ginsberg. A juíza da Suprema Corte certa vez declarou que ficaria satisfeita quando o tribunal fosse formado por nove mulheres. “Vinte oito por cento não é suficiente, nem de longe”, disse.
Como mudar a percepção quanto ao que é um cientista? “Se desejamos de fato que as pessoas se vejam na ciência, temos de lhes mostrar cientistas que se pareçam com eles e falem como eles”, disse Zaringhalam.
Para isso, a 500 Women Scientists criou um banco de dados para que as pessoas possam solicitar palestras e que inclui mais de 5.000 nomes de mulheres cientistas prontas para falar em público, em conferências ou a jornalistas.
Encontros com cientistas reais podem ajudar a desmantelar o estereótipo de Bill Nye. Uma variação do teste solicita que estudantes desenhem cientistas antes e depois de um encontro com os profissionais. Quentin Cooper, jornalista da rádio BBC, relatou os resultados de um desses estudos, na revista New Scientist em 2011: o primeiro desenho de uma menina mostrava um homem de jaleco de laboratório e cabelos revoltos; mas o segundo mostrava uma mulher com um tubo de ensaio na mão, e uma legenda que dizia apenas “eu”.

Tradução de PAULO MIGLIACCI